Paulo Magalhães: "Eu vou ser uma rede e um filtro do Presidente"

Almoço com Paulo Magalhães

Assim que cheguei à porta do restaurante o telemóvel avisou-me do atraso do Paulo. A mensagem lacónica dizia parking sem mais. Esperei na rua enquanto pensava nas voltas a dar à conversa e ao texto sobre alguém de quem sou amigo há quase 25 anos - ele, editor do Jornal das 18 da Rádio Renascença, já era careca e eu, estagiário na Emissora Católica, ainda conservava algum cabelo mas para lá caminhava - e que, por isso, não tem nada para me contar sobre si próprio que eu já não saiba.

O dia era de despedidas. O Magalhães ia fazer o último Política Mesmo na TVI24 com Manuela Ferreira Leite antes de se mudar com os fatos sempre bem arreados, as gravatas e os botões de punho para o Palácio de Belém, onde, a partir de segunda-feira, vai tratar da comunicação do novo Presidente da República. O Paulo está nervoso, inseguro, apesar da experiência conferida por 50 anos de vida. "Eu disse ao Presidente que nunca tinha sido assessor de imprensa, que tinha imenso para aprender. O Presidente disse-me que também nunca tinha sido Presidente e que, portanto, estávamos em pé de igualdade."

Comecemos então pelo princípio. Assim que entrámos no La Finestra, restaurante italiano das Avenidas Novas, percebi que era como estar em casa. "Isto é um bocadinho a minha cantina. Venho cá muito com a minha mulher e os meus filhos e foi aqui que convidei o Augusto Santos Silva para fazer o programa comigo." Aliás, o agora ministro dos Negócios Estrangeiros passou a ser cliente habitual. "Como está, passou bem?", pergunta o chefe de sala. Já sentados, decidimos dividir uma bruschetta com tomate-cereja e manjericão a que há de seguir-se uma pizza 4 formaggi e um spaghetti al nero di seppia con gamberi e rucola acompanhados por meia garrafa de um Chianti, vinho tinto feito com uvas da Toscana. Para começo de conversa não resisto a uma provocação. "Esta troca de Queluz de Baixo pelo Palácio de Belém pode ser lida como Marcelo Rebelo de Sousa - 1; Manuela Ferreira Leite - 0?" Entre risos e sem esconder uma certa melancolia, Paulo Magalhães explica as diferenças. "Gosto muito da Dra. Manuela Ferreira Leite. Conheço-a há muitos anos. Acho que sou o único jornalista que ela tolera - porque nós sabemos que a Manuela Ferreira Leite nunca foi muito dada à comunicação social - mas, pessoalmente, acho que sou retribuído. Gosto muito dela, acho que é uma grande senhora e uma grande cabeça e uma pessoa honesta, que diz o que lhe vai na alma, sem jogos. E ela faz parte deste meu mundo que agora se fecha. Marcelo é um mundo que se abre agora, com tudo o que há de desconhecido." O mundo novo de que fala Magalhães é o da assessoria de imprensa que, confessa, nunca, até agora, lhe tinha passado pela cabeça como ofício. "Tive vários convites ao longo destes anos todos de carreira, quase trinta, alguns apelativos e de vários governos, de várias cores políticas e nunca quis, porque fui muito feliz na minha carreira jornalística. E agora também era feliz na TVI, mas, de facto, Marcelo é Marcelo." Ou seja, a personalidade do Presidente da República e o modo como se fez eleger foram determinantes para que aceitasse o convite. "O Presidente é uma coisa mais abrangente: não tem uma carga ideológica tão pronunciada, não tem um ferrete partidário e é um órgão unipessoal. Não tem vários barões, não tem lutas de poder internas, não tem fações, não tem correntes nem tendências. É aquilo que ali está. E este Presidente da República é diferente dos que já tivemos porque foi eleito sozinho, foi eleito sem apoio partidário nenhum. Não estou a dizer que os outros que foram eleitos com apoio partidário estivessem agarrados a algum tipo de compromisso, mas à partida Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito sem dever nada a ninguém. E isso também é uma garantia. E depois é uma personalidade riquíssima, é um tipo que sabe imenso e que me vai ensinar imenso, com certeza."

