Passistas não deixam Rio ir sozinho a jogo. Montenegro e Rangel medem prós e contras

Fontes ouvidas pelo DN não acreditam que o ex-líder parlamentar e o eurodeputado entrem na corrida um contra o outro.

Os passistas, ou melhor, o aparelho que estava ao lado de Pedro Passos Coelho, não vai deixar Rui Rio ir sozinho a jogo nas diretas, que deverão ser marcadas para dezembro. As pressões para que Luís Montenegro ou Paulo Rangel avancem são muitas. O ex-líder parlamentar e o eurodeputado estão a refletir, a fazer contactos, e a medir o pulso ao partido. O DN sabe que Montenegro tomará uma decisão dentro de poucos dias. E, a avançar, será ele quem reúne maior consenso junto dos setores que apoiavam Passos.

O facto de Montenegro não se ter mostrado muito favorável à ideia de avançar agora com uma candidatura à liderança, fez as estruturas do partido movimentarem-se em direção a Paulo Rangel. No próprio Conselho Nacional de terça-feira à noite, o ex-líder parlamentar não deu sinais dessa vontade de entrar na corrida à sucessão de Pedro Passos Coelho.

O próprio líder do PSD, no discurso aos conselheiros, onde assumiu que não se recandidatará à presidência do partido, apenas teve palavras de elogio para o novo presidente da bancada parlamentar Hugo Soares e para Rangel (a quem o vice-presidente do PSD Marco António Costa também elogiou). Passos louvou o trabalho do eurodeputado no Parlamento Europeu, onde é vice-presidente do PPE.

Mas nos bastidores as pressões dos passistas sobre Montenegro mantiveram-se. E o que se disse no Conselho Nacional parece ter posto o ex-líder parlamentar a ponderar mais seriamente as condições para avançar. O processo de decisão, garantiu-nos uma fonte próxima de Montenegro, será acelerado, mas a com a "calma necessária" para ouvir muitas figuras no partido. Segundo a mesma fonte, o deputado não esperava o desastre dos resultados eleitorais de 1 de outubro e sempre acreditou que tinha, pelo menos dois anos, para preparar uma candidatura à presidência do PSD, caso Passos Coelho acabasse por perder as legislativas de 2019. "Agora é preciso ponderar todas as condições e sobretudo perceber se o partido está apenas à espera de um líder de transição", assegurou a mesma fonte.

Ontem, no novo programa da TSF "Há almoços grátis" - de debate entre Montenegro e o socialista Carlos César - o deputado social-democrata admitiu estar a ponderar a candidatura. E quando questionado sobre se a fazia depender de um avanço de Paulo Rangel, foi taxativo: "Não depende mesmo de ninguém, depende da avaliação que vou fazendo".

Reforçou a ideia no Parlamento pouco antes do debate quinzenal (ver pág. 6): "Fixem uma coisa: não ando a contar nem apoios, nem espingardas, nem nada dessa avaliação é preponderante para mim".

Está por isso a avaliar. Ontem saiu antes do fim do debate quinzenal e com o secretário-geral do partido, José Matos Rosa, para "reuniões importantes".

Rangel a ponderar

Paulo Rangel está a fazer o mesmo. A refletir e a ponderar se tem condições para avançar. "Ninguém no seu perfeito juízo avança sem ter a certeza que tem consigo quatro ou cinco distritais do partido", afiança um destacado social-democrata.

O DN sabe que o eurodeputado também está a fazer contactos dentro do partido e tem recebido várias mensagens de incentivo. A sua intervenção no Conselho Nacional foi, aliás, a uma das mais aplaudidas. De acordo com conselheiros nacionais presentes na reunião, Rangel disse que o PSD não pode embarcar em "soluções amigas do Bloco Central", no que foi entendido como uma referência crítica a Rui Rio - que em tempos advogou essa possibilidade.

Também para Rangel o que se disse e não disse (sobretudo o silêncio de Montenegro sobre o futuro no PSD) no Conselho Nacional abriu a porta à hipótese de uma candidatura à liderança, sendo que o eurodeputado já em 2010 entrou na corrida das diretas do partido contra Passos Coelho e José Pedro Aguiar -Branco.

Um ou outro

Vários dirigentes ouvidos ontem pelo DN - todos próximos da direção atual - manifestaram a convicção de que Paulo Rangel e Luís Montenegro nunca avançarão em concorrência um com outro. Dito de outra forma: ou um ou outro. Ambos estão em ponderação e, no caso de Luís Montenegro, segundo disse ao DN um deputado próximo, essa ponderação "existe mesmo" - ou seja, há uma indecisão.

Perspetivadas a partir do dia de hoje, as legislativas de 2019 afiguram-se ao PSD tudo menos fáceis. O sucessor de Passos Coelho poderá, portanto, não passar de um líder de transição, que o partido tenderá a eliminar caso as próximas legislativas corram mal. Um amigo de Montenegro recordava ao DN que este é ainda muito jovem. Acrescentando: "Ninguém quer morrer politicamente aos 44 anos." A profunda colagem de Montenegro a Passos - foi sempre o seu líder parlamentar - também não concorre a favor das suas hipóteses, sobretudo quando até o próprio líder já assume que está na altura de virar a página.

