PCP quer mais votos para ter mais voz junto do Governo

A Festa do Avante! terminou com apresentação de caderno de encargos dos comunistas para o Orçamento que aí vem. Líder comunista avisou que não é hora de baixar a guarda

"A CDU avança com toda a confiança" é um antigo grito de campanha que irrompeu ontem no discurso de encerramento do secretário-geral do PCP, na Festa do Avante!. Não é para menos: Jerónimo de Sousa quer eleger "mais candidatos" da coligação que junta comunistas e ecologistas para assim melhor fazer valer o seu peso à mesa das negociações do Orçamento do Estado para 2018 com o Governo socialista.

Num longo discurso de 45 minutos, a partir da Quinta da Atalaia, no Seixal, o líder comunista antecipou cada exigência e reivindicação do partido com expressões que repetiria por 12 vezes: "Mais força à CDU" e "mais votos da CDU". Com menos peso parlamentar que o Bloco de Esquerda, os comunistas têm um peso bem superior aos bloquistas nas autarquias (a CDU conquistou 213 mandatos em 2013, o BE oito). Por isso, as eleições de 1 de outubro "assumem grande importância pelo que representam no plano local, mas também pelo que podem contribuir para dar força à luta que travamos para melhor defender os interesses dos trabalhadores, do povo e do país".

Há outra razão para que Jerónimo de Sousa aponte esta meta: o PCP ainda desconfia do PS. O líder comunista recuperou ontem, na sua intervenção, "os PEC e o pacto de agressão" que os "governos do PS, PSD e CDS" assinaram e, em matéria laboral "e em opções do domínio económico e financeiro e soberania", tão caras à luta dos comunistas, estes três partidos mantêm uma "convergência", que "mostram a realidade contraditória em que nos movemos e em que a luta se desenvolve". Na baixar a guarda, é o aviso deixado por Jerónimo.

Para já, o caderno de encargos é extenso. O secretário-geral do PCP quer "assegurar o aumento geral de salários e o aumento extraordinário do salário mínimo nacional para 600 euros", já "em janeiro de 2018", depois de ter soçobrado o objetivo desse aumento ser concretizado no início de 2017. O primeiro-ministro, António Costa, repetiu nessa altura que esse aumento é para concretizar até ao final da legislatura e não deve mudar de agulha. O PCP quer também um "aumento mínimo de 10 euros para todas as pensões", querendo mexer na lei para permitir que o crescimento do valor das reformas seja acima da inflação, para além do direito à "reforma por inteiro e sem penalizações" para quem tiver "40 ou mais anos de descontos".

Na função pública, os comunistas vão exigir "a reposição dos direitos, subsídios e complementos retirados aos trabalhadores da Administração Pública e do Setor Empresarial do Estado", para assim "repor o valor do trabalho extraordinário e do trabalho noturno", avançando também com a concretização do descongelamento das carreiras do conjunto desses trabalhadores. Na política fiscal, as exigências são antigas: desagravar impostos para os baixos rendimentos, reforçar o "mínimo de existência para os mais baixos salários" e tributar "lucros e dividendos do grande capital". Para o Orçamento, a CDU quer ainda eliminar o corte dos 10% do subsidio de desemprego e prolongar o prazo do subsídio, alargar o abono de família.

Segundo Jerónimo, é necessário "avançar" com o "investimento público" nos transportes, insistindo também no fim das portagens nas ex-Scut. Lutas velhas que o secretário-geral comunista quer travar com mais trunfos (ou seja, votos) na mão. Apesar dos avanços, o líder comunista reconheceu que persistem "vulnerabilidades" no país. Afinal, recordou, o que se conseguiu "não é ainda o que é justo e se impõe, mas são avanços que estão para além do que o Programa do PS e do seu governo admitiam". Para Jerónimo, estas vulnerabilidades ficaram "dramaticamente expostas nos trágicos incêndios florestais que assolaram o país neste Verão", apontando neste ponto a necessidade do "controlo público" do SIRESP. O PCP vai insistir noutras soluções no campo laboral, com Jerónimo a apontar o dedo ao Governo socialista: "A convergência que se mantém entre PS, PSD e CDS em matéria de legislação laboral e em opções do domínio económico e financeiro e soberania revelam-no e mostram a realidade contraditória em que nos movemos e em que a luta se desenvolve."

A contradição destes tempos, notou Jerónimo, passa por uma linha que separa PCP e PS, a da Europa. Mas os comunistas não darão a mão à direita, avisou. "Não esperem do PCP que, face aos muitos problemas estruturais que o país tem, se alinhe ao lado daqueles que gostariam de voltar à política da troika, aos que gostariam de estar hoje a impor um novo corte de 600 milhões de euros nas pensões, a congelar salários, a roubar direitos aos trabalhadores e ao povo português."

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