Ordem admite investigar São José por falta de radiologistas

Secção do Sul da Ordem dos Médicos avisa que se qualidade do serviço diminuir sem a presença de radiologistas durante a noite pode avaliar capacidade do hospital para formar especialistas nesta área e vai culpar conselho de administração por possíveis acidentes.

A Ordem dos Médicos admite fazer uma inspeção ao serviço de radiologia de S. José para perceber se o hospital mantém capacidade para formar especialistas nesta área. O presidente do Conselho Regional do Sul adiantou ao DN que a Ordem vai acompanhar de perto a decisão da administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC) de, a partir de 1 de junho, prescindir da presença de um médico radiologista no período noturno e de passar a fazer os exames via telemedicina. E se receber queixas sobre a qualidade do serviço, Alexandre Valentim Lourenço ameaça avançar com um processo de investigação interna e responsabilizar o hospital por possíveis acidentes com utentes.


O CHLC, do qual o Hospital de São José faz parte, argumentou já hoje que o recurso à telerradiologia "é comum nos hospitais", quer em Portugal, quer internacionalmente, tratando-se de uma "boa prática de recursos humanos para a tarefa de produção de relatórios de imagiologia". "Não há prejuízo para os utentes nem quaisquer perdas de tempo ou qualidade face aos relatórios de exames produzidos pelos médicos residentes". Para o CHLC, a solução tem, no entanto, de ser limitada e transitória, o que acontece neste caso, na medida em que a telerradiologia só ocorre das 00.00 às 08.00, período em que o número de exames é reduzido". Explicações que merecem críticas do presidente da secção regional do Sul da Ordem, que ironiza: "Então se a solução é boa, se a qualidade é a mesma, porque não prescindem também da presença de radiologistas durante o dia?".


Para Alexandre Valentim Lourenço, é "impensável" que um hospital de fim de linha, que recebe doentes de outros locais quando estes não têm capacidade de resposta, envie "os exames de radiologia e neuroradiologia para uma empresa no exterior", facto que pode causar "graves distúrbios". Empresas que, ainda segundo o dirigente da Ordem dos Médicos, "estão a baixar preços, o que as leva a ter apenas um técnico a trabalhar para vários hospitais. Agora imaginemos que esse técnico recebe imagens de três hospitais, ele vai analisar por ordem de chegada, e não de gravidade. É essa a mais valia de ter a presença de um médico radiologista, de fazer uma análise imediata que pode salvar vidas".
Com a solução que entra em vigor em junho, um processo que demorava minutos pode passar a demorar mais de uma hora, com o envio de imagens a um técnico e se for preciso realizar novos exames, explica Alexandre Valentim Lourenço, que deixa um aviso: "Se a partir de junho, tivermos denúncias de perda de qualidade do serviço, vindas dos próprios médicos, avançaremos com uma investigação ao serviço, até para perceber se mantém capacidade para formar especialistas. E se forem apresentadas queixas civis por parte de utentes que sejam afetados pela medida, a responsabilidade por esses acidentes deixa de ser dos médicos, mas sim do conselho de administração que tomou esta decisão".


De acordo com os esclarecimentos de hoje do Centro Hospitalar, durante o dia, os exames e respetivos relatórios são assegurados pelos radiologistas do CHLC. "Além do cumprimento rigoroso de prazos, os profissionais que executam no exterior os relatórios de exames ficam disponíveis, por contrato, a prestar todos os esclarecimentos adicionais que forem considerados necessários pelos colegas prescritores", é ainda referido pelo hospital.


A Ordem dos Médicos dá como exemplo alternativo a este modelo o que o hospital Amadora-Sintra pratica. "No Fernando da Fonseca, que não é um hospital de fim de linha, têm radiologistas à chamada durante a noite, que se forem necessários estão no serviço em meia de hora". Alexandre Valentim Lourenço visitou o Hospital de São José na quarta feira à noite, para ouvir os médicos da urgência. Também o Sindicato Independente dos Médicos já publicou um comunicado sobre a medida do Centro Hospitalar de Lisboa Central, que considera poder "pôr em risco os doentes e potenciar a possibilidade de erro médico". "A partir da meia-noite, o Hospital de S. José, uma referência do SNS, não terá disponíveis médicos radiologistas, quer em presença física quer em prevenção. Os exames são executados por técnicos e avaliados via telemedicina por um médico, quem sabe se a centenas de quilómetros", sublinhou o sindicato dirigido por Jorge Roque da Cunha.

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