Newborn: não nasceu agora, mas é uma moda que veio para ficar

Sessões fotográficas de recém-nascidos chegaram a Portugal há poucos anos, mas pais já não lhes resistem, apesar do custo

"Não me canso de pegar no álbum. Eles mudam tanto e estas fotografias ficam uma coisa sublime". Depois de não ter consigo agendar uma sessão de fotografia newborn com o seu primeiro filho, de quase três anos, Ivone Amaral não perdeu tempo para assegurar imagens únicas de Leonor, agora com quatro meses. A sessão, agendada "no mesmo dia em que marquei a primeira consulta no obstetra", foi realizada quando a bebé tinha dez dias de vida. Uma forma de "guardar aqueles dias loucos do primeiro mês que passam muito depressa e nós nem nos apercebemos".

Rendida à moda das fotografias dos recém-nascidos (newborn, em inglês, como é conhecido este trabalho), Ivone já decidiu que este será o seu presente para uma amiga que está grávida. As fotografias dos bebés entre os oito e dos 12 dias de vida são cada vez mais comuns entre os pais portugueses.

A moda não nasceu agora - em Portugal tem cerca de "cinco anos", dizem as fotógrafas - mas está a afirmar-se a cada dia que passa. Tanto, que já há três anos quando Duarte (filho mais velho de Ivone) nasceu não havia vaga para fazer a sessão, apesar de a mãe ter tentado marcar a sessão "com a Sónia cinco meses antes dele nascer". Daí ter sido a primeira coisa que assegurou na segunda gravidez.

Cada vez se faz mais este tipo de trabalho, o que até levou fotógrafas a dedicarem-se em exclusivo aos recém-nascidos. É o caso de Sónia Brito, natural do Porto, que recolheu as primeiras imagens de Leonor. Faz estas sessões há seis anos, mas refere que o trabalho aumentou nos últimos quatro. "No início era eu que procurava os pais. Agora já não consigo dar resposta a todos os pedidos." As redes sociais (todas têm blogues e páginas do Facebook onde mostram o seu trabalho) foram um dos impulsionadores da expansão do negócio, tal como a recomendação entre amigos, admitem.

Com uma janela temporal muito curta para captar estes momentos únicos e irrepetíveis a maior parte das sessões são marcadas logo no início da gravidez. "Só trabalho com luz natural, o que limita as horas. Também só faço sessões de segunda a sexta-feira, porque no fim de semana faço a produção dos álbuns", indica Sónia Brito.

Normalmente, são as fotógrafas que fazem também a pós-produção das fotografias e a seleção das mesmas, o que também limita o número de trabalhos que conseguem fazer. "Só faço uma sessão por dia e normalmente tenho três a quatro por semana". A agenda de Ana Amorim é apertada, mas "acontece que às vezes ligam a marcar uma sessão quando os bebés já têm seis dias. Se tiver vaga no dia seguinte ou dois dias depois, no máximo, ainda faço". Nem sempre é possível, mas Ana faz os possíveis para não recusar - "custa muito recusar estas sessões porque eles são uma fofura", justifica-se.

O preço das sessões pode ser um entrave para algumas bolsas. Rondam os 200 euros e normalmente os pais recebem um álbum ou um DVD com as imagens. Também existe a hipótese de comprarem molduras e telas.

O resultado final acaba por ter diversas finalidades. Ofertas de Natal para a família ou a simples contemplação das imagens. No caso de Ivone as imagens de Leonor, captadas quando ela tinha dez dias, vão ainda ser aproveitadas para "o convite do batizado e do primeiro aniversário". "É uma forma de rentabilizar, mas a ideia era sobretudo ter uma recordação".

O pano de fundo é muito semelhante em todas as sessões. Uma sala com luz natural, quentinha, onde ao fundo se ouve música calma ou os sons que eles ouviam no útero. Por duas a quatro horas este é o ambiente que acolhe os bebés.

"Há muito calor. A temperatura é adaptada a cada bebé - porque eles vão estar sem roupa na maior parte do tempo que estivermos a tirar fotografias e têm de estar confortáveis - e no inverno ainda aquecemos as mantas onde eles vão estar deitados com sacos de água quente". O conforto é um dos pontos principais para Ana Amorim, de Lisboa.

Sónia Brito também garante um ambiente "quente e limpinho", além de contar com uma ajuda preciosa: "A minha irmã está sempre ao meu lado se for preciso segurar o bebé ou acalmá-lo". Os pais ficam normalmente a descansar enquanto vão acompanhando a sessão. No ritual da fotógrafa está também incluída a amamentação. "Peço que venham dez minutinhos mais cedo para amamentarem aqui e o bebé acalmar". Desta forma consegue também imagens enquanto eles estão acordados, porque "os avós preferem".

Para que os pais e o bebé estejam mais à vontade, Ana Pratas opta por captar as imagens em casa deles. "Faz sentido terem os seus acessórios, com os quais se sentem bem. A única coisa que faço é levar um ventilador para aquecer o ambiente e tentar aconselhar os pais sobre o que devem vestir".

A fotógrafa de Aveiro é também diferente por preferir que os bebés não estejam a dormir. Formada em engenheira física, está a dar os primeiros passos nestas sessões e nos últimos seis meses tem feito em média uma por semana. Não faz poses e também não precisa que os bebés sejam recém-nascidos. "Se forem um bocadinho mais velhos não me importo e também gosto de incluir a família nas sessões".

Já Sónia Brito e Ana Amorim preferem que os seus bebés façam uma soneca enquanto são fotografados. "Nunca mais vai acontecer eles estarem a dormir durante uma sessão, defende a fotógrafa do Porto. Já para Ana Amorim "é mais fácil eles estarem a dormir porque quando estão acordados mexem-se muito e não têm controlo dos movimento. Depois não consigo colocá-los em posições seguras".

Às vezes até há bebés que "entram e saem a dormir". Mas também há aqueles que "ficam saturados de sentir o movimento para as poses", acabando por encurtar as sessões. Sónia evita estar sempre a mexer nos bebés, por isso, quando há um dedo que não se vê ela espera, "às vezes dez minutos ".

Comprar acessórios é um dos hobbies das fotógrafas. Ana Amorim perde-se na Feira da Ladra, em Lisboa, e Sónia Brito pelos tons pastel. As cores neutras percorrem, aliás, todos os trabalhos por serem "clássicos e intemporais".

Mas muitos pais comprometem-se a trazer os objetos especiais. "A manta feita pela avó ou a primeira roupa que o pai vestiu", são alguns dos exemplos que chegam ao ateliê de Sónia Brito. Outras vezes os casais levam um brinquedo que compraram para o bebé . Ivone levou um Dudu (manta com um coelhinho e outros brinquedos à volta) com a Leonor.

Com ou sem objetos especiais, o resultado acaba por ser muito semelhante: bebés em poses angelicais que derretem qualquer um.

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