Pais do Gil nunca o viram na Expo

O DN foi saber onde estão os rostos por detrás destas imagens e recordações que se tornaram ícones.

O Gil que nos recebia de braços abertos; os vulcões que explodiam água e que refrescavam; a Peregrinação com os olharapos, olharapas e olharapins; o teleférico que dividia a cidade do rio; a Pangea, a música com o nome do supercontinente pré-histórico com que Nuno Rebelo, o compositor, a batizou; uma festa que finalizava com o espetáculo Acqua Matrix. O logótipo, esse, já o levávamos na cabeça antes de lá entrarmos.

As mágoas dos criadores da mascote

António Modesto, designer e pintor, e Artur Moreira, escultor, ganharam o concurso para a mascote, numa parceria que já dera frutos e que continuaram pela vida fora. Um prémio de cinco mil contos (cerca de 2,5 mil euros), mais "um contrato de direitos de autor penoso", diz António. Sabiam que não iriam construir a figura, mas esperavam acompanhar o processo, o que não aconteceu. Mágoas que fizeram que nunca visitassem "o filho" durante a exposição, não porque não se orgulhassem dele, mas porque não gostaram da forma como o criaram.

"Fui dos poucos que não foram à Expo mas via na televisão as crianças dizerem que aquilo de que mais gostavam era do Gil, o que me deixava orgulhoso", conta António Modesto. Tanto que pensou em chamar Gil ao segundo filho, que nasceu depois. "Mas foi uma Alice."

O primeiro embate negativo foi quando apresentaram o Gil a três dimensões no Centro Cultural de Belém, o único evento oficial para o qual se lembram de terem sido convidados. "Ficámos aborrecidos com diversas situações, foi com desgosto que vi a figura maltratada. Houve o concurso e nunca mais disseram nada, depois fizeram aquela figura gigantesca", critica Artur.

Dizem que os braços não são proporcionais, também não gostaram da Docas e de pessoas mascaradas de Gil pelos recintos públicos. Mas a verdade é que o boneco com a franja a lembrar o Tintim (a ideia era ser popular e agradar às crianças) se tornou um sucesso que permanece até hoje. O Gil lá está nas entradas principais a dar as boas-vindas.
Curiosamente, Artur Moreira acabaria por reproduzir um porta-chaves do Gil através de uma empresa que fazia figuras do Walt Disney com que já tinha colaborado.

O coautor da figura icónica da Expo 98 tem 72 anos e é reformado do ensino. Chegou a ser colega de António Modesto, 61 anos, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, onde este dirige o mestrado de Design Gráfico e Projetos Editoriais. Tem, agora que se reformou, tempo para fazer esculturas, participando em exposições coletivas.

Entretanto, os dois já visitaram o Parque das Nações: "Conhecia bem aquele espaço em miúdo. Sei o que era e no que se transformou. É uma extensão da cidade fantástica", explica Artur Moreira .

José Luís escolheu Gil Eanes e foi a estrela da turma

Feita a mascote, havia que escolher um nome, desafio lançado aos estudantes mais novos. José Luís Coelho estava no 4.º ano da Escola Básica de Barrancos e escolheu Gil Eanes, com o qual toda a turma concordou. Um feito que não espalha aos quatro ventos. "O Zé Luís foi quem escolheu o nome? Engraçado, não sabia", responde um ex-colega com quem Zé Luís dividia um ateliê onde exercia a profissão de arquiteto paisagista.

"Gosto muito da arquitetura paisagista, abriu-me as portas e cada vez mais as pessoas entendem as necessidades de ordenamento. Mas fomos afetados pela crise de 2011. Acabei por contactar com o golfe num projeto para um campo no Alqueva. Houve a oportunidade de trabalhar numa startup portuguesa, a Hole 19, e aceitei. Sou gestor de negócios. Gostava do golfe e sempre tive uma veia de gestão, comercial, que fez que me reinventasse."

José Luís tem 35 anos e mora em Lisboa. "Tal como as outras crianças que vivem num concelho do interior, tive de sair para estudar. Fiz o 9. º e iniciei o Secundário em Lisboa, que acabei em Évora, onde me licenciei." Viveu perto do Parque das Nações, visitou vezes sem conta a exposição. E o prémio? "Tivemos bilhetes, ganhei um astrolábio, uns presentes, nada de especial. Fiquei muito contente por ter sido escolhido, mas nada mudou em mim, a não ser aquele mediatismo. Tenho fotos, entrevistas e vejo a turma da 4.ª classe aos fins de semana, quando vou a Barrancos."

