Party-Sleep-Repeat. Um festival que transformou a morte do Luís em vida

O evento, que reúne nomes conhecidos do panorama musical nacional, é um tributo a Luís Lima, um jovem que morreu em 2012, vítima de cancro. As receitas da bilheteira revertem para famílias carenciadas e para a Liga

Luís Lima gostava de música, de fotografia, de cinema. Era apaixonado pelas artes. E tinha uma grande consciência social. Morreu em 2012, com 23 anos, vítima de um tumor no cérebro. Mas, como diz o pai, Luís Quintino, a sua "morte foi transformada em vida". Desde então que os amigos de infância organizam um festival em sua homenagem, anualmente, em São João da Madeira, cujas receitas revertem para projetos de investigação da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) e para o projeto Apadrinhe esta Ideia, que apoia famílias carenciadas. Chama-se "Party-Sleep-Repeat" e acontece no sábado, pelo sexto ano consecutivo, na Oliva Creative Factory.

"Quando o Luís faleceu, propusemos aos pais fazer uma coisa menos ortodoxa do que um simples funeral. Queríamos fazer uma festa, convidando artistas e amigos para lhe prestarmos um tributo, tendo em conta o gosto pessoal dele e as causas sociais que apoiava", recorda Tiago Valente dos Santos, de 29 anos, presidente da Associação Cultural Luís Lima (ACLL). Não esperavam repetir o evento, nem tão pouco que o festival atingisse as dimensões que viria a alcançar. Mas o público insistiu.

Luís estudava Direito, em Coimbra, quando uma forte dor de cabeça o levou ao hospital, onde lhe foi diagnosticado um tumor cerebral. "Com muito mau prognóstico", recorda o pai, Luís Quintino. Um cancro com uma sobrevida de cinco anos, que Luís viveu até ao limite. Anos de sobressalto, mas de "muita felicidade". Após o diagnóstico, e sem contar a ninguém, Luís decidiu fazer voluntariado junto dos sem-abrigo, algo que inspirou os amigos a apoiarem causas sociais através do festival.

"Não é um festival como os outros. Mas o que está em causa não é o nosso orgulho. O que está em causa é a capacidade de se transformar um fenómeno difícil e incontornável como a morte em vida", diz ao DN Luís Quintino, destacando que "esta iniciativa serve de exemplo para outras propostas que possam surgir". Um evento, prossegue, que junta duas caraterísticas fortes do caráter do filho: a música e a solidariedade.

As receitas começaram por ser direcionadas para o projeto "Apadrinhe esta Ideia", com que a associação local Ecos Urbanos (que participa na organização) angaria bens para famílias carenciadas, mas, a partir da 4ª edição, os responsáveis decidiram começar a apoiar também a LPCC. Para Vítor Veloso, presidente da Liga, estas iniciativas são "extremamente importantes" para os "projetos e missões" da instituição. "Sem investigação, não há inovação. E sem inovação, não existem novas armas terapêuticas", frisa, destacando que "esse é um campo no qual a LPCC gostaria de investir mais".

O crescimento do "Party-Sleep-Repeat" fez com que, na terceira edição, os amigos criassem uma associação em memória de Luís. Além do festival, conta Tiago Santos, a ACLL organiza conferências sobre temas que interessam à sociedade civil, produz concertos inesperados, lidera um grupo de auto-ajuda para familiares de doentes oncológicos, no Porto.
Luís tinha a ambição de fazer vários documentários relacionados com a música, tendo deixado um legado nesse sentido, que já produziu frutos nas mãos dos amigos. "O trabalho da associação é quase uma extensão do que ele fazia. É uma forma de o preservar junto de nós", destaca Tiago. Ao mesmo tempo, explica, foi uma forma de estar junto dos pais. "Fazemos questão de ter a validação deles. É como se o Luís nos tivesse deixado e os pais dele tivessem integrado o nosso grupo de amigos."

Várias áreas em sintonia

A associação tem um núcleo constituído por dez pessoas, mas existe perto de uma centena a colaborar na organização do festival, que conta com o apoio de várias empresas locais, autarquia e junta de freguesia. Embora sejam naturais de São João de Madeira, só um dos membros vive na região. Os restantes estão divididos por Porto e Lisboa. São diretores de arte, programadores, fiscalistas, engenheiros, produtores culturais, designers, músicos. "Isto permite-nos fazer um festival aproveitando a experiência de cada um . Por isso é que funciona", sublinha o presidente.

"Party-sleep-repeat", algo como "festejar-dormir-repetir", era, segundo Luís Quintino, algo que o filho dizia muito. "Era alegre e tinha espírito de liderança. Andava sempre à procura de programas", recorda. Luís era um jovem "muito social, no sentido em que tinha facilidade no contacto com as pessoas. Não tinha barreiras". E esse é também um dos pontos-chave do evento.

Um cancro no cérebro com uma sobrevida de cinco anos fez com que Luís passasse a ver a vida de outra forma. "Houve um crescimento rapidíssimo. Mudou radicalmente a sua maneira de estar". Um dos exemplos disso foi o voluntariado, embora sempre tivesse tido uma grande consciência social. Deixou ao pai esse legado. "Hoje eu também faço voluntariado", conta o economista, acrescentando que também passou a viver de outra forma. "Já não preciso de ter cinco empregos. O Luís deu-me uma lição."

Manel Cruz entre convidados

Nas últimas edições, o festival recebeu, em média, 1500 pessoas, um número que a organização quer ultrapassar. "Esperamos chegar às 2000 pessoas nesta edição", adianta Tiago Valente dos Santos. Manel Cruz, Throes+The Shine, Stone Dead, Zulu Zulu, Solar Corona e Fugly são alguns dos nomes que vão passar por aquele que consideram ser um "ciclo de música, amizade e solidariedade".

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