"No Carnaval tenho mais saudades do Brasil do que no Natal"

A folia carnavalesca chega este fim de semana a todo o país. Um grande número de festas é inspirado nos ritmos do outro lado do Atlântico. O DN foi ao encontro de alguns brasileiros que vivem em Portugal, mas não se conseguiram separar do seu Carnaval e nem o frio os intimida. Para quase todos foi com surpresa que descobriram as tradições sambistas do nosso Carnaval. Em Lisboa, comunidade começa a criar tradições, como os blocos que saem à rua

Quando eu não puder pisar mais na avenida/ Quando as minhas pernas não puderem aguentar/ Levar meu corpo, junto com meu samba. Este é o lema de Karina Pereira de Souza. Nasceu no Brasil, está em Portugal há quase 15 anos, mas a sua pátria é o samba. E ela não vai o deixar morrer, como diz a canção. Há quatro anos, foi atropelada dois dias antes do Carnaval quando ia desfilar em Estarreja, ficou um ano "de perna estendida" e ainda hoje não dobra o tornozelo, mas desde o primeiro dia só tinha um objetivo: "Voltar a sambar." "Ainda fui fazer um concurso, cheia de dores, mas não dei parte fraca. Calcei o salto e lá fui fazendo cara forte. Fiquei em terceiro lugar", conta orgulhosa. No ano passado, foi rainha da bateria da Escola Kan-Kans de Ovar, este ano vai "na comissão de frente", e sonha com o dia em que vai voltar a sambar no Brasil. Convites não faltam.

Veio para Portugal, com o filho mais velho, ainda criança (tinha 5 anos), à procura de uma vida melhor, tal como a maioria dos 85 mil brasileiros residentes permanentes em Portugal (a maior comunidade de imigrantes). Chegou ao Porto e trabalhou durante anos numa fábrica de torneiras e como bailarina na Quinta da Malafaia, em Esposende, mas depois tornou-se impossível conciliar os dois empregos e nesse braço de ferro foi a dança que perdeu.

Pelo meio, conheceu o marido, mudou-se para Oliveira de Azeméis, e foi mãe novamente, de outro rapaz, agora com dez anos. "O meu marido sabendo que eu adoro palco é que me inscreveu num concurso em Ovar. Apareci de plumas, mas não fui muito bem recebida, há sempre alguma rivalidade."

Foi aí que começou a participar no Carnaval português, ao som dos ritmos brasileiros. Já passou por várias escolas de samba da cidade e de Estarreja e agora está, pelo segundo ano, na Kan-Kans. É ela que prepara as suas fantasias. Este ano, Karina vai desfilar como Iemanjá, "metade mulher e metade sereia, mas não muito sexy, porque é um orixá", antecipa.

Até pode estar a preparar - com a ajuda do marido que, trabalha com moldes, e "é nota 10" - uma fantasia mais "recatada", mas haverá sempre um elemento que vai surpreender: "No Carnaval é para aparecer!" Com o samba no pé desde criança - "passava a vida nas escolas de samba e a minha mãe tinha que me ir buscar pelos cabelos" -, a paulistana, de 38 anos, que quer morrer em Portugal, não tem dúvidas de qual é a festa que a faz ter saudades da sua terra. "No Carnaval choro mais com saudades do Brasil, do que no Natal."

Mas com o samba em Portugal, já não sente necessidade de voltar ao Brasil. "Graças a Deus que tem samba", e nem o frio é um entrave. "Não tem tempo ruim para mim. Dois copos de whisky e já não há frio", brinca. Karina até pode não sentir frio, mas para ela o verdadeiro Carnaval é em julho, em Sesimbra, no encontro europeu de samba. "Ah, parece o meu Brasil, sol, calor, praia e samba." Mas o samba não é só dançar, é também religião e é preciso saber a história. Em São Paulo, Karina vivia o samba "o ano inteiro", não apenas nos três dias de Carnaval.

Parte da história tem a ver com a influência portuguesa no Carnaval brasileiro, que séculos mais tarde exportou o samba para Portugal. Trazido pelos portugueses que regressaram, pelas telenovelas e pelos imigrantes canarinhos (ver entrevista).

