O "lar" encerrado que agora é família de acolhimento

Em 2012, casal já tomava conta de idosos, mas foi considerado lar ilegal. GNR deteve-os após encontrar armas. Agora estão legalizados

A vida de Edite e Jacinto foi virada do avesso no verão de 2012, quando um aparato de guardas da GNR, tribunal e segurança social lhes bateu à porta da casa onde tomavam conta de quatro idosos. As notícias anunciaram o encerramento de um Lar ilegal, na aldeia de Castelo, Vila Cã (Pombal), onde haveriam de ser encontradas 15 armas, munições e cartuchos. O casal foi detido e mais tarde julgado e condenado. "Isto nunca foi um Lar. Mas os jornais e as televisões chamaram-lhe assim", conta ao DN Edite Rodrigues, sentada na sala da moradia onde hoje toma conta de três idosas, enquanto família de acolhimento devidamente legalizada e acompanhada pela Segurança Social de Leiria. Na verdade, Edite fora notificada para regularizar a situação atempadamente. "Mas no dia em que veio cá a senhora da Segurança Social eu estava para ir a uma consulta e disse-lhe que não a podia atender naquele momento. Foi o meu azar". À época, nenhuma das idosas manifestou qualquer indício de maus-tratos. Pelo contrário. "A filha de uma das idosas contou que eram bem tratadas e choraram muito quando saíram" - pode ler-se na notícia do CM publicada a 25/07/2012. O caso deixou marcas profundas na família, até hoje. "Os meus filhos eram muito pequenos, viram os guardas entrar por aqui e virar a minha casa toda de pantanas".

Jacinto sempre fora caçador e colecionava armas, várias de herança, sobretudo para decoração.

Edite nasceu numa aldeia perto do Castelo, onde haveria de construir a vivenda, quando casou, em 1995. Conta ao DN que sempre gostou de tomar conta dos mais velhos, desde muito nova, quando um tio idoso e sem filhos ficou aos cuidados da família. Criava pintos e trabalhava no campo, até que, quando o marido regressou de uma temporada emigrado, decidiu fazer daquela a sua ocupação.

Depois do processo, e apoiado pelas técnicas da Segurança Social, o casal legalizou a atividade. Atualmente acolhe três idosas, na casa dos 80 anos, de mobilidade reduzida. É o caso de Maria do Carmo Leitão, 82, antiga auxiliar de ação educativa, solteira e sem filhos. "Quando saí do hospital o meu irmão já tinha arranjado esta casa da D. Edite. Nunca tive muita sorte na vida mas acabei por ter. Ela não me podia tratar melhor", disse ao DN. Cada uma das idosas tem um quarto individual. Edite trabalha sozinha - contando apenas com a ajuda do marido e dos filhos, quando estão em casa. E alguma vez teve formação para lidar com idosos? "Não, mas tenho pena. Gostava muito de fazer, mas nunca posso sair daqui. Nunca tenho um domingo, um feriado, não posso sair para ir a uma festa, estou sempre aqui. Mas gosto do que faço".

Cada uma das idosas paga 500 euros por mês pelo acolhimento, além das despesas de saúde. Na freguesia de Vila Cã - onde a população idosa rondará os 60 % - há pelo menos outra família de acolhimento registada, apesar de alguns populares garantirem que "são como cogumelos". "Os lares são poucos e caros, as pessoas têm de ir para algum lado", disse ao DN a colaboradora de um lar da região, que pediu o anonimato. A presidente da junta de freguesia, Ana Tenente, considera que as famílias de acolhimento como aquela - que conhece - prestam um importante serviço social à comunidade.

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