O mistério do convento católico onde os maçons reúnem

Em Monsaraz, um caso exemplar de preservação, permanece sem solução o caso do Convento da Orada. Um espaço que começou por ser de frades e acabou de maçons.

E ao terceiro dia surge finalmente alguém, nesta jornada do DN pela zona raiana de Portugal, que não se queixa nem de desemprego nem de envelhecimento da população, abandono, desertificação, etc. Chama-se Fábio Cardoso, tem 25 anos, natural da terra ontem escolhida para mais um ponto de observação nesta reportagem: Reguengos de Monsaraz, distrito de Évora. "Desemprego? Não! Não há falta de trabalho. Há é falta de pessoas para trabalhar!"

Gerente do Xarez, um dos seis restaurantes de Monsaraz, queixa-se que não consegue ter funcionários nem pedindo-os no centro de emprego nem com anúncios colocados nos supermercados do concelho. "Gostam mais de estar no subsídio de desemprego!"

Mas o que acontece - acrescenta - é que a procura turística de Monsaraz aumenta cada vez mais. O Alqueva começou a funcionar em pleno no início do século XXI e criou grande lençóis de água na região. Fizeram-se praias, promoveu-se o turismo náutico - há até uma marina, em Portel, concelho vizinho de Reguengos. Resultado: "Monsaraz qualquer dia rebenta! Já não falta muito."

Na verdade, concede, o concelho é uma espécie de "falso interior". Sendo verdade que está a umas duas dezenas de quilómetros de Espanha, mais verdade é ainda que - basta olhar para o mapa - esta é a parte mais estreita do rectângulo lusitano. E as estradas são boas. Daqui a Lisboa, de carro, não passa mais de uma hora e meia.

Monsaraz é uma vila medieval acastelada no topo de uma colina que até meados do século XIX foi a sede do concelho. Agora é só uma das quatro freguesias do concelho com sede em Reguengos e há muito que a preservação do património se leva ali muito a sério. Porém, fora da muralha, permanece, enorme e solitária na paisagem, uma exceção.

Chama-se Convento da Orada e trata-se de um convento construído na metade do século XVIII para a Ordem dos Agostinhos Descalços. O mistério é: porque está encerrado e praticamente ao abandono?

A verdade é que, em 1988, o edifício foi comprado por uma então muito importante figura no PS, o arquiteto João Rosado Correia (1939-2002). Ministro do Equipamento Social no Governo do "Bloco Central (coligação PS+PSD, entre 1983 e 1983, e destacado maçom (de 1993 a 1996 foi grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, a principal obediência maçónica em Portugal), Rosado Correia, arquiteto, reabilitou, com ajudas públicas, o edifício, obra concluída na viragem do século. A propriedade passou para uma fundação da família - Fundação Convento da Orada.

Em Monsaraz, os da terra recordam que se realizavam por ali casamentos e batizados e que o número de quartos daria para quase duplicar a oferta hoteleira em Monsaraz. O que não dizem é que o espaço, em tempos habitado por frades, serviu também bastantes vezes para cerimónias maçónicas, nomeadamente iniciações de novos membros do Grande Oriente Lusitano.

Mas há mais de uma década que não cumpre a tarefa assinalada numa placa à porta: "fins turísticos e culturais". Toca-se à porta e ninguém responde. A degradação, evidente, parece estar ligada à escassez de fundos comunitários. Mas não só.

Para o abandono terá contribuído também o facto de o homem que sucedeu a João Rosado Correia como "cabeça" da família, o seu filho mais velho (de seis ao todo), também arquiteto e também influente maçom como o pai, ter sido preso em 2014, acusado de corrupção por adjudicações feitas enquanto diretor-geral de Infraestruturas no Ministério da Administração Interna. Neste momento decorre o julgamento.

No "site" da Fundação, o último relatório de contas publicado é relativo a 2012. Nos guias turísticos da zona, o convento é agora apenas referido como ponto de referência em observações astronómicas. Católicos, maçons e todos os outros ficam à porta. Quanto muito podem observar estrelas.

Exclusivos