O mundo, o oceano e o sol do país num logótipo

Augusto Tavares, 64 anos, é pintor e designer, e autor do logótipo da Expo. "Trouxe algumas vantagens, foi agradável, não alterou o meu percurso. Atualmente, faço mais trabalhos para fora de Portugal, sobretudo pintura - moderna e abstrata -, que é o que mais gosto de fazer. Logótipos só de encomenda. Trabalho em casa e vendo pela internet. Vivo em Sintra, pacificamente, e não quero grandes confusões."

Há 20 anos era diretor criativo de uma empresa de publicidade, tinha dois filhos. Nasceu depois um terceiro, que tem a idade da exposição. "Fui lá muitas vezes, adorei, uma coisa bem feita sob todos os aspetos. Dois meses antes estava em pânico, havia muito por fazer. Mas abriu em grande."

Designers da Disney construíram vulcões

Ainda hoje, o arquiteto Tomás Salgado, 47 anos, pergunta como terá descoberto os designers dos parques da Disney. "Sabíamos que os jogos de água num espaço público eram importantes, andámos à procura do que se fazia e contactámos com a Wet Design. Como é que terei chegado a essa empresa? Não havia internet, nem Google. Consegui e o resultado foi ótimo", conta Tomás Salgado. "Propuseram quatro ou cinco jogos de água diferentes e escolhemos o vulcão. Tinha uma explosão de água e era previsível que corresse bem, mesmo assim foi imprevisível as crianças meterem-se debaixo dele, à espera de que explodisse."

Trabalhava no ateliê Risco, fundado pelo pai, o arquiteto Manuel Salgado, e que agora gere com mais três arquitetos, todos eles iniciados na Expo"98, num grupo de 15 jovens. "Mudou a vida de todos, fizemos o curso e atirámo-nos. Era uma equipa bastante jovem, coordenada pelo meu pai, tivemos uma oportunidade que muitos dos jovens arquitetos não têm."

Entre os trabalhos realizados pelo ateliê, está a Cidade do Futebol, com Tomás Salgado a coordenar.

Mudar de uma cave para trabalhar ao lado do rio

Os espanhóis estão na origem da Telecabine Lisboa, a empresa que explora o teleférico. E que, posteriormente, acrescentou quatro cabinas para pessoas em cadeiras de rodas, num total de 40. Amélia Amaral, 59 anos, coordenadora, está lá desde muito antes de a feira abrir. "Duvidei muito que abrisse no dia previsto. Era só pó. Na última semana apareciam coisas feitas todos os dias, foi incrível."

Era secretária administrativa, mas estava desempregada. "Fiz um contrato para os 131 dias da Expo, mas o sucesso foi tanto que acabei por ficar. É um pri-vilégio trabalhar aqui. Eu trabalhava numa cave." Transportaram 3,3 milhões de pessoas durante a Expo, numa média de 27 mil por dia. E, desde essa altura, com eles já viajaram 10,7 milhões, cerca 1700 por dia. Há 20 anos, um adulto pagava 250 escudos numa ida (1,82 nos dias de hoje). Agora custa 3,95.

Acqua Matrix: as quatro vezes que o espetáculo falhou

O espetáculo iniciava-se 17 minutos antes da meia-noite. Concluída a exibição, era a debandada para o regresso a casa. João Paulo Feliciano, 55 anos, diretor artístico, concebeu-o com Alberto Lopes e Mário Carneiro. "Marcou a minha vida e o percurso profissional de uma forma definitiva", explica. Admite que ganhou muito dinheiro para a altura, "como todos os que trabalharam na Expo"- o seu espetáculo foi visto por seis milhões de pessoas.

Não recorda situações dramáticas, apenas em quatro dias não houve Acqua Matrix. "Só uma vez foi por razões técnicas, as outras deveram-se ao vento." Era daqueles que sempre acreditaram que tudo ia estar pronto a tempo e que a Expo ia abrir a tempo e horas: "Não duvidei um segundo de que ia acontecer a 21 de maio."

Fazer o Acqua Matrix trouxe-lhe muitas outras coisas. Hoje em dia faz "espetáculos multimédia e desde 2012 é o diretor artístico do Primavera Sound.

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