Os mesmos interlocutores acrescentam não levar a sério a hipótese de candidaturas de Pedro Santana Lopes ou de Luís Marques Mendes. A única certeza é mesmo a candidatura de Rui Rio, que deverá ser anunciada já na próxima semana. O ex-autarca do Porto continua a fazer contactos e a manter reuniões com figuras e estruturas do partido.

Eleição de delegados

A preparação das diretas (início de dezembro) e do congresso (início de 2018) já se vai fazendo. O que se sabe é que a eleição dos delegados ao congresso - de onde sairão os principais órgãos do partido, como o Conselho Nacional ou a Comissão Política Nacional - ocorrerá no mesmo dia das diretas em que os militantes escolherão, por voto secreto e universal, o presidente do partido.

Sabendo-se que essas listas de candidatos a delegados tenderão a refletir a divisão entre as candidaturas a presidente do partido, conclui-se portanto que os futuros órgãos dirigentes do partido refletirão essas novas divisões, distanciando-os portanto do atual "status quo" passista.

Ventura disponível

O polémico candidato à Câmara de Loures pelo PSD, André Ventura, afirmou ontem que está disponível para concorrer à liderança do partido caso Luís Montenegro ou Paulo Rangel não o façam. "Na minha ótica, Rui Rio não pode nem deve ser o próximo líder. Sinceramente espero que Luís Montenegro ou Paulo Rangel avancem porque este é o seu momento", afirmou, deixando em aberto a possibilidade de ele próprio avançar: "Se ninguém for contra o Rui Rio. Agora o que acho importante sublinhar é que o PSD não pode ter a passadeira vermelha", concluiu.

Quatro potenciais candidatos

> Rui Rio

Economista, Rui Rio ganhou a câmara do Porto em 2001 e após três mandatos como deputado do PSD, período em que foi secretário-geral do partido na presidência de Marcelo Rebelo de Sousa. Vice-presidente do PSD com Durão Barroso e Santana Lopes, mais tarde com Manuela Ferreira Leite, o antigo vice-presidente da JSD, 60 anos, viu a sua visibilidade disparar com as polémicas à frente da autarquia - fosse o confronto com o poderoso Pinto da Costa ou com o universo da cultura. Chegou a ser indicado como potencial candidato a Belém em 2016.

A favor

Tem a aura de ser um político sério e rigoroso. E as batalhas que travou na Câmara do Porto mostram que é determinado.

Contra

O facto de ser visto há muito tempo como um putativo líder do PSD e de nunca ter avançado causa alguma irritação nalguns setores do partido.

> Luís Montenegro

É o político a quem Marcelo Rebelo de Sousa, já na qualidade de Presidente da República, enalteceu "qualidades invulgares" em várias dimensões - "políticas, de inteligência, de competência, de lealdade [e] de proximidade". Luís Montenegro, 44 anos, é apontado como putativo herdeiro do chamado "passismo". Ex-presidente da JSD em Espinho, a cuja autarquia concorreu em 2005 e perdeu, foi eleito deputado em 2002. Em 2010 tornou-se vice-presidente do grupo parlamentar do PSD, chegando em 2011 à liderança - cargo que exerceu até há poucas semanas.

A favor

A liderança da bancada social-democrata deu-lhe um lugar de destaque no partido e tem uma boa base de apoio entre os passistas.

Contra

O ter-se mantido sempre ao lado de Passos durante a era da austeridade tira-lhe alguma margem para surgir como um rosto alternativo.

> Paulo Rangel

Eurodeputado desde 2009, é vice-presidente do influente grupo parlamentar do Partido Popular Europeu (PPE). Paulo Rangel, 49 anos, foi secretário de Estado da Justiça no breve governo de Pedro Santana Lopes (2004). No ano seguinte foi eleito deputado do PSD, tornando-se presidente do grupo parlamentar em 2008. Em 2010 candidatou-se à presidência do PSD contra Pedro Passos Coelho e José Pedro Aguiar-Branco. Tendo perdido, apesar dos apoios de figuras históricas ou ligadas a Cavaco Silva e Durão Barroso, foi-se aproximando de Passos Coelho.

A favor

A vitória inesperada nas europeias de 2009 catapultou-o para o primeiro plano do PSD. Agora é um dos mais influentes eurodeputados.

Contra

Não cultiva a relação com as bases do partido e por isso é visto com alguma desconfiança por algumas estruturas sociais-democratas.

> Pedro Santana Lopes

O ex-líder do PSD é, entre os putativos candidatos ao cargo, o que tem mais currículo. Pedro Santana Lopes, 61 anos, assumiu-se sempre como seguidor de Sá Carneiro e defensor do "PPD/PSD". Membro da Nova Esperança, com Marcelo Rebelo de Sousa e José Miguel Júdice, foi secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e da Cultura nos governos de Cavaco Silva. Eurodeputado, perdeu a corrida à chefia do PSD contra Marcelo e Durão Barroso, a quem sucedeu como primeiro-ministro. Depois perdeu as legislativas de 2005.

A favor

É sempre uma reserva do partido, porque tem coragem política. Tem no currículo as vitórias eleitorais nas câmaras da Figueira e Lisboa.

Contra

O desastre que foi o seu curto governo em 2004 é um handicap, que será sempre lembrado pelos adversários políticos.

Com M.C.F.

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