Paulo Portas: "Toda a gente sabe que sou um workaholic!"

Ex-líder do CDS define-se como um "homem dos sete ofícios". Além da Mota-Engil, há mais seis que vai desempenhar. Neste momento anda à procura de escritório em Lisboa

Workaholic: trabalhador compulsivo; viciado em trabalho; dá prioridade a trabalho e às conquistas profissionais acima de todas as outras coisas. É assim que se autodefine o ex-presidente do CDS e atual "homem dos sete ofícios". Sete porque são mesmo sete as funções que Paulo Portas tem pela frente. "Toda a gente sabe que sou um workaholic. Vou tentar fazer várias coisas, para já sete, com o máximo de profissionalismo, assinala ao DN, ao fim de um dia passado entre eventos públicos e à procura de um escritório, em Lisboa, para ser a sua "casa" nos próximos tempos.

Portas saiu oficialmente da política - no passado dia 2 despediu-se do Parlamento, ironicamente com uma intervenção sobre o envelhecimento ativo -, mas ganhou nela uma extensa lista de contactos, nacionais e internacionais, que valem a sua dimensão em euros. Não nos quis confidenciar quantos contactos, principalmente no estrangeiro, tem da sua agenda, mas admite ser "muito extensa".

Nesta semana foi anunciada a sua contratação pela grande empresa de construção Mota-Engil (com 28 mil trabalhadores) e a sua função, de consultor no novo conselho internacional desta empresa liderada por António Mota e por onde já passou o socialista Jorge Coelho, é apenas uma das sete. Para esta missão, António Mota sabe da especial atenção que Paulo Portas deu à América Latina, quando estava no governo e, quer como ministro dos Negócios Estrangeiros quer como vice-primeiro-ministro, levou a "diplomacia económica" aos quatro cantos do mundo. Não é também despiciendo lembrar que foi condecorado pelo Estado brasileiro, em março último, com a mais importante distinção dada aos estrangeiros, a Ordem do Cruzeiro do Sul. De caminho passou pela Colômbia, para corresponder ao convite do presidente do país, Juan Manuel Santos, para um almoço privado na sua casa em Bogotá.

Em 2015 também tinha sido agraciado pelo governo colombiano com uma condecoração idêntica.

Os outros seis "ofícios" de Portas são variados mas têm sempre em comum a sua proximidade com a política externa e com as avaliações de risco que consegue fazer. Além de conselheiro da Mota-Engil, será igualmente "consultor" da Câmara de Comércio e Indústria de Portugal, onde vai também ter a responsabilidade de promover as exportações portuguesas; "consultor" fora do país para empresas com projetos de internacionalização, principalmente do Golfo e da América Latina; "conferencista" internacional em colóquios, seminários e conferências, uma elite paga a peso de outro; "comentador televisivo", com um programa, a partir de julho, na TVI, com a política externa em foco, mas antes disso terá uma antestreia a comentar o brexit, o referendo britânico sobre a permanência do país na UE, já a 23 de junho; "professor" na Universidade Nova de Lisboa, mais precisamente na Nova School of Business and Economics. Segundo o Expresso, a partir de 2017 vai orientar um programa de formação para executivos sobre geoeconomia e geopolítica, centrado nas estratégias das empresas para abordar mercados emergentes; "formador" dos futuros quadros centristas, segundo também o Expresso, um pedido especial da nova presidente, Assunção Cristas, marcando presença e coordenando algumas iniciativas da escola de quadros centristas que se realiza todos os anos. Esta será a única, mas ténue, ligação à política partidária.

"Já tinha dito que ia mesmo mudar de vida e o que eu ia fazer era incompatível com a dedicação parlamentar", disse ao DN. Portas, desde que anunciou a sua saída no CDS, recuou discreta e elegantemente para os bastidores, deixando todos os holofotes para Cristas. Tudo cargos em entidades privadas. "Volto ao setor privado, onde nasci e me formei", sublinha.

Está satisfeito? "Muito mesmo. Costumo dizer que a minha liberdade também se mede pelo número de vezes que, ao longo da vida, sou capaz de recomeçar, de viver coisas novas. É isso que estou a fazer", responde. "Preciso de um café urgente", pede a alguém do outro lado da linha. Já são quase dez da noite e daí a pouco seguirá para o aeroporto rumo ao Brasil, onde chega de manhã para falar numa conferência. Depois, Cuba, a acompanhar uma delegação da Câmara de Comércio. "Não sei fazer mais nada a não ser trabalhar!", sorri.

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