Pedro Magalhães: "As duas realidades em que vivemos são ambas alternativas à realidade"

Uma conversa ao almoço com Pedro Magalhães, sociólogo e diretor científico da Fundação Francisco Manuel dos Santos

Pedro Magalhães almoça quase sempre na cantina do Instituto de Ciências Sociais, onde é investigador nas áreas de opinião pública e comportamentos eleitorais. O desassossego de uma cantina em hora de almoço desaconselha entrevistas ou conversas mais calmas, pelo que acabámos ali perto, no LA Caffé, um tranquilo restaurante num primeiro andar por cima de uma loja de roupa, em Entrecampos.

A conversa começa com um aviso de Pedro Magalhães. Diz que anda meio afastado da opinião publicada, que quase abandonou desde que assumiu funções como diretor científico da Fundação Francisco Manuel dos Santos. E sublinha que não alinha naquele hábito português de ser "comentador de assuntos gerais". Garante que só fala de temas que domina, e dá o exemplo: "Se tiver um problema de estômago, não vou a um oftalmologista."

E que é feito do blogue Margens de Erro, que não vê atualizações desde maio? Justifica-se com o muito trabalho no ICS e na FFMS. A propósito de trabalho, sai-me uma daquelas perguntas para quebrar gelo: "E em que é que anda a trabalhar agora?" Pedro Magalhães diz que tem andado entretido a tentar explicar como é que, com a economia já em recuperação, a coligação PAF - Portugal à Frente (PSD e CDS) falhou a reedição da maioria absoluta nas eleições do ano passado. É, claramente, a pergunta que o entusiasma por estes dias.

Mal tínhamos feito o pedido - risoto de gambas e lombinhos de dourada -, já o sociólogo começava a explicação, falando do impacto assimétrico da evolução da economia no voto. Argumenta que o fenómeno é relativamente conhecido, e resume-se a uma regra simples: "Quando a economia melhora, a capacidade de os governos beneficiarem com isso é menor do que os prejuízos que têm em situação de crise económica." É esse efeito que explica as diferenças entre as eleições de 2011 e de 2015, entre o castigo ao governo socialista de José Sócrates por causa da crise económica e financeira, e a baixa eficácia eleitoral de PSD e CDS em 2015. Pedro Magalhães afirma que "a avaliação que os eleitores fizeram em 2011 não era influenciada pela sua ideologia ou pela sua identificação partidária. Em 2015, esse efeito é fortíssimo. Os eleitores ou simpatizantes do PS não interpretaram a melhoria da economia da mesma maneira que as pessoas que eram simpatizantes dos partidos do governo".

Sublinhando que não quer "reduzir os resultados eleitorais de 2015 a esse fenómeno", Pedro Magalhães admite que a memória dos anos da crise, dos tempos de pesada austeridade entre 2011 e 2014, jogou certamente um papel nas eleições do ano passado. "Em 2011 não havia como negar que havia uma crise, em 2015 pelos vistos havia como negar que existia uma recuperação económica. Mitigando a sua importância, questionando os números do desemprego, apresentando um contrafactual - se a política tivesse sido diferente, a melhoria ainda teria sido maior -, e jogando com a memória da crise, claro."

Um bom trabalho de spin, questiono. Sim, "somos bombardeados com tanta informação, os partidos são tão eficazes comunicacionalmente a fazer o spin dessa informação, e as pessoas - sobretudo pela forma como consomem informação agora nas redes sociais - estão tão pouco expostas a informação contraditória com as suas opiniões que é muito difícil mudar a opinião das pessoas mesmo com factos". Estaremos já a viver numa democracia pós-facto, uma sociedade em que a ignorância e irracionalidade levam a melhor sobre os factos e a razão? Pedro Magalhães não alinha em leituras definitivas, mas explica que "a informação existe, está nas estatísticas oficiais, é comentada nas notícias, mas o spin em torno dos factos é tão grande que as pessoas acabam por interpretar os factos de acordo com as suas predisposições". O tema havia de voltar à mesa mais adiante, a propósito da campanha eleitoral nos Estados Unidos.

