Em Bruxelas "fiz o meu dever de português, ajudar o país e o governo"

Sobre a discussão do Orçamento em Bruxelas, o comissário europeu Carlos Moedas diz ter cumprido o seu papel: defender Portugal e o governo

A meio do almoço com Carlos Moedas, num dos vários restaurantes para funcionários na sede da Comissão Europeia, o prédio tem um ataque de nervos. O som do alarme não é excessivo, não é estridente, é uma interrupção educada, um parêntesis burocrático, não o convite urgente a deixar tudo para trás. Embora já batido nestas interrupções, o comissário português segue o manual de instruções. Pousa os talheres de peixe e pergunta ao empregado de mesa, com o à-vontade de quem pede água.

- É o normal ou temos de sair?

Vestido a rigor, o empregado parecia o árbitro de uma partida de ténis. Alto como um poste, abana a cabeça, como quem diz: confie em mim, senhor comissário, está tudo sob controlo. "É o alarme normal. É um drill", conclui Moedas. Pelo sim pelo não, reconfirma o diagnóstico com a mesa ao lado, onde três senhoras parecem divertidas. São altas funcionárias da União Europeia, estão habituadas ao ritual. Se o caso fosse grave, se houvesse perigo terrorista ou outra calamidade tão em voga, elas seriam as primeiras a reagir.

- Minhas senhoras, levantamo-nos... e vamos para onde? - pergunta Moedas, meio a brincar.

- Consigo, vamos para qualquer lugar - diz uma delas, sorriso largo. Obviamente já se conhecem.

"Como veem, já me fizeram corar..," suspira o comissário, procurando esconder-se no casaco cinzento. "Está a ver? Já me fizeram corar. Não tenho jeito nenhum para estas situações... femininas." O alarme, um bi-bi-bi-bi civilizado, cala-se de repente. A sala, pequena, retangular, pouco mais de dez mesas, volta à pacatez anterior.

A seguir aos atentados de 22 de março na capital belga, o treino sonoro tem-se repetido. Integrou a rotina. Mas seria errado deduzir que a cidade e em particular o Berlaymont - o nome do edifício - estão virados do avesso, em atmosfera de quase pânico, quase guerra. Não é o caso. A segurança, embora visível em pontos estratégicos de Bruxelas, e aqui também, não é asfixiante nem paranoica. Quem entra no edifício passa pelo inevitável detetor de metais. As malas, nem todas, são revistadas, basta uma olhadela rápida.

À porta, os funcionários europeus fumadores satisfazem o velho vício em grupos de dois ou três; os polícias, um par deles aqui e outros ali, não apressam ninguém. Mesmo quando passa o comissário Moscovici, um dos mais poderosos da tribo, não há salamaleques, não se abrem alas. O responsável pelas finanças da UE - responsável talvez seja exagerado - caminha em passo lento, barriga espetada, a anos-luz daquela imagem autoritária que exibe quando comenta as peripécias orçamentais portuguesas.

Carlos Moedas vive a 15 minutos daqui e continua a fazer a pé o caminho quando lhe apetece e o tempo deixa, não todos os dias, portanto, e só depois de deixar as filhas na carrinha que as leva ao colégio internacional. A chuva é o sol desta cidade, e os atentados um inconveniente, embora grave, um risco que é impossível contornar. Para Moedas, o maior obstáculo é quase prosaico: viajar. Com o aeroporto de Bruxelas ainda desconjuntado, a meio gás, ele serve-se do de Charleroi, a 80 quilómetros, mas tem de sofrer as agruras da multidão que se aperta para entrar e sair, tipo Rossio na Rua da Betesga.

A nossa conversa começara por aqui, pelas viagens, antes da interrupção forçada pelo alarme. O comissário escolhera este restaurante apenas pela falta de tempo, e porque assim poderia mostrar-me a sala onde acontece quase tudo de politicamente relevante da União Europeia - o espaço onde os 27 comissários e o presidente Juncker decidem ou fazem de conta que decidem, isto é, consensualizam, parte do destino de 510 milhões de pessoas.