Karina aproveita todos os momentos para viver a folia carnavalesca e vai aprendendo também a história dos nossos carnavais canarinhos. Já foi convidada para ir ao Brasil - onde não vai há dez anos - para ser musa da São Clemente, do Rio de Janeiro. "Vou trabalhar para ir lá. Sei o que é preciso: foco, força e fé." Cá, um dos momentos altos, foi no Coliseu de Lisboa (em novembro de 2016) com Zeca Pagodinho a celebrar os 100 anos do samba. "Ai eu estava que não me aguentava. Tirei foto com o Zeca e mandava para o meu marido, que já me dizia a brincar "você está a abusar"."

A grande paixão de Karina - que trabalha agora numa fábrica de moldes de plástico - não é, no entanto, partilhada pelos filhos. "Só o meu marido vem me ver." O filho mais velho vive no Porto com a namorada e apesar de gostar de ver a mãe sambar, não entra na festa - "nem sotaque do Brasil ele tem" - e este ano, o mais novo também não vai estar na rua a ver a mãe desfilar.

Os seus olhos brilham quando fala do samba, no meio dos preparativos para o desfile deste ano, na aldeia do Carnaval em Ovar. Há alegria nas suas palavras e Karina parece ter encontrado o equilíbrio entre a vida em Portugal e o seu gosto por este ritmo, mas não esconde que teve de ultrapassar o preconceito. "Tive muitas vezes o SEF [Serviço de Estrangeiros e Fronteiras] à porta de casa, quando casei", lamenta. Afinal chegou a Portugal em 2003 e depois mudou-se para uma terra pequena, quando "a capa da Time com as meninas" ainda estava fresca na memória dos locais.

"Tive o meu filho com 18 anos e vim embora para procurar uma vida melhor em Portugal. O meu filho adora Portugal e também já não quer voltar. Mas na vida é como eu digo ao meu filho: "nem tudo é bacalhau e nem tudo é caipirinha"."

Karina não pensa voltar a viver no Brasil: "Foi aqui que tirei a minha carta de condução e comprei a minha casinha. Já só volto ao Brasil para passear." Aos seus dois rapazes só impôs uma regra, que "saibam o hino dos dois países", porque a mãe tem duas pátrias.

Aprender a sambar em Portugal

Tem 18 anos, o "Zuca" da Corvo de Prata, da Quinta do Conde, a mais jovem escola de samba do Carnaval de Sesimbra. Thiago Borges chegou a Portugal há três anos, vindo da terra do Trio Elétrico e do Axé, do samba apenas sabia o que, às vezes, via na Globo. Ou seja, os desfiles no sambódromo, que os portugueses tão bem conhecem.

Veio viver com a mãe e estudar - está a fazer o curso de serralheiro mecânico no Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) - e como ela é amiga do "presidente da escola e da mulher dele" e a primeira pessoa que ele conheceu foi o filho do presidente que também está na escola, Thiago lá foi conhecer a Corvo de Prata. Está na bateria, ou seja, uma espécie de orquestra de instrumentos de precursão e toca surdo de terceira, mas sabe tocar muitos outros instrumentos.

"Sei sambar e também toco tudo o que vem da minha terra", garante. Até porque, em Palmas (Tocantins, no norte), Thiago estudava música e aprendeu a tocar baixo, bateria e guitarra. Mudou-se para os ritmos do samba e imagina-se a ficar por eles "durante muito tempo".

Não esconde que se sente mais próximo de casa junto dos ritmos carnavalescos de Sesimbra. "Quando a gente vem de uma realidade diferente, lidamos com aquilo todos os dias, mas aqui as culturas são outras e acabo por me sentir mais perto das minhas origens, aqui." Uma realidade que o jovem não pensava vir a viver. Em casa, ia para a rua "de propósito" para não ver os desfiles das escolas no Sambódromo, pela televisão. "Lá passam sete ou oito trios elétricos com grupos de Axé e nós vamos atrás, na folia."

