"Partido está grato a Portas mas motivado com a mudança"

Eleita presidente há um ano, Assunção Cristas prometeu uma "liderança irreverente" sem temer "temas difíceis". Portas foi esquecido?


Assunção Cristas comemora hoje o seu primeiro ano de liderança à frente do CDS. As palavras ao telefone, na tarde de ontem, fluem organizadas e enérgicas. Sobre Paulo Portas afirma que "o partido está muito grato pelo seu trabalho, mas muito motivado com a mudança, que já interiorizou". Uma opinião que não colhe unanimidade, como é o caso do deputado Filipe Lobo d"Ávila, para quem "ao fim de um ano, apesar da vontade da Assunção Cristas, o partido ainda está com saudades de Paulo Portas" e acha " normal que assim seja".
Cristas fala-nos a caminho de Oliveira do Bairro, de onde seguirá para a Covilhã para inaugurar este domingo a sede de campanha do candidato centrista à câmara municipal, Adolfo Mesquita Nunes, seu "ideólogo" e vice-presidente do partido. "Estou no terreno, junto às pessoas e ao partido, como prometi que iria sempre estar", diz do outro lado da linha.
A "Boss AC", como lhe chamou Mesquita Nunes no congresso que a elegeu há um ano, numa adaptação ao nome do rapper com as mesmas iniciais (A para Assunção, C para Cristas e Boss para líder), prometeu uma liderança "irreverente" sem "temer temas difíceis", e considera que cumpriu. "Julgo que já temos vários exemplos do papel forte que o CDS tem tido na oposição. Logo no início obrigando as esquerdas unidas a clarificarem os seus votos sobre o Pacto de Estabilidade e o Plano Nacional de Reformas, também na atitude construtiva em relação à concertação social e mais recentemente no pacote sobre a supervisão bancária. Temos mostrado que somos uma oposição firme nos princípios, acutilante nas críticas e construtiva nas propostas que beneficiem o país", sublinha.
Sente que o partido já se habituou ao seu ritmo e organização e vê no terreno, onde mais gosta de estar, provas desse dinamismo. "O desafio autárquico está a mobilizar muito o partido", sublinha Assunção Cristas, candidata à Câmara de Lisboa e a única da direita até agora. "E neste momento estamos com dois meses de avanço na preparação da organização, comparativamente com o calendário de há quatro anos", assinala.
O seu vice Mesquita Nunes não tem dúvidas de que Assunção "está na primeira linha do combate político" e que "soube bem marcar o seu território sem recear lutas difíceis, como ficou demonstrado com a sua decisão de avançar para a candidatura a Lisboa".
O portista Nuno Magalhães, que comanda o grupo parlamentar centrista, assume-se seduzido pela liderança de Assunção, na sua "organização, na sua mais frequente presença nos plenários e nas reuniões do grupo parlamentar, na confiança e autonomia", estas duas últimas qualidades "iguais às de Paulo Portas". Tal como o ex-presidente, Cristas "também quer estar a par de tudo e tem pensamento sobre tudo". Com Portas as reuniões de trabalho podiam ser numa sala de aeroporto ou num hotel, a qualquer hora do dia ou da noite, com Assunção é mais difícil isso acontecer.
Enquanto Costa sorrir...
O deputado Filipe Lobo d"Ávila, que ficou para a história como o "crítico" do último congresso, por ter apresentado uma candidatura alternativa à de Assunção para o Conselho Nacional, tem outra perceção deste ano de desempenho. Reconhece que o partido "esteve bem em algumas áreas sociais, chamando para o debate político temas como a natalidade, o envelhecimento ativo, a sustentabilidade da segurança social, a saúde ou a educação", mas avisa: "São tantos os temas que o CDS quer falar que é com dificuldade que se consegue reproduzir aquelas que foram as principais propostas concretas apresentadas." Por outro lado, entende que "o partido optou por seguir uma estratégia demasiadamente autocentrada na imagem da líder, esquecendo que todo o partido, em todo o país, se prepara para ir a votos. Há Lisboa a mais e país a menos". Comparando as lideranças, "sente-se ainda muita falta da objetividade, da antecipação e da astúcia política de Paulo Portas". Por isso não hesita em dizer que "ao fim de um ano, apesar da vontade da Assunção Cristas, o partido ainda está com saudades de Paulo Portas".
Para Lobo d"Ávila há um barómetro para medir a qualidade da oposição: "Se António Costa continua a sorrir, se continua a subir nas sondagens (com o que isso vale, que mais não é do que uma tendência) os líderes do centro-direita deveriam pensar o que estão a fazer bem e o que estão a fazer mal. Eu não gosto que António Costa continue a sorrir. A obrigação de Passos e de Assunção é combater este governo. Há muito por fazer....".

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?