No Tejo sobrevive-se da pesca. "Têm de proibir quem está a poluir"

Deputados comunistas foram ver o que se passa com a poluição no rio. "Deviam ter vindo mais cedo", gritou pescador.

A quase 150 quilómetros da costa, aquele pequeno barco diz-se Lobo do Mar. O seu mestre, Francisco São Pedro, o Chico que é de boa terra, vai gritando ao vento que os políticos e os jornalistas chegam tarde a este pedaço deslumbrante do Tejo, nas portas de Ródão, paredes escarpadas que descem ao rio e não adivinham como vão doentes aquelas águas. "Deviam ter vindo mais cedo."

Ao mau cheiro da celulose de Vila Velha de Ródão dizem que nos habituaremos. Não é verdade - entranha-se nas narinas, zoa na cabeça. O rio também não mostra o que mostrou em janeiro e fez, finalmente, soar alarmes. "Ando nesta luta há três anos", diz o pescador de lagostins que só puxa das gaiolas lagostins mortos ou quase.

Francisco São Pedro pede que não chova. "Deus queira que não venha água", aponta o céu, já com os pés em terra. Para se ver como o rio vai doente. À mesma hora, em Lisboa, o ministro do Ambiente anunciava resultados sobre as análises feitas ao Tejo. O pescador não precisa de saber, para ele o culpado está lá em cima a fumegar nas chaminés da celulose Celtejo. "Eles", argumenta perante o líder parlamentar do PCP, João Oliveira, "têm de proibir quem está a poluir e não quem está a sobreviver".

Os deputados comunistas estão em Portalegre (desde ontem e até hoje) para discutir o desenvolvimento e o investimento público. Na tarde de ontem, uma comitiva comunista e de jornalistas foi ver o que se passa no rio Tejo, onde descargas poluentes (cuja origem ainda não está identificada) provocaram um manto branco de espuma. "A 13 de janeiro, a água era preta, café", conta Chico do Lobo do Mar.

Fernando Inácio, dono de um restaurante em Arneiro, freguesia próxima, explica a João Oliveira aquilo que todos sabem. "A gente sabe que há descargas, agora ou eram menos ou havia mais água", diz, ensaiando uma explicação sobre o que se passa no rio. Na casa de restauração serve uma sopa de peixe que muitos procuram. Agora perguntam-lhe pela poluição. "O meu peixe já não vem do Tejo há uns anos, mas já pescámos muito no rio."

Para Fernando Inácio, "tem que haver equilíbrio": "O Tejo, os vizinhos do Tejo, os trabalhadores das fábricas, a ver se conseguimos normalizar as coisas como era aqui atrasado." Como diz Vasco Fernandes, que guia pelo rio a comitiva comunista. "As pessoas acabam por ser muito tolerantes porque isto não é Lisboa. É preciso aqueles empregos." E também o mestre da embarcação repete a palavra "equilíbrio". O líder parlamentar comunista ensaia uma resposta política sem se saber ainda o que dirá o governo. "Mais do que punir, deve prevenir-se a poluição."

O homem que se revolta a falar disto tem outra leitura. "Fechem aquela merda. Queremos o rio limpo, mataram o nosso rio. Daqui ao Fratel está tudo morto." "Há pessoas que sobrevivem à pesca", foge a boca para o verbo certo a Rui Sequeira, militante comunista que acompanha a viagem. João Oliveira terá pouco mais do que palavras de ânimo para Francisco São Pedro. "É preciso manter a luta, não é nada que esteja perdido."

A mesma luta para que os trabalhadores foram convocados ontem pelo secretário-geral do PCP. Jerónimo de Sousa apresentou duros cadernos de encargos no campo das leis laborais e do investimento público ao Governo. O PCP quer ir mais além do que a reversão das alterações às leis laborais introduzidas pelo governo anterior. "É necessário apontar para a eliminação das normas gravosas do Código do Trabalho", avisou, na abertura das jornadas parlamentares.

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