Novo partido à direita? Liberal ou populista? A chave pode estar no PSD

Nuno Garoupa vê a possibilidade de um novo partido nascer de uma viragem do PSD ao centro. Mas há quem considere improvável, como Marques Mendes e António Costa Pinto.

Só à esquerda, com o BE, é que o sistema político viu nascer mais um partido com sucesso eleitoral, enquanto à direita PSD e CDS têm reinado ao longo da democracia, sem concorrentes à altura. Mas haverá espaço para o nascimento de mais um partido neste quadrante político? Um partido liberal? Ou até mais populista?

"A direita tem estado em crise desde que Cavaco Silva saiu do governo e desde que o PSD foi governo e teve em mãos programas restritivos de cortes", afirma Nuno Garoupa. O professor universitário lembra que foi a partir da crise no PS, e de haver muitos descontentes, que nasceu o Bloco de Esquerda. A mesma possibilidade vê na crise à direita. Só que, não é óbvio que "isso signifique um partido liberal ou algo parecido ao Partido Renovador Democrático (PRD - de 1985 até à década dos anos 90), mas pode ser algo mais ao centro", afirma Nuno Garoupa

Na opinião do professor, o aparecimento de uma nova força depende da evolução do PSD. "Se o PSD girar ao centro, com uma liderança tipo Rui Rio, acredito que o passismo acabe por criar um partido liberal, mesmo que não envolva Pedro Passos Coelho". Nuno Garoupa afirma que a partir das eleições autárquicas em outubro ou os críticos a Passos se assumem ou ficarão comprometidos com os resultados eleitorais do partido. E será esta a altura em que o PSD poderá começar a fervilhar e a gerar até outros movimentos externos.

O antigo líder do PSD Marques Mendes considera "legítimo e possível criar um novo partido, seja ele mais ou menos liberal ou mais ou menos populista" e recorda que já houve várias tentativas no passado. Mas o também conselheiro de Estado diz ter as "maiores dúvidas quanto às condições de sucesso de um novo partido dessa natureza nos próximos tempos, leia-se um partido com condições de sucesso político e eleitoral". Para Marques Mendes o nosso sistema eleitoral tem muitos defeitos, mas tem uma característica marcante: "É muito estável e ainda vai ser durante muitos anos."

O antigo líder social-democrata reforça que "uma coisa é a desilusão que possa existir com os partidos tradicionais, designadamente no espaço do centro-direita, outra coisa bem diferente é o surgimento com sucesso político de novos partidos". Visão diversa tem Nuno Garoupa. Para o professor universitário "o grande mistério" é qual o motivo porque na crise de 2011 e depois em 2015 não surgiu um partido mais à direita, que captasse os votos dos descontentes, dos que não votaram PS nem PSD.

Mas talvez a explicação esteja no facto, diz, de os partidos que nascem da sociedade civil, sem centros de poder, sem penetração na comunicação social, não vingarem. "Sem uma máquina é difícil um projeto político existir", diz.

Faltará também uma figura que seja o protagonista de uma nova força política. Nuno Garoupa dá o exemplo da Câmara do Porto, onde o independente Rui Moreira "não decidiu se quer ter um projeto político nacional ou não".

Para o politólogo António Costa Pinto no centro direita, "o espaço de um projeto político liberal está já ocupado por Pedro Passos Coelho, que, mesmo na oposição, tem mantido "coerência no discurso". E não vê grande capacidade do sistema absorver um novo partido no mesmo espaço político. Sublinha ainda que a maior parte dos partidos populistas à direita não têm como programa o liberalismo.

Apesar das incógnitas e das reticências, a verdade é que há um eleitorado potencial, que se expressa nas redes sociais, e que não se revê no PSD nem no CDS. Se há quem seja capaz de os congregar em torno de uma nova força política é a questão.

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