Paulo conhece bem as características de Marcelo e não ignora que pela frente tem o enorme desafio de moderar ou até de conter o excesso de propensão comunicacional do Presidente da República. Essa será uma das suas principais tarefas mesmo que diga que "o Presidente é o melhor assessor de si próprio". "Eu vou ser uma rede e um filtro do Presidente."

A função exige-lhe recuo e contenção nas palavras públicas. Por isso resiste a fazer comparações entre Cavaco e Marcelo. Mas perante a insistência das perguntas lá concede em dizer que "a personalidade do professor Cavaco Silva é muito mais fechada, muito mais circunspecta, muito mais fleumática. A personalidade do Presidente Marcelo é precisamente o oposto, é muito mais calorosa". Foi por isso que viu com naturalidade a quebra protocolar da ida a pé para a tomada de posse. E se já estivesse a trabalhar em Belém não teria feito nada que impedisse Marcelo de fazer o que fez. "Ainda bem que temos um Presidente que desce a Calçada da Estrela, com dois seguranças e mais ninguém, a cumprimentar as pessoas que vão no autocarro. Ainda bem. Nós precisamos disso e o país estava carente, sedento deste tipo de coisas, de uma atitude mais próxima, mais calorosa. Agora, tenho medo - mas vamos ver como é que é -, por um lado, que isto se banalize, que não pode, e, por outro lado, das expectativas demasiado elevadas das pessoas. O Presidente não governa, não vai passar a haver pleno emprego porque o Presidente Marcelo foi eleito, não vai acabar a pobreza, nem a guerra, nem a fome no mundo porque o Presidente Marcelo foi eleito. As expectativas estão tão altas e o país está tão encantado com o Presidente Marcelo que pode ser perigoso porque as pessoas podem desiludir-se rapidamente quando verificarem que os problemas não vão deixar de existir." Não tem dúvidas, notícia era que tivesse, de que Marcelo é o homem certo para a função e de que o relacionamento com os restantes órgãos de soberania - governo e Parlamento - vão ser os melhores, "sobretudo porque o relacionamento com o anterior Presidente da República de grande parte do país e do Partido Socialista eram tão más que só podem melhorar". Não é aliás por acaso que Marcelo assume como desígnio a reconciliação do país consigo próprio e dos portugueses com a política. "Há uma separação das pessoas, um divórcio das pessoas em relação aos políticos, que é uma coisa que me preocupa há anos e que não faz sentido e que não pode ser. Se os políticos não prestam a culpa é nossa porque somos nós que votamos e escolhemos. E há também a nossa ausência de escolha quando alinhamos naquele discurso de algumas pessoas que dizem que eles são todos iguais e por isso não vão votar. Mas depois passam os quatro anos seguintes a dizer que os políticos são todos uma porcaria. E isso não pode ser. A reconciliação não é só de um país que ficou de cócoras ou de gatas depois da crise, não é só de um país que já não gostava dos seus políticos e que passou a detestá-los ainda mais depois destes anos. É algo que tem de ser feito entre o povo e os políticos e do povo consigo próprio. Este cliché que se criou de Marcelo ser o Presidente dos afetos, acho que é fundamental que haja essa proximidade maior que é uma maneira de chegar a esse objetivo da reconciliação do país."

