Passos Coelho disse a Cavaco: "Cabe ao PS construir uma solução de governo"

Audiências em Belém já terminaram. Esquerda pediu em uníssono a indigitação de Costa. Até o PAN prefere esse cenário

À saída do Palácio de Belém, Pedro Passos Coelho disse aos jornalistas que transmitiu a Cavaco Silva que agora "cabe ao PS construir uma solução de governo". "É muito importante que o PS exerça essa responsabilidade de forma plena", afirmou o líder dos sociais-democratas na sala das Bicas, numa declaração de seis minutos sem direito a perguntas.

E, ladeado pelos vice-presidentes do partido Jorge Moreira da Silva e Marco António Costa, pelo secretário-geral, José Matos Rosa, e pelo líder parlamentar, Luís Montenegro, reforçou a ideia: "O PS tem a obrigação política e moral de apresentar uma solução de Governo."

Sublinhando que o próprio António Costa afirmara que não derrubaria o Executivo PSD-CDS sem ter uma alternativa "credível, consistente, estável e duradoura", o ainda primeiro-ministro frisou, contudo, que os socialistas ainda não têm "essa garantia", nem sequer a garantia de que "partidos anti-europeístas e anti-NATO", BE e PCP, assegurem essas condições de estabilidade.

Por isso, e perante aquilo que considera ser três acordos com pouca consistência, Passos notou que o cenário que mais agradaria ao PSD passaria pela devolução da palavra aos portugueses, com Cavaco a convocar novas eleições, algo que o Chefe de Estado está constitucionalmente impedido de fazer.

Costa assegura a Cavaco que tem "boas condições de governabilidade"

O secretário-geral do PS também já deixou o Palácio de Belém, após audiência com o Presidente da República. À saída, António Costa afirmou que transmitiu a Cavaco Silva que um Governo do PS assegura "boas condições de governabilidade", sublinhando ainda que a decisão do Chefe do Estado deve ser conhecida o quanto antes para "acabar com a situação de incerteza e indefinição" que o país está a atravessar.

Na sala das Bicas, e acompanhado pelo presidente e líder parlamentar socialista, Carlos César, e pelos vice-presidentes da bancada "rosa" Ana Catarina Mendes e Pedro Nuno Santos, Costa frisou que disse a Cavaco que dispõe de um "programa credível", de "condições de estabilidade" devido ao suporte maioritário que BE, PCP e PEV lhe garante na Assembleia da República e que o eventual Governo do PS vai "cumprir os compromissos europeus".

Em resposta aos jornalistas, notou ainda que o Presidente deve proceder à sua indigitação no "mais curto prazo" para que possa elaborar o Orçamento do Estado para o próximo ano, que, referiu, será aprovado pelas restantes forças de esquerda.

"Os nossos parceiros conhecem a nossa estratégia orçamental e nós conhecemos os limites previstos nos acordos", sinalizou o líder do PS, antes de explicar que não levou a Cavaco qualquer lista de nomes para o seu Executivo, uma vez que o tempo, esse, pertence ao Presidente e só depois de indigitado o poderá fazer.

De caminho, recusou revelar se o Chefe do Estado lhe fez mais exigências no que respeita aos acordos que o PS firmou bilateralmente com bloquistas, comunistas e ecologistas.

Catarina Martins pede indigitação de Costa

Bastaram 15 minutos para Catarina Martins transmitir ao Presidente da República aquela que já se sabia ser a posição do Bloco de Esquerda (BE): António Costa deve ser indigitado como primeiro-ministro o mais rapidamente possível, "Portugal não precisa de perder mais tempo".

À saída do Palácio de Belém, na sala das Bicas, a porta-voz nacional dos bloquistas voltou a frisar que existe "uma nova maioria" no Parlamento e que os acordos firmados pelo PS com os restantes partidos de esquerda garantem ao país "uma solução estável, credível e duradoura", com o "horizonte de uma legislatura" - garantia que frisou ter dado a Cavaco Silva.

Reiterando o "empenho" do Bloco nessa solução, Catarina Martins notou que os "compromissos económicos, políticos e sociais" assumidos bilateralmente pelos socialistas com BE, PCP e PEV garantem a aprovação do Orçamento do Estado para o próximo ano e ainda "condições de estabilidade" para quatro anos.

Por outro lado, recusou adiantar se o Chefe do Estado fez mais exigências quanto ao entendimento com o PS tendo em vista um Executivo socialista, lembrando, porém, que nem o acordo que PSD e CDS tinham na legislatura anterior impediu a crise política de 2013.

Portas: "PS não apresentou um governo estável e sólido"

Paulo Portas também já abandonou o Palácio de Belém, dizendo à saída que "o PS não apresentou um governo estável e sólido".