O encontro estava marcado para as 12.45. Quando chego, à hora combinada, Moedas já se encontra à mesa, sem papéis ou mala, apenas o telemóvel, mantido no silêncio do princípio ao fim do almoço. A principal diferença que noto para os tempos em que ele era secretário de Estado de Passos Coelho é a barba rala que cultiva com perícia de jardineiro. Moedas continua a não se dar ares de importância, não exibe aquela gravitas que tanto atrai como condiciona ou até repele. Conheci-o há cinco anos, no auge do resgate português, anos de chumbo, e sempre partilhou alguma informação, embora de maneira calculada, nem uma palavra fora do lugar. A lealdade ao ex-primeiro-ministro era e é evidente. Não havia, nem há, como furá-la.

Portanto, as viagens. O comissário - tem a pasta da investigação, ciência e inovação - chegou a Bruxelas em novembro de 2014 e tornou-se logo uma espécie de caixeiro-viajante europeu. "A primeira visita que fiz foi à Lituânia. Já fiz vinte e tal Estados membros. Fui também à China, à África do Sul, onde fiz uma coisa muito interessante sobre o ébola, Estados Unidos, Jordânia, Israel, Chipre... bom, Chipre é Estado membro. Malta ainda não. Todas as semanas vou a um ou a dois lados, sempre em voo comercial. Só quando fomos a Portugal, com o presidente Juncker, é que apanhámos o táxi aéreo, não havia alternativa."

O menu é simples, a atirar para o básico. O prato do dia, uma espécie de bacalhau com natas pouco entusiasmante, para o comissário; e bife com batatas fritas (bem boas) para mim. Entrada para ambos: mozzarella regada a azeite, acompanhada por água (Moedas) e um copo de vinho francês (para mim). O anfitrião não bebe álcool, tem o fígado gordo, descobriu ao fazer análises. Aos 46 anos não se pode dizer que seja um hipocondríaco desesperado, mas para lá caminha. Estávamos nesta conversa mole quando disparou o alarme. A interrupção, embora breve, provocou a previsível guinada no assunto. Nova direção: segurança, terrorismo.

A mulher de Carlos Moedas, Céline Abecassis - francesa, sem ligações a Portugal; conheceram-se em Paris - , e as duas filhas e o filho mudaram-se para Bruxelas apenas em setembro do ano passado. Havia que acabar o ano escolar de 2013-2014 em Lisboa, no Liceu Charles Lepierre. "Chegaram aqui e levaram logo com isto em cima. O meu filho, quando está em casa, tranca a porta, dá duas voltas à chave." A filha de 15 anos, a mais velha, quer sair à noite, como em Lisboa, para os bares de Santos, mas aqui não pode, não dá. Foi preciso explicar-lhe tudo e relativizar, embora com o cuidado de não desvalorizar os acontecimentos. A família teve de adaptar-se depressa às novas circunstâncias, embora o processo ainda esteja em curso.

Adaptar-se, aliás, é a palavra-chave para todos. No dia do atentado em Bruxelas, a comissária Federica Mogherini, alta representante da UE para a Política Externa e a Segurança, chorou durante uma conferência de imprensa, na Jordânia. Moedas, que estava na cidade sob ataque, viu no gesto carácter, não fraqueza.

"Mandei-lhe um sms a dizer que tinha ficado emocionado ao vê-la na televisão. Achei que tinha sido muito genuína." Moedas consulta o telemóvel e passa-o. "Aqui está: "Federica, acabei de ver-te nas notícias. Quero dizer-te que me sinto muito honrado em ser teu colega. Se precisares de alguma coisa, estou aqui. Um abraço do Carlos." E ela respondeu: "Obrigada, Carlos. Volto esta noite. Vou tentar. Vemo-nos amanhã." Ela é fantástica."

Embora formal e às vezes rígido, Carlos Moedas é alentejano, liga-se facilmente às pessoas. Nasceu em Beja, em agosto de 1970, filho mais novo de José (Zé) Moedas, comunista, cofundador do Diário do Alentejo, e de Maria de Lurdes, educadora de infância. Moedas nunca foi do PCP. Passou a adolescência em Beja, aos 18 anos foi estudar Engenharia para o Técnico, em Lisboa, e já no fim da licenciatura a vida sofreu novo safanão, dos bons.

"Estava no quinto ano e descobri que havia uma coisa chamada Erasmus. Fui falar com um grande professor meu, de Hidráulica, o professor Quintela. Os meus outros professores começaram a resistir: "Vai para onde? Não faz Hidráulica 5 e Betão 3!?" Então, fui falar com o Quintela, que reuniu todos à volta da mesa e disse: "O Sr. Moedas vem de Beja, precisa de mundo. Portanto, vamos deixá-lo ir ver o mundo"."