Católico praticante tal como o Presidente da República, Paulo Magalhães subscreveu o recente manifesto a favor da eutanásia. Não será esta uma posição contraditória com os valores e os dogmas da Igreja? "Não. O Deus que eu tenho é um Deus de misericórdia, é um Deus que não quer que os seus filhos sofram e, sobretudo, é um Deus que nos dá o livre arbítrio de decidirmos por nós. E, depois, afastando o elemento religioso, chegamos aos cuidados paliativos que estão a funcionar no setor privado e os pobres sofrem, porque os paliativos no Serviço Nacional de Saúde estão a anos-luz de corresponder às expectativas. Não estou a dizer que uma coisa é substitutiva da outra. Estou só a contestar este argumento. Os paliativos são fantásticos, e acho que deve haver vida enquanto houver qualidade de vida. E não me sinto minimamente em pecado ou contradição de fé por pensar assim. E, depois, subscrevi o manifesto inicial porque é muito abrangente e neutro. É um conjunto de princípios que toda a gente pode subscrever. É uma porta que se abre para uma discussão. Assino de cruz o princípio que está no manifesto. Agora, vamos ver como é que é a lei. Não pode ser liberal, não pode ser uma lei em que agora vamos lá, à balda, matar todos os que estão doentes. Não, aí estarei muito atento. Estaremos todos, obviamente, muito atentos. E aí o meu princípio será de muito cuidado e de muitos pés atrás. Mas acho que é preciso fazer o debate sobre o assunto. Não pode haver tabus na nossa sociedade."

Já vamos na segunda rodada de cafés e pela conversa já passaram as memórias da rádio, paixão que partilhamos, pessoas de quem gostamos e outras que nos são indiferentes ou até antipáticas - mas, que diabo, há lá coisa melhor do que dois ou mais amigos a dizerem mal de gente à mesa de um restaurante? -, recordações de reportagens marcantes como aquela que fez no Vaticano aquando da morte do Papa João Paulo II - "estou a falar disto e a arrepiar-me todo", diz sem esconder os olhos marejados pela emoção -, fez-se profissão de fé no futuro e na independência do jornalismo mesmo admitindo o óbvio: "Há ovelhas ronhosas em todo lado e acho que há coisas menos boas em todo o lado. Mas acho que o jornalismo em Portugal é ótimo, até tendo em conta os condicionalismos que tem, as pessoas que são mal pagas, as pessoas que estão desempregadas, as pessoas que estão com salários em atraso, etc., mas, apesar de tudo isto, não tenho dúvidas de que o jornalismo que se faz em Portugal é sério e de que a classe jornalística e a imprensa, em Portugal, são um dos pilares da democracia."

No telemóvel de Paulo Magalhães continuam a cair mensagens e telefonemas de parabéns pelas novas funções que vai assumir a partir de segunda-feira. Tem sido um corrupio desde que a notícia se soube a meio da semana e durante o almoço manteve-se o frenesim. Vai ter saudades "da liberdade que vou perder de dizer em público aquilo que penso" e de ter tempo livre para os amigos e para a família que, admite, vai ser penalizada. Nos últimos tempos ganhou o prazer da corrida para manter a forma física. "Acabei de fazer dez quilómetros antes de vir para aqui. Corro ali em Belém. Entro em Algés, vou até às docas e volto para trás. Quando faço o caminho de regresso, já venho um bocadinho de gatas, mas pronto, já nem me sinto bem se não correr." É mais um traço em comum com o Presidente da República que já admitiu não poder continuar a mergulhar no mar sempre que lhe apetece. "Se calhar vou passar a correr às seis da manhã."

É tempo de levantar da mesa que já é tarde e o Magalhães ainda tem de ir arrumar os caixotes em Queluz de Baixo e ultimar as despedidas do último programa com Manuela Ferreira Leite "que vai continuar na TVI". Até ao carro ainda fumamos mais um cigarro e trocamos mais dois dedos de conversa, consumindo até ao limite as últimas horas de liberdade do Paulo antes de entrar em definitivo no Palácio de Belém. "Agora, e citando São João Batista, tenho de diminuir para que outro cresça." O "outro" é Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República.

La Finestra

› 1 couvert

› 1/2 Chianti

› 1 bruschetta com tomate-cereja e manjericão

› 1 pizza 4 formaggi

› 1 spaghetti al nero di seppia

› 4 cafés

Total: 47,25 euros

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