A informação existe, está nas estatísticas, é comentada nas notícias, mas o spin é tão grande que as pessoas acabam por interpretar os factos de acordo com as suas predisposições

Fixemo-nos por agora nas eleições de 2015, e na incapacidade que PSD e CDS tiveram para capitalizar a recuperação económica. Pedro Magalhães lembra que, "quando a economia começou a recuperar, a coligação deixou de perder nas intenções de voto, mas depois não recuperou ou recuperou muito menos do que seria de esperar". E recorda algo que, para ele que anda a investigar o tema, é um facto. "Na sua decisão de voto, na relação que estabelecem entre a economia e o voto, as pessoas parecem estar mais preocupadas com a economia do país do que com a sua própria situação, as pessoas são mais sociotrópicas do que egocêntricas."

E como estamos agora? Pedro Magalhães encontra uma explicação para a falta de notícia nas sondagens, nos estudos de intenção de voto. Tudo está estável, sobretudo porque "nos principais indicadores a economia em Portugal está mais ou menos como estava antes da grande crise. Crescimento baixo, desemprego ainda alto. Estamos perante o tipo de situação em que, para comparar com os casos de que falámos há pouco, mais uma vez irá levar certamente a que a leitura que é feita dos factos tenda a divergir completamente de acordo com a minha ideologia e a minha predisposição. Vai ser muito difícil convencer alguém simpatizante do PSD de que 2,4% de défice é um bom número, e, por outro lado, vai ser muito difícil que as pessoas que simpatizam com o PS não vejam isso como um fator positivo".

Ora, e, neste estado de coisas, como vai a qualidade do debate político em Portugal? Como é que se explicam duas formas tão opostas de olhar para a mesma realidade, como aquelas a que se agarram governo e oposição? Pedro Magalhães sorri, e afirma que "as duas realidades em que vivemos são ambas alternativas à realidade".

Como explicar Trump?

Não é fácil encontrar um cientista político que não se entusiasme com a política norte-americana. Pedro Magalhães não foge a essa regra. Foi aliás por lá, na Ohio State University, que fez o doutoramento em Ciência Política. A pouco mais de uma semana da eleição, o olhar analítico sobre os dados das sondagens leva-o a acreditar numa vitória tranquila de Hillary Clinton. Já a descermos para a rua, havia de me pedir para não dar muita atenção às previsões que tinha feito durante o almoço, sobretudo em política caseira. Esta escapa a esse pedido, decisão minha, porque está baseada em factos, em sondagens.

E como é que o cientista político e sociólogo vê o fenómeno Donald Trump? Pedro Magalhães encontra um segredo no discurso do candidato republicano. Um trunfo muito bem jogado e com pontes para a Europa. "Trump não é contra o Estado Providência, não é contra a Segurança Social, não é contra o Medicare. É um tipo de populista muito mais parecido com os populistas europeus, especialmente de direita. É aquele que vem dizer que o Estado Providência é para salvar, que quem está a colocá-lo em risco são os imigrantes - mexicanos e árabes -, e que precisamos de os pôr na rua para salvar aquilo que os americanos merecem, os vossos benefícios. Este é um discurso dominante nos partidos de extrema-direita na Europa hoje em dia, e uma combinação fantástica. É um achado. É ao mesmo tempo, entre muitas aspas, de esquerda e de direita."

As pessoas procuram o seu espaço de conforto nas redes sociais, onde só ouvem coisas que reforçam as suas convicções

E aqui surge um ponto de contacto entre a campanha nos Estados Unidos e a situação em Portugal. É a tal questão de vivermos numa bolha comunicacional, embebidos nas redes sociais, e do uso que os partidos políticos fazem desse fenómeno. Deixando bem claro que o estado da arte, no que toca ao uso das redes sociais na política, está do outro lado do Atlântico, que por cá os partidos ainda mal começaram esse trabalho e que estão ainda numa fase de perfeito "amadorismo", Pedro Magalhães diz que nos Estados Unidos "as fontes de informação são tantas e tão diversificadas, e o esforço dos partidos e dos seus apoiantes para fazerem esse spin é agora tão eficaz, que as pessoas podem procurar muito mais facilmente o seu espaço de conforto. E o seu espaço de conforto é na maioria dos casos, a não ser que se faça um esforço deliberado para diversificar, o espaço em que eu oiço coisas que reforçam o que eu já penso, que não desafiam as minhas convicções".