O presidente do CDS, acompanhado por quatro vice-presidentes do partido (Assunção Cristas, Pedro Mota Soares, Nuno Magalhães e Nuno Melo), não adiantou qual a solução que Aníbal Cavaco Silva deve adotar, mas defendeu que "compete ao Presidente da República verificar a sustentabilidade deste mero projeto negativo" - referindo-se ao entendimento entre PS, BE, PCP e PEV, sobre o qual disse não lhe parecer que preencha os "requisitos definidos pelo Presidente".

Ao contrário de Passos Coelho, que, apesar de ter apontado as fragilidades aos acordos firmados pelos socialistas, observou esta manhã que "cabe ao PS a responsabilidade" de formar o próximo Executivo, o ainda vice-primeiro-ministro notou que qualquer Governo nestes moldes (PS com apoio parlamentar da esquerda) será sempre "politicamente ilegítimo", acusando ainda António Costa de ser o responsável pela atual "crise política".

O líder do CDS fez uma longa declaração na sala das Bicas - sem direito a perguntas dos jornalistas -, elencando os vários aspetos em que considera os acordos frágeis. Apontou, assim, que nem sobre moções de censura vindas da esquerda os documentos são claros e identificou as omissões no que respeita aos orçamentos do Estado, ao Programa de Estabilidade, ao Semestre Europeu e ao Tratado Orçamental. "Não há uma coligação, não há sequer um acordo [com as assinaturas dos responsáveis das quatro forças]", reforçou.

A rematar, Portas alertou para os riscos económicos e sociais que um Governo apoiado pela esquerda pode comportar e indicou que o CDS respeitará sempre a decisão de Cavaco mesmo que dela discorde. Porque, em Portugal, justificou, vivemos num "regime semipresidencial" e não num "parlamentarismo de facto". E deixou o recado: "Não são aceitáveis tentativas de apoucamento do Presidente da República."

Jerónimo de Sousa fala em "solução duradoura" com acordo à esquerda

Jerónimo de Sousa também foi rápido na passagem pelo Palácio de Belém. Em pouco mais de 20 minutos, o secretário-geral do PCP foi ouvido por Cavaco Silva, tendo à saída salientado que na reunião com o Presidente da República reafirmou que "estão criadas as condições políticas e institucionais para que [o Chefe do Estado] dê posse ao Governo do PS".

O líder comunista, acompanhado pelo líder parlamentar, João Oliveira, e Jorge Cordeiro, membro da Comissão Política do partido, destacou, por isso, e sem mais detalhes, que o acordo à esquerda assegura uma "solução duradoura na perspetiva da legislatura", indo ao encontro daquilo que tanto António Costa como Catarina Martins afirmaram durante a manhã.

Questionado pelos jornalistas sobre a possibilidade de Cavaco ter colocado em cima da mesa mais exigências ao compromisso alcançado pela esquerda, nomeadamente sobre as questões internacionais, Jerónimo não quis adiantar o teor da conversa com o Presidente mas lá levantou o véu: "Sou tentando a dizer que não."

PEV: "Existem condições para um governo do PS"

Heloísa Apolónia seguiu o guião que os partidos de esquerda utilizaram esta sexta-feira em Belém, salientando à saída da audiência do Presidente da República que "existem condições para a formação de um Governo do PS", devido ao apoio maioritário de que os socialistas dispõem na Assembleia da República.

Na sala das Bicas, a deputada do Partido Ecologista "Os Verdes" referiu que pela sua parte esse Executivo "será viabilizado", notando ainda que perante o atual quadro político nenhuma outra solução dá iguais garantias de estabilidade e durabilidade que um liderado por António Costa.

PAN prefere Executivo liderado por Costa

A terminar a ronda de audiências feita esta sexta-feira por Cavaco, André Silva, deputado eleito pelo Pessoas-Animais-Natureza (PAN), sublinhou que "face aos últimos acontecimentos", isto é, ao chumbo parlamentar ao programa do Governo e à assinatura dos acordos à esquerda, o partido "entende que o Presidente da República deve indigitar o líder do segundo partido mais votado" nas legislativas de 4 de outubro - em detrimento de um executivo de gestão ou de iniciativa presidencial.

O também porta-voz do partido que nesta legislatura se estreia em S. Bento notou que "os partidos de esquerda serão responsáveis pela tal estabilidade" que o Chefe do Estado defende e não adiantou como votará um eventual programa de Governo apresentado por António Costa. Só "na devia altura" o fará, atuando "medida a medida". Dito de outra forma: sem passar cheques em branco.

[Notícia atualizada às 18:40]

Ler mais

Exclusivos