O PSD do país real acha que o partido não virou à direita

Dentro do PSD, o problema esquerda/direita ou social-democracia/liberalismo não existe. É preciso é olhar para a frente

O PSD deve recentrar-se ou não? Voltar à social-democracia ou não? Para a maior parte dos dirigentes do partido ouvidos pelo DN, espalhados pelo país e muitos deles dirigindo vivências locais como presidentes de câmara, este é um falso problema. A divisão não é social-democracia/neoliberalismo; é entre passado e futuro.

Diz, por exemplo, o presidente da distrital de Coimbra, Maurício Marques: "Recentrar o PSD? É um falso problema. O PSD nunca deixou de ser partido profundamente social-democrata.. Tivemos que manter bases fortes para manter o Estado Social. Não fomos nós que pusemos em causa o Estado Social. Os que nos levaram para a bancarrota [PS] é que puseram em causa o Estado Social. Nós salvamos o Estado Social. Nunca mexemos nas pensões dos mais desfavorecidos."

Ou, acrescenta Carlos Peixoto, deputado e presidente do PSD da Guarda, sintetizando o tal problema passado/futuro: "O próximo líder do PSD deve abandonar o discurso do défice, esse discurso não convém nada ao PSD porque aí as coisas estão a correr bem. Não devemos ter um discurso exclusivamente e estritamente económico e financeiro", o que é preciso é "agarrar bandeiras que dividam a geringonça: a Segurança Social, a reforma do sistema político e eleitoral, a descentralização e a coesão territorial".

Para Rui Rocha, presidente do PSD de Leiria, há uma vantagem neste "fim de ciclo de Pedro Passos Coelho": ele "encerra uma narrativa que estava muito assente no que o partido fez em 2011-15", uma narrativa que as pessoas "já não têm apetência para ouvir". Portanto, tem de "haver uma nova agenda" e o partido tem de começar "a animar-se por dentro" para depois enfrentar os desafios externos: "Estamos num tempo novo e o PSD tem de olhar para a frente".

Dizer que o partido precisa de se "recentrar" - isto é: infletir da direita para o centro - é o que caracteriza a análise de sociais-democratas que há muitos são críticos da direção, como por exemplo José Pacheco Pereira, cujas críticas a Passos Coelho assentam na ideia de que o PSD governou sendo forte com os fracos e fraco com os fortes, num quadro, portanto, tipicamente liberal.

Essa geometria, que colocou o PSD claramente à direita, seria depois confirmada pelo efeito inovador da geringonça, em que pela primeira vez o PS conseguiu governar aliado à esquerda.

António Costa Pinto, politólogo, diz que Passos, de 2015 para cá, "não conseguiu alterar essa perceção". Não deu a volta, nomeadamente, à ideia de que a sua reforma para a Segurança Social passaria essencialmente por cortar 600 milhões em pensões.

Portanto, no futuro, "o PSD terá, inevitavelmente, de ter uma mensagem mais social - não pode dizer que vai cortar 600 milhões". Quanto aos candidatos, o único aparentemente garantido é Rui Rio e esse terá como tarefa principal desmentir a associação à "ideia de bloco central" - agora absolutamente rejeitada por todos os dirigentes distritais que o DN ouviu.

Tudo isto dito, sobra uma evidência, segundo Costa Pinto - e é a evidência de sempre e nada tem que ver com fraturas esquerda/direita ou social-democracia/neoliberalismo: "Se a conjuntura económica continuar boa, é difícil para o PSD vencer em 2019."

Dito de outra forma: o PSD até pode reinventar-se de agora para a frente, eleger um líder que vire a página, esquecer de vez o trauma que foi ter ganho as eleições em 2011 e a isso não ter correspondido a formação de um novo governo (trauma permanente nas palavras de Passos Coelho). Mas se os números continuarem a correr bem a Costa, com continuidade nas políticas de devolução de rendimentos (em 2018 será via IRS), muito dificilmente o PSD poderá aspirar a voltar ao poder (o que até poderá explicar os não avanços de Montenegro e Rangel).

E, ao mesmo tempo, há outro fator, que o politólogo António Costa Pinto assinala: o CDS. Nas autárquicas esteve do lado vencedor no Porto (onde o resultado do PSD foi humilhante) e Cristas foi melhor do que o PSD em Lisboa. "O PSD vai ter de lidar com crescimento à direita do CDS. Vai ter de se preocupar também com isso e fazer discursos que evitem perdas para o CDS."

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