Pedro Magalhães anota a evolução social: "Passámos de um mundo pré-moderno, em que as pessoas viviam isoladas em pequenas comunidades, para um mundo moderno, de massificação, em que toda a gente tem acesso à informação, com concentração nas grandes cidades e com uma mudança do isolamento para um pensamento universalista, e agora parece que estamos numa fase de novo fechamento." Trata-se de um fechamento "numa bolha de referências, numa bolha comunicacional, mas que tem reflexos na nossa vida quotidiana", tendemos a conviver, a partilhar experiências, com pessoas que reforçam a nossa visão do mundo.

Desde as primárias que esta eleição norte-americana tem passado todas as marcas. O que era indizível por um candidato passou a conversa banal de comício ou entrevista. E não devemos agradecer apenas a Trump. Pedro Magalhães diz que o problema é transversal, cruza os dois partidos, e está já muito para lá das diferenças ideológicas entre democratas e republicanos. "Aquilo que tem aumentado ao longo dos últimos anos, não é apenas polarização ideológica, é uma verdadeira antipatia por aquela categoria de pessoas. Quando a Hillary Clinton diz que são "os deploráveis", ela está a dar voz a um grande número de eleitores democratas, que acha que aquelas pessoas, seus concidadãos, são de facto deploráveis. E ao contrário é exatamente a mesma coisa. É uma hostilidade àquela identidade social, àquele grupo social."

O gráfico que conta tudo

Continuando a tentar explicar Trump, e já agora outros fenómenos populistas deste lado do oceano, Pedro Magalhães pede-me o bloco de notas, desenha um gráfico e traça uma linha que parece o perfil de um elefante. É o "gráfico que explica tudo aquilo de que temos estado a falar", diz. Vale a pena procurar online, basta googlar "the elephant graph".

O gráfico é da autoria do economista Branko Milanovic e foi publicado em 2012 num relatório do Banco Mundial. Mostra o aumento real de rendimento entre 1988 e 2008, a nível global, nos vários níveis de distribuição de riqueza, dos mais pobres aos mais ricos. Conclusão? A globalização teve três efeitos distintos. A melhoria das condições de vida dos mais pobres nos países menos desenvolvidos, o aumento exponencial da riqueza no topo da cadeia alimentar, nos 1% mais ricos, e depois uma estagnação ou mesmo perda (é a base da tromba do elefante) de rendimentos para as classes médias dos países desenvolvidos.

Já à roda de um café, sem passarmos por sobremesas, Pedro Magalhães diz-me que é aí que podemos encontrar as raízes para o descontentamento que alimenta fenómenos como Donald Trump ou Marine Le Pen. "Nós temos hoje uma massa muito grande de cidadãos, nas democracias ocidentais, que não estão a ver os frutos da globalização, do comércio livre e do desenvolvimento económico. Esses frutos vão para os super-ricos, nos países ocidentais, ou para os superpobres em países como a Índia ou como a China. E o pior é que essas pessoas esquecem-se de que a globalização está a beneficiar os superpobres." Por outras palavras, quem está na base da tromba, no "sítio" onde o rendimento não cresce há décadas, nunca olha para o lombo do elefante.

E continua, pegando na caneta e reforçando as linhas do perfil do elefante, "na China e na Índia houve melhorias enormes nas condições de vida, mas isso aconteceu, em parte, à custa da deslocalização", ou seja, esse progresso teve como efeito uma estagnação do rendimento nas classes médias dos países ocidentais, e isso "cria oportunidades enormes para a mobilização destas pessoas". São eleitores que estão aí, prontos a ser convencidos ou convertidos. Pessoas mobilizáveis agora para causas, e por temas, que há uns anos pouca ou nenhuma adesão teriam.

lA Caffé

› Entradas 4,40

› Três águas 6,75

› Risoto de Camarão 12,00

› Lombinhos de Dourada 13,50

› Dois cafés 2,60

Total: 39,25 euros

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