O jovem alentejano candidatou-se ao Erasmus, uma novidade da época, e meses depois estava em Paris a fazer o último semestre na École Nationale des Ponts et Chaussées. "Até essa altura, eu nunca saíra de Portugal. Quer dizer, tinha ido a Espanha... e de repente, Paris!" A história é longa, os pratos desapareceram entretanto - sem deixar grande memória no paladar, mas sem ofender -, levados pelo discreto empregado, o homem invisível.

Moedas já tem à frente a salada de fruta com uma generosa bola de gelado de baunilha, o tempo aperta, o gelado derrete, mas como o assunto não é política partidária o comissário demora-se e saboreia os detalhes biográficos. "O meu apoio para fazer o Erasmus eram para aí cem euros por mês e os meus pais não tinham posses nenhumas, zero. Então eu contava os tostões. Quer dizer, gastava dois euros na cantina, mas depois às vezes ia tomar um café de dez euros ao Boulevard Saint-Germain. Na altura era em francos. Ah, que bem que aquilo me sabia. Comprava o Expresso ao pé da Sorbonne, numa livraria portuguesa, e foi aí que arranjei o meu primeiro emprego, através do jornal."

Eu tinha de apanhar o comboio de volta a Amesterdão, muito havia ali ainda para explorar. Por exemplo, a ida de Carlos Moedas para Harvard para fazer um MBA a conselho de Céline, hoje sua mulher. "Eu queria ir para o INSEAD; ela disse-me logo: vai mas é para a América, que não conheces, vai fazer-te muito bem." Por outras palavras, a história do professor Quintela repetiu-se: o agora engenheiro Moedas precisava ainda de ver o Novo Mundo e então lá foi ele, outra vez sem um tostão no bolso. No aeroporto tinha à espera uma representante da universidade e um funcionário de um banco. Tudo muito made in USA. Tome lá um empréstimo de cem mil dólares e faça-se aos livros. Assim foi. Dois anos de estudo, Goldman Sachs em Londres, Deutsche Bank (fusões e aquisições) para saldar as dívidas, e de volta a Lisboa. O resto é, digamos, história recente, PSD e etc.

Tínhamos de falar de política europeia, um pouco que fosse, podia dar um bom título. Eu queria saber como alguém que viu por dentro a complexa aprovação do Orçamento do Estado deste ano resumia as dificuldades sentidas por António Costa. Carlos Moedas, agora mais solto, lança-se num inesperado flashback. Quer dar contexto.

"Lembro-me de que com a troika havia alguns portugueses da Comissão Europeia [que se juntavam às negociações] e corria quase sempre mal. Eram mais exigentes, eram mais... se fosse preciso, batiam mais em Portugal. Uma vez, cheguei a uma reunião, já não me lembro com quem, em que havia um tipo da Comissão que depois foi dizer ao chefe [algo] do género: "O que eles estão a dizer é tudo mentira, eles não vão fazer nada, porque eu conheço, porque eu sou português.""

Não é propriamente uma surpresa, digo-lhe. O que fez o senhor comissário na discussão deste Orçamento, também disse para baterem mais? Moedas tem a resposta estudada, sabia que havíamos de chegar aqui.

"A reunião final demorou duas ou três horas. Falou o comissário alemão [usam todos o inglês ou o francês, menos o alemão e o austríaco, que se recusam] e eu a seguir para defender [o documento]. Tive sempre uma posição institucional: defender o país. Os outros comissários compreendem que estou numa posição delicada. Eu, que tinha vivido os anos de crise, sabia que era importante que o Orçamento passasse. Portanto, fiz o meu dever de português, o de ajudar Portugal, neste caso, o governo, não é? Agora, não escondo que foi difícil e que o ambiente foi agressivo. A maior parte dos países, seja de governos de esquerda ou de direita, está-se nas tintas. Apesar de aqui não ser por nacionalidade, a pessoa sente... sente a presença dos países."

Salon de Convivialité

2 mozzarella

1 tournedos

1 prato do dia

1 copo de vinho tinto

1 água

1 salada de fruta

1 laranja

2 cafés

Total: 73,60 euros

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João Gobern

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