Oposição acusa câmara de querer "apagar a história"do Jardim do Império

Câmara de Lisboa afirma que projeto que vai guiar a renovação integra elementos históricos e novos elementos. A oposição não concorda

A Câmara de Lisboa informou hoje que a renovação do Jardim do Império, que não prevê a manutenção dos brasões, "valoriza bastante a história", pois repõe o projeto original, argumento que não convence a oposição na autarquia.

Na reunião privada de quarta-feira, o executivo municipal aprecia o relatório final do júri do concurso lançado para renovação do Jardim da Praça do Império e, em declarações à agência Lusa, o vereador da Estrutura Verde, José Sá Fernandes, referiu que a proposta vencedora "valoriza bastante a história e retoma o projeto inicial do arquiteto Cottineli Telmo", que continha relva em vez de brasões.

Segundo a informação disponível no 'site' do município, o jardim, que é ladeado pelo Mosteiro dos Jerónimos e pelo Centro Cultural de Belém, foi construído em 1940 por altura da "Exposição do Mundo Português", evento comemorativo dos 800 anos da Independência de Portugal e dos 300 anos da Restauração da Independência.

Anos mais tarde, no âmbito de outra exposição, foram ali colocadas 30 composições florais em forma de brasão representando as armas das capitais portuguesas e das ex-províncias ultramarinas, dois escudos (o da Ordem de Avis e o da Ordem de Cristo) e um relógio de sol.

Questionado sobre se o projeto prevê a preservação destes elementos, Sá Fernandes referiu que, atualmente, "não existem lá brasões nenhuns", dada a falta de manutenção dos últimos anos, que os tornou despercebidos face à vegetação.

"Que eu saiba, nenhum dos trabalhos apresentados [a concurso] reproduzia os brasões", acrescentou o responsável.

Segundo o relatório do concurso, a concretização da ideia vencedora, do ateliê ACB Arquitectura Paisagista, terá um custo de 499.670 euros e demorará seis meses.

Nesse documento, o júri indica que o projeto revela "preocupação com a integração dos elementos históricos e com a inclusão de novos elementos simbólicos, nomeadamente o jardim das plantas dos Jerónimos e espécies arbóreas" do Brasil, China, Índia e Japão.

Contudo, apenas serão mantidos "os brasões em pedra do lago central", lê-se.

O júri afirma, também, que a proposta "amplia a capacidade de uso da praça", com a "criação de espaços e equipamentos de lazer", como um palco, anfiteatro e ciclovia.

Porém, a ideia não convence a oposição na Câmara de Lisboa.

O vereador do PSD António Prôa disse à Lusa que "se quer apagar a história" e a "identidade daquela zona da cidade".

"Não era preciso um concurso de ideias, era preciso era fazer a manutenção do que existia", sublinhou.

Por seu turno, o vereador centrista, João Gonçalves Pereira, disse estar "indignado com toda esta situação", que revela "falta de compromisso" da maioria socialista no executivo.

Já o comunista Carlos Moura assinalou que, "com o fim destes brasões, a 'mosaico cultura', que já não tem praticamente representatividade em Lisboa, desaparece completamente".

A polémica em torno do Jardim da Praça do Império surgiu no verão de 2014, com críticas da Junta de Freguesia de Belém.

Hoje, a Junta salientou, em comunicado, que "não admite qualquer solução que não inclua a reabilitação dos brasões que ali existiam e que a Câmara Municipal de Lisboa desprezou".

"A Junta de Freguesia de Belém não permitirá que qualquer revanchismo ideológico apague a nossa memória coletiva", frisa a autarquia, assegurando que "utilizará todos os instrumentos legais ao seu dispor para evitar que esta decisão da Câmara Municipal de Lisboa seja efetivada e, mais uma vez, reitera a sua disponibilidade para assumir na plenitude a reabilitação, a gestão e a manutenção daquele espaço emblemático".

A agência Lusa pediu o acesso à proposta vencedora, mas fonte do gabinete do vereador da Estrutura Verde indicou não ser ainda possível por o relatório não estar aprovado.

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