Ainda assim, reconhece a ironia deter sido "preciso vir para cá, para aprender a sambar". Conta que se enturmou rapidamente na escola de samba do bairro. "Aprendi muito rápido, no segundo ensaio já fazia as batidas. Fui ver vídeos ao YouTube e ensaiava em casa". Três anos depois, Thiago é o responsável por afinar os surdos e outros instrumentos de precursão.

À semelhança de outros brasileiros, também o estudante confessa que o que mais o espantou nesta tradição portuguesa foi a coragem de sambar em fevereiro, num hemisfério em que as temperaturas não são simpáticas nesta altura do ano. "Faz um pouco de confusão. Para nós o Carnaval tem de ser no verão. Mas aqui já não tenho frio. Eu sei que parece que estamos todos com frio, mas depois a gente aquece na avenida", garante. E não se pense que o músico diz isto porque como vai na banda está mais vestido. Nada disso, os fatos são tão ou mais parcos em tecido que os das meninas sambistas.

O truque, é começar a festa na noite anterior - o grupo costuma alugar um apartamento em Sesimbra, perto do desfile - e muitas vezes a paragem em casa é só para vestir as fantasias. "Só há nervos na avenida antes de começar, depois é só olhar para a frente e concentrar que aquilo corre bem."

Thiago imagina-se a participar na festa mais anos, mas não muito. É que quer ficar na Europa, mas encontrar trabalho fora de Portugal. "No Brasil, só gostava de ter casa de férias, mas quero trabalhar fora de Portugal. Na Europa tem-se uma vida boa. A realidade no Brasil é outra, muito diferente", descreve. Além da mãe, Thiago tem o irmão mais velho em Portugal.

Do relvado ao passo miudinho

Antes da grande apresentação nas ruas da Mealhada, Renato e Adriana ensaiaram centenas de horas a coreografia de porta-bandeira e mestre-sala. Amanhã e terça-feira vão desfilar durante 90 minutos (em cada apresentação) e, por isso, nada pode falhar. A juntar a isso, contam com uma pressão suplementar: a Sócios da Mangueira é heptacampeã (sete vezes) do Carnaval da Mealhada. Este ano, outra competição também está a aquecer os ânimos. Renato e Adriana e o restante grupo estão entre os nomeados para a primeira edição dos Globos do Samba, cuja final está marcada para 24 de fevereiro, em Estarreja.

Sabão, como é conhecido na Mealhada, trabalha na Churrasqueira Rocha, mas não foi para isso que chegou ao nosso país. De São Paulo, veio com um amigo, para jogar futebol no Cucujães. Estávamos no ano de 1998, no ano seguinte, Renato voltava ao Brasil, mas acabou por terminar a carreira de central. "O meu amigo estava na Mealhada e decidi voltar a Portugal e vir ter com ele."

Na noite da passagem do milénio, Renato e o amigo estavam num bar quando começaram a ouvir samba. Era a música das escolas. "Nunca imaginava que havia samba na Mealhada, ouvimos e nos sentimos em casa. Viemos ver as escolas e já não saí".

Este fim de semana e até terça-feira vai estar na rua a sambar ao som de Criei asas, voei, o samba-enredo deste ano, que toca ininterruptamente durante o ensaio. Com uma coreografia feita por si e pelo seu par. Antes disso, preparou-se para a grande apresentação, emagrecendo cinco quilos. "Tenho que estar em forma no Carnaval."

Aos 39 anos, sempre foi um apaixonado pelo samba - "no Brasil ainda estamos de fralda e já estamos no meio da bagunça" -, mas nunca desfilou no Carnaval em São Paulo, por causa "do futebol".

Mestre-sala desde 2012, começou na bateria e depois passou pela comissão de frente. Agora é uma das caras da escola e mais do que isso, usa o samba para "esquecer um pouco a saudade". Do outro lado do Atlântico, a família começou "por achar um pouco estranho" a sua participação numa escola de samba em terras lusas, mas "ficaram super contentes porque é uma coisa que adoro e que me faz bem".

Renato tem a noção de que o nosso Carnaval é à escala do país, o que não significa que na folia se note a diferença: "Na grandeza não dá para comparar, mas no samba e alegria é a mesma coisa." Acrescentando que se nota bem a alegria do samba que também corre no sangue portuga.

Além disso, a festa por cá, apesar do frio - "às vezes dá dó que as miúdas têm que andar despidas e estão a bater o dente quando estamos à espera para começar a dançar e depois olhar para as pessoas encolhidas e cheias de casacos ainda dá mais frio" -, "está no bom caminho, com a presença já de muitos artistas do samba".

O ex-futebolista quer manter esta ligação às suas raízes, mas voltar para o Brasil está fora de questão. "Tinha três anos de Portugal e já não queria voltar. É para morrer em Portugal." É fã da cultura e segurança portuguesa. Nunca teve problemas de integração e elogia que "quando confia, o português confia de coração, não tem falsidade". "A paz que encontrei em Portugal, os milhares de amigos e viver num país lindo é o que me faz permanecer aqui."

Correr todos os carnavais

Para os brasileiros que chegam à capital, a Casa do Brasil em Lisboa é um dos primeiros pontos procurados para celebrar as festividades nativas. O Carnaval não é exceção e este espaço começou por organizar uma festa que ocupava parte da rua, junto ao Miradouro São Pedro de Alcântara.

Hoje, a festa mantêm-se, mas a sede da associação mudou de sítio e agora os festejos estão circunscritos ao salão de baile, no coração do Bairro Alto. Porém, "desde há uns cinco anos, com a chegada de mais jovens e de imigrantes vindos de todos os estados brasileiros, começaram a criar-se blocos [grupos que saem à rua mascarados para celebrar o Carnaval] e a festa vai-se mais por vários pontos da cidade", explica Rita Alho, vice-presidente da Casa do Brasil.

Estas festas trouxeram o Carnaval típico brasileiro para as ruas de Lisboa. "Um desses blocos, o Columbina Clandestina, junta-se em Alfama e o objetivo é que as pessoas não fiquem só a ver, mas que entrem no desfile e na festa", acrescenta Lina Moscoso, diretora de eventos da Casa do Brasil. Ela própria brasileira, apaixonada pela folia, e que tem foi conhecendo várias festas dos dois lados do Atlântico. "Este ano o doutoramento atrasou-se e já não vou poder ir conhecer o Carnaval do Recife - o maior Carnaval de rua do Brasil -, mas em 2019 estou lá", garante a jornalista e especialista em cultura contemporânea.

Natural do nordeste, era frequentadora da festa de São Salvador da Bahia, onde a atração principal são os trios elétricos. Depois as festas do Rio de Janeiro e de São Paulo, "são mais as escolas de samba". Mas no Rio, o que Lina prefere "são os blocos de rua". Está há quatro anos em Lisboa e desde então nunca mais viveu o Carnaval no verão. No ano passado, "juntei uma turma, um coletivo político que é o Andorinha, e fomos a todas as festas da cidade e este ano vai ser o mesmo". "Tenho gostado bastante do Carnaval de Lisboa", acrescenta.

Na associação a festa está marcada para amanhã, a partir das 20.00. "Só há dois momentos de mobilização da comunidade: é o Carnaval e a Copa do Mundo", brinca Rita Alho. Para o Tupinambloco de Carnaval foram convidados os DJs Caio Azevedo e Diogo Fonseca. Juntam-se a eles o bloco Baque do Tejo. Lina, que não desfila de sambista, defende que "no ano passado não foi muito frio, não", para justificar a folia de rua em pleno inverno. "No Brasil, está um calor insuportável. É bem pior que o frio."

A Casa do Brasil já foi convidada para participar no Carnaval de Lisboa, em 2014, no desfile levaram o grupo Maracatu Baque do Tejo "e todo o folclore do Brasil". Rita lembra-se "do choque de ver as pessoas paradas e o grupo a animar e a puxar para a festa".

Quando os portugueses chegam à Casa do Brasil à procura de desfiles e de aulas de dança, o destino é sempre o mesmo. "Acabamos por reencaminhar para Sesimbra, que tem escolas de samba e desfiles", acrescenta a responsável. Muitos dos portugueses que querem aprender a sambar vão participar no Carnaval do Rio ou de São Paulo.

Ler mais

Exclusivos