"Não temos a ilusão de que esta política vai resolver os problemas do país"

Um almoço com o o deputado comunista João Oliveira, que explica a forma como o PCP olha para o arranjo com António Costa

"Setúbal é muito longe para irmos comer um peixinho grelhado?" Respondi que não à mensagem, que se fosse por bom peixe valia a viagem, e combinámos encontro na Assembleia da República, numa sexta-feira depois de um debate quinzenal. Mal sabia eu que ia a caminho de um almoço épico, que só remotamente teve que ver com "peixinho grelhado". O líder parlamentar do PCP talvez desconfiasse. É cliente habitual da Casa do Peixe, em Setúbal.

A meio da viagem, João Oliveira confessou que só tinha escolhido Setúbal para evitar a viagem até à terra dele, até Évora. Ainda cheguei a dizer "porque não? Com a autoestrada, chegamos lá num instante", mas ouvi logo que "aqui também ficamos bem entregues". E ficaríamos.

Tivemos sorte no estacionamento, numa rua estreita nas traseiras da Loja do Cidadão, na antiga Rua dos Treze. A Casa do Peixe fica instalada numa casa térrea, com um grande quintal com esplanada. Mal estacionámos, à porta, tínhamos o dono, Luís Cruz, à nossa espera. Pelos cumprimentos e pela conversa deu para perceber que ia ser um daqueles almoços sem olhar para a lista, sem menu. Duas almas a almoçar tarde, com fome e entregues à vontade de quem manda na cozinha.

Sentámo-nos. A mesa já estava preparada com pão, umas azeitonas e um prato com cavala de conserva, desfiada e temperada com azeite, sal, pimenta, cebola e salsa. Um jarrinho de vinho branco e a primeira pergunta, sobre os hábitos do deputado que comanda a bancada do PCP. "Os almoços estão relativamente desgraçados pelo trabalho", respondeu João Oliveira, "é raro ter condições, ter tempo para um almoço mais descansado. Normalmente, o almoço é à pressa no refeitório da Assembleia da República, ou ainda mais à pressa no bar. Só ao fim de semana, sobretudo quando vou para o Alentejo, é que consigo ter um almoço mais descansado e como eu gosto, que não sou de comer à pressa."

O Sr. Luís aproximou-se da mesa, com um pequeno tacho, e disse "aqui têm o primeiro pitéu, só para aquecer a alma". Destapou o tacho. "Uma massinha de peixe, com ruivo." Cheirava bem, estava a escaldar, e aqueceu as almas e a conversa. João Oliveira admite que gosta da mesa, "quer da comida quer do convívio. É uma característica muito própria dos portugueses, isto da conversa, do encontro, até de uma reunião à volta de um almoço ou de um petisco".

Para ter um défice compatível com as exigências de Bruxelas, sacrificou-se o investimento público, com consequências na vida das pessoas

E o Alentejo, as idas a casa? "São fundamentais. Ao fim de quase 14 anos em Lisboa, continuam a ser os diazinhos que vou passando no Alentejo que me dão alento para o resto da semana em Lisboa. Não consigo passar sem lá ir, e sofro mesmo quando sou obrigado a passar algum tempo sem lá ir." João Oliveira confessa que é um alentejano com saudades de casa, a sentir "a falta de tudo, do contacto mais direto com a família, dos momentos que estão associados a isso, acho que é sobretudo um sentimento de desenraizamento. Eu nunca deixei de me sentir desenraizado em Lisboa. Não é a minha cidade. É no Alentejo que eu me sinto bem". Aliás, admite mesmo que não perdeu a esperança de voltar a casa, a Évora, e "de um dia poder lá viver. Mesmo sem qualquer perspetiva em relação a uma carreira política. Eu acho que sendo advogado em Évora seria alguém realizado à mesma". Mais feliz? "Mais ou menos não sei, pelo menos com outras condições de felicidade. No Alentejo, não tenho dúvidas, teria outras condições para ser feliz."

O senhor Luís voltou a abeirar-se da mesa, desta vez com uma travessa de barro que trazia umas tiras de raia frita e outra travessa com arroz de tomate. "Peixinho grelhado", por enquanto, nem vê-lo. Era o pretexto para falarmos da mais recente "crise" nos apoios do governo socialista, a TSU. João Oliveira diz que não chegou a haver crise, e que quem tentou criá-la, o PSD, falhou o objetivo. "O PSD tentou alcançar alguma instabilidade política, mas isso foi claramente um erro de análise do PSD. Esta situação em relação à TSU permitiu tornar ainda mais claro o que temos pela frente, ou seja, a solução política que nós temos."

João Oliveira explica a forma como o PCP olha para o arranjo com António Costa: "Há compromissos que foram assumidos, relativamente à formação deste governo, há medidas que entretanto foram tomadas que sustentam esses compromissos, mas nós não temos uma coligação em que uns estão amarrados às posições dos outros. Há um governo minoritário do PS, e o PCP mantém toda a sua autonomia. Discorda quando tem de discordar, concorda quando tem de concordar." E o PCP não sentiu, em passo algum do processo, que teria de invocar a velha máxima de Cunhal - máxima flexibilidade tática, máxima rigidez estratégica - e dar a mão ao governo? O líder parlamentar comunista conta que essa é uma frase sempre presente na ação do PCP, mas que "nesta circunstância não fomos confrontados com nada que tivesse mudado as circunstâncias, sobretudo circunstâncias sobre as quais já nos tínhamos posicionado", que é como quem diz que o governo sabia ao que ia e não foi surpreendido com a posição do PCP.

Acabada a raia frita, o Sr. Luís aproximou-se de novo da nossa mesa, onde já estavam pratos e talheres novos, e deixou por lá uma pequena travessa com um choco grelhado, com tinta, uma outra com migas à alentejana e uma enorme salada. O "peixinho grelhado", por esