No bastião centrista, presidente do CDS combate ex-líder CDS

Na terra das papas de sarrabulho e do vinho verde, Vítor Mendes, atual presidente da câmara quer ganhar o terceiro mandato e tem o apoio de Assunção Cristas. Abel Batista, ex-dirigente da distrital centrista, rompeu com a líder e avançou para uma candidatura independente.

A única câmara do país desde sempre liderada pelo CDS, Ponte de Lima, tem pela primeira vez no combate autárquico dois protagonistas da família centrista. Vítor Mendes, atual presidente, sucessor de Daniel Campelo (o famoso deputado do orçamento "limiano"), e Abel Batista, ex-deputado e ex-líder da distrital, que avança como independente e com apoio do PS. O incómodo é inevitável na direção centrista.

Numa recente entrevista ao DN, o presidente da bancada parlamentar, Nuno Magalhães, não escondia o desconforto, quando questionado sobre esta rutura no histórico bastão do CDS. "Essa é uma pergunta muito difícil. Sabe porquê? Porque eu sou muito amigo do Abel Baptista, gosto muito do Abel Baptista, portanto é muito difícil responder e reconheço que vou fugir à questão. Digo apenas o seguinte: tenho muita pena que não tenha sido possível - e eu sei que foi tentado tudo pela presidente do partido - chegar a um acordo com o Abel Baptista". No entanto, não hesita em desejar a vitória a Vítor Mendes, o candidato oficial do partido.

Mendes, engenheiro agrónomo de formação tal como Campelo, assegurou 64,2 por cento dos votos expressos em 2009, mas nas últimas eleições desceu para 54,3%, mantendo ainda a tradicional maioria absoluta dos centristas em Ponte de Lima. Não revela agora qualquer receio em relação ao peso político do seu adversário, Abel Baptista e exibe o apoio da presidente do partido, Assunção Cristas, com quem conta para a campanha "apesar de, como se sabe, ter a sua própria campanha em Lisboa".

Vítor Mendes sublinha que "estabilidade e confiança" é o seu lema. "Sempre tivemos grandes autarcas do CDS desde o 25 de Abril. A estabilidade financeira e a nossa estratégia de desenvolvimento dão origem à confiança que os limianos têm em nós e saberão escolher o melhor. É esse o espírito", assinala, refutando comentar a "rutura" na família centrista.

Exibe, "com orgulho e consciência tranquila" o trabalho que a sua equipa desenvolveu desde 2009, quando assumiu pela primeira vez a presidência da câmara. Elenca "cinco pilares fundamentais: a educação e a valorização profissional dos limianos, que contou com a requalificação do parque escolar e o reforço de programas pedagógicos para combate o insucesso e o abandono escolar; o apoio ao empreendedorismo, que resultou na criação de mais de 200 empresas e 2500 postos de trabalho e tem dos "melhores incentivos do país", desde isenção de impostos e outras taxas"; a promoção do património cultural, rural e gastronómico; a área social, com várias parcerias como IPSS; e a indústria, com a exploração e transformação do granito em novas pedreiras que empregam mais de 600 pessoas.

Vítor Mendes avança que, no próximo mandato, caso seja reeleito, será "a educação, com a sua valorização e formação" a sua prioridade. "Terminámos, no meu entender, o ciclo de investimentos em infraestruturas e físicas. A partir de agora temos de apostar no ensino e no sucesso educativo dos jovens alunos. A competitividade depende sempre da qualidade dos recursos humanos", justifica.

Abel Baptista, o homem das bases centristas minhotas, quer mais ação em Ponte de Lima. "O concelho estagnou nos últimos anos de governação de Vítor Mendes. Não houve uma estratégia integrada de desenvolvimento e pouco mais se fez do que umas estradas de alcatrão e praças. Não se investiu nas zonas industriais, não de promoveu a criação de emprego, não se requalificaram espaços e nada se fez para inverter o défice de qualificação educativo, que coloca Ponte de Lima com apenas 7% de licenciados, muito abaixo da média nacional e europeia".

Assume o corte com a direção do CDS "de meninos e meninas de Lisboa e Cascais, que perderam o contacto com a realidade o país". Com Paulo Portas, lembra, "diziam que era um partido de um homem só, agora é o partido de um grupinho fechado que não ouve ninguém e corre o risco de perder a sua base territorial". Acusa Vítor Mendes de ter "fechado" o CDS local "afastando-o" dos cidadãos. Está convencido que o apoio do PS, num concelho dominado desde sempre pelos centristas, não será uma desvantagem. "Antes de ser democrata-cristão, sou limiano, as pessoas conhecem-me muito bem. O movimento que lidero é independente com pessoas originárias de vários partidos". Nas últimas eleições autárquicas, em 2013, o PS não passou dos 9,3%, atrás do PSD, que alcançou 15,8%.

O presidente da Federação Distrital do PS, Miguel Alves, referiu que no acordo estabelecido com aquela candidatura de "cidadania, ninguém abdica da sua identidade".

"Pela primeira vez em muitos anos, em Ponte de Lima há alternativa ao poder instituído. Podemos falar em eleições, na verdadeira aceção da palavra", referiu o líder do PS, que é também presidente da Câmara de Caminha.

Os sociais-democratas desafiam Vítor Mendes e Abel Baptista com Manuel Barros, técnico superior na Escola Agrária de Ponte de Lima. No dia da apresentação da sua candidatura lamentou que, enquanto vereador, sem funções atribuídas, as "várias propostas" que levou ao executivo tivessem "colidido com um muro de intransigência".

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