Nas terras que fazem o chão que o mundo pisa

A viagem que o DN está a fazer neste período eleitoral até ao fim de Portugal passou ontem pelo distrito de Portalegre. Retratos de um melancólico desespero

Não confundir. Uma coisa são os canteiros: os homens que trabalham o granito, para monumentos, ruas, etc. E outra são os calceteiros - os homens que com as pedras produzidas pelos canteiros depois fazem a famosa "calçada portuguesa", que Lisboa e muitas outras cidades por esse país - e até pelo mundo - pisam.

Na freguesia de Gáfete (concelho do Crato) e em Alpalhão (Nisa), ambas no distrito de Portalegre, esta é matéria de muito orgulho. Fazem, de facto, o chão que muito mundo pisa. Mas o negócio, como sempre, já correu muito melhor. É de granito que se trata. Granito azul ou granito amarelo. E, quando olhar para a calçada, só falamos das pedras brancas. As negras vêm de outro lado. O negócio corre mal - mas não corre todo mal.

Quanto aos calceteiros continua a haver procura. Empreiteiros do centro e sul procuram-nos para as suas obras. Fazem muitos quilómetros e ida e vinda para a terra. Mas o problema está na extração.

Das três pedreiras da zona uma fechou há coisa de cinco/seis anos. O presidente da junta de Gáfete, José Garcia, de 46 anos, diz apenas que faliu - ou seja, não foi por falta de matéria prima, foi "por outras coisas", a história é mais complicada mas não temos tempo.

A verdade, na sua versão mais simples, é esta: a empresa fechou, agora reabriu, mas entretanto, no encerramento, foram mais de cem homens para o desemprego e entretanto, na reabertura, são muito menos de metade. Em suma: a exploração das pedreiras tornou-se um "negócio menor" na freguesia. Valem os calceteiros - esses continuam a existir.

De resto, a economia (privada) quase não existe. Em Gáfete produzem-se os queijos que depois nas grandes urbes são comercializados com a marca "queijo de Nisa". E pouco mais. Na Aldeia da Mata, ao lado, o maior empresário será João Gouveia, que produz cavalos lusitanos para o mundo inteiro, ao que parece com grande sucesso. É isto: de resto, quem emprega são as autarquias e a Misericórdia, os serviços públicos em geral.

Luís Pereira, 44 anos, tem uma ganadaria na Aldeia da Mata, aí com umas 50 cabeças de gado bravo. Fornece profissionais da tauromaquia a cavalo para treinarem no defeso (no fim do arrendamento os bichos voltam). E ainda as garraiadas da terra, além de criar ovelhas.

No café "A Anta" - onde está pousado numa mesa o único exemplar de jornal diário que toda a aldeia consome - vai-se queixando. Da seca, que o obriga a alimentar os animais "à mão" (ou seja, não houve chuva para criar pasto), do Estado, da economia: "Hoje vendo uma ovelha ao mesmo preço que há dez anos." Por hábito, tradição e teimosia nunca passou para o gado de abate, que alimenta e dá leite e rende muito mais.

A economia foi-se. O turismo é curto - ao contrário, aqui, do que se passa noutras partes do Alentejo interior e mesmo do próprio distrito (como Castelo de Vide ou Marvão). As praias fluviais ainda não são uma moda - até porque era preciso que houvesse água.

É o interior do interior. E, confessa desconsolado um local, "até os bordéis foram embora", para Espanha. Aí, a clientela portuguesa é tal que até se encontra cerveja nacional. Menos de uma hora e faz-se a viagem. Faz-se também para as compras do mês no supermercado ou para abastecer o depósito do carro. É tudo mais barato.

E depois ouvem-se as queixas com o aumento do salário mínimo. Para um dono de um café empregar um funcionário, mesmo pagando-lhe por essa tabela, precisa de gastar quase mil euros/mês. As margens do negócios são tão curtas que não é possível. Os negócios ficam estritamente em família - não crescem - a servir cafés, "minis", cálices de vinho e bagaço e pouco mais. Vender duas dúzias de minis não dá mais de cinco euros de lucro. Quando anoitece, a Aldeia da Mata "fecha". Só permanece aberto o Clube de Caça e Pesca Matense, onde o DN escreve esta prosa. Os anciões que lancharam sangue cozido, azeitonas, pão e vinho já regressaram a casa. Como alguém dizia, aqui o grande património é o tempo. Não falta.

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