Padre constituído arguido por desviar dinheiro de instituições e ter vida de luxo

PJ constituiu um segundo arguido, além do padre Arsénio Isidoro (na foto), presidente da Casa do Gaiato de Lisboa, que declarava 700 euros de ordenado e terá comprado casas e carros de luxo

O presidente da Casa do Gaiato de Lisboa foi ontem constituído arguido pela Polícia Judiciária, num processo em que o padre Arsénio Isidoro e um segundo arguido são acusados de peculato, por terem desviado dinheiro de instituições de solidariedade social para aquisição de bens de luxo.
Inspetores da Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC) da Polícia Judiciária fizeram buscas ontem de manhã na Casa do Gaiato de Lisboa, em Santo Antão do Tojal (Loures), liderada pelo padre Arsénio Isidoro, uma das cinco Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) do Patriarcado de Lisboa a que o sacerdote pertenceu.

Segundo apurou o DN junto de fonte policial, o padre ostentava sinais de riqueza que terá sido adquirida com milhares de euros desviados das instituições: terá comprado casas e carros de luxo. A dúvida que se coloca agora à polícia, segundo informações recolhidas pelo DN, é se o sacerdote desviava dinheiro das IPSS em que trabalhou ou se os donativos não chegaram sequer a entrar nas instituições, tendo para isso sido criado um esquema de contabilidade paralela.

Para as autoridades, certo é que os 700 euros de ordenado declarados por Arsénio Isidoro não podiam justificar os sinais de luxo que ostentava, nomeadamente carros de alta cilindrada. O padre acabou por ficar em liberdade, depois de ter sido identificado e constituído arguido. O segundo arguido pelo crime de peculato nesta operação é um dirigente de uma das cinco IPSS visadas. O DN tentou ouvir o padre Arsénio Isidoro, que ontem esteve incontactável.

Cooperação da Igreja

Poucas horas depois das buscas da Judiciária, a direção da Casa do Gaiato de Lisboa solidarizou-se com o presidente da instituição, reconhecendo a sua "imagem de exemplo e generosidade", esperando que "rapidamente a justiça clarifique o manto de suspeição sobre ele levantado".

Em comunicado, a direção da Casa do Gaiato informou que foram efetuadas buscas à Casa do Gaiato de Lisboa, em Santo Antão do Tojal, e que a instituição "manifestou total disponibilidade" para colaborar com as autoridades. "A direção da Casa do Gaiato manifesta a sua total confiança e solidariedade para com o presidente da direção, padre Arsénio Isidoro, reconhecendo a sua imagem de exemplo e generosidade, fazendo votos para que, rapidamente, a justiça clarifique o manto de suspeição sobre ele levantado", acrescentou o documento.

Também o Patriarcado de Lisboa prometeu "cooperar integralmente com as autoridades", relativamente à Operação Veritas, levada a cabo pela Unidade Nacional de Combate à Corrupção, que visou instituições sob sua tutela. Num comunicado de dois parágrafos, divulgado ontem ao final da tarde, pode ler-se: "O Patriarcado de Lisboa, como em todas as ocasiões, entende ser dever dessas pessoas jurídicas canónicas, cooperar integralmente com as autoridades competentes, no apuramento da verdade." No mesmo texto, o Patriarcado afirma ter tido conhecimento pela comunicação social, que "algumas entidades canónicas, na área da sua jurisdição, foram alvo de buscas por parte de entidades judiciais, no âmbito de uma denúncia sobre a prática, menos correta, de atos administrativos por alguns dos seus responsáveis".

A Operação Veritas, levada a cabo pela Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC), deu cumprimento a dez mandados de busca e apreensão. Iniciada em meados de 2014, a operação incide sobre Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), e sobre a eventual prática de atos de gestão fraudulenta, em entidades com utilidade pública. Em causa está a aquisição de bens em proveito próprio, sobretudo bens de luxo, por elementos daquelas entidades, conforme informou fonte da Polícia Judiciária. A operação resulta de um inquérito do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa.

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