"Oceanário é para o século XXI o que a Torre de Belém foi no século XVI"

Foi uma das peças centrais da Expo 98, sob o lema "Os Oceanos, Um património para o Futuro". Duas décadas depois, esse futuro chegou e os oceanos chegaram a um ponto crítico. Por isso, o trabalho prossegue, aqui, em todas as frentes

Terminada aquela última noite, a do mais memorável dos fogos-de-artifício que de uma assentada levou mais de 215 mil pessoas ao recinto da Expo 98, o Oceanário fechou portas - como aconteceu com todos os outros pavilhões temáticos - , mas depois bastaram-lhe duas semanas para se preparar para o resto da sua vida, já lá vão 20 anos. "Reabrimos passados 15 dias e logo nesse primeiro ano tivemos mais de um milhão de visitantes", lembra João Falcato, que acompanha esta aventura desde o início, primeiro como aquarista, a cuidar diretamente dos animais nos tanques e aquários, e, desde 2006, como administrador.

Pensado como um "equipamento-âncora" (já que estamos a falar de oceanos...), que haveria de garantir que aquela zona recém-recuperada da cidade se iria manter ativa e cheia de vida, o Oceanário não podia ter sido um sucesso maior. "Não há nenhum exemplo no mundo tão bem-sucedido como este, de uma área urbana recriada para uma Expo, que tenha tido um êxito como aconteceu nesta zona de Lisboa. Em muitas outras cidades, esses locais acabaram por se tornar depois espaços abandonados", diz João Falcato.

Basta dar lá um salto, num qualquer dia da semana, ou espreitar agora mesmo pela janela de uma das salas do Oceanário para o comprovar. Pelos bancos e esplanadas sentam-se grupos e famílias, miúdos correm e brincam, pares de namorados passeiam à beira-rio, jovens (e menos jovens) passam de bicicleta ou correm para manter a forma. É a vida no seu curso normal, de gente que se cruza em passeio, ou nos seus afazeres, dos visitantes que vão chegando, ali ao Oceanário, mas também ao Pavilhão do Conhecimento, logo ao lado, ou aos outros espaços, o Pavilhão Multiusos, o centro comercial, os jardins, os restaurantes e os cafés.

Duas décadas depois desse acontecimento central que mudou a geografia da capital e lhe deu novo fôlego, esta é uma das suas zonas mais visitadas, e o Oceanário tem aí um peso especial. "Somos o segundo espaço pago mais visitado em Portugal, depois do Castelo de São Jorge, é quase um milhão e meio de pessoas por ano", afirma Tiago Pitta e Cunha, presidente da comissão executiva da Fundação Oceano Azul que desde março do ano passado tem a concessão do Oceanário para os próximos 30 anos.

Peça central da Expo 98, que foi dedicada ao tema "Os Oceanos, Um Património para o Futuro", o Oceanário cumpriu o lema, trouxe-o até hoje (o futuro de então) com os seus aquários e exposições, as suas ações educativas, científicas e de apoio à conservação da biodiversidade marinha em vários cantos do mundo. Já recebeu, na soma global, mais de 23 milhões de visitantes, e, de alguma forma, tornou-se em mais um elo essencial na longa cadeia que une esta cidade ao mar - "é um símbolo de Lisboa para o século XXI, tal como a Torre de Belém o foi no século XVI", resume Tiago Pitta e Cunha.

"Foi um tremendo sucesso, e poucas vezes Portugal se propôs cumprir um projeto que excedesse desta forma todas as expectativas, como aconteceu neste caso", diz Tiago Pitta e Cunha.

"Ao contrário de tantas infraestruturas em que se investiram milhões e que depois acabam por não ser utilizadas e se vão degradando, o Oceanário praticamente já foi pago duas vezes com as receitas que gerou, com os visitantes, mas também com a concessão, que duplicou a receita", adianta o presidente da comissão executiva da Fundação Oceano Azul.

Nos rankings internacionais isso já se traduziu em várias marcas. Nestas duas décadas, o Oceanário de Lisboa "esteve sempre entre os cinco melhores aquários do mundo e é há duas épocas consecutivas, o que significa quatro anos, é o primeiro de todos nas preferências dos visitantes, no TripAdvisor", conta Tiago Pitta e Cunha. Além de prémios e distinções, como o Prémio Internacional de Ciência Chiara na Europa, em 2005, ou a Medalha de Prata do Prémio de Mérito Turístico, em 2006, entre outros.

Por causa desse êxito, pelo polo de atração internacional que se tornou para a cidade, e pelo seu papel de difusor do conhecimento e da consciência ambiental em relação aos oceanos e à conservação da sua biodiversidade, Tiago Pitta e Cunha não tem dúvidas: "Houve a visão certa de como mostrar os oceanos, pensou-se em grande, o Oceanário ficou e está aqui, e com a concessão à fundação [Oceano Azul] tem também agora futuro."

Nesse futuro, formar as próximas gerações para o conhecimento mais profundo e holístico dos oceanos e para a sua importância fundamental no equilíbrio do planeta, da civilização humana e das nossas vidas, é um dos grandes objetivos da fundação e do Oceanário, já que a saúde dos mares está a atingir pontos críticos.

"Os cientistas andam a alertar-nos há já 50 anos para os problemas ambientais no meio marinho, com a perda de biodiversidade, a poluição pelas indústrias e pela agricultura que, através dos rios, vai toda desaguar no mar, os microplásticos, as alterações climáticas", enumera Tiago Pitta e Cunha. No entanto, apesar de todos os alertas, "em vez da inversão destas tendências, temos assistido ao seu agravamento, porque ainda não existe uma consciência real desta ameaça e de que é preciso agir para travar o problema".

É neste ponto que o projeto Literacia Azul, dirigido às crianças do primeiro ao quarto anos do ensino básico, que arranca já no próximo ano letivo (2018--2019) em Mafra, pretende intervir de forma duradoura. "Vamos começar por formar cerca de 300 professores do concelho de Mafra, englobando tópicos que vão da ciência do oceano ao direito marítimo, a sua geografia e importância na história das civilizações, o seu papel na geoestratégia, as ameaças e a sua preservação", explica o responsável da Fundação Azul. O programa será a seguir alargado a mais concelhos, e depois ao resto do país. E o Oceanário permanece a pedra central nesta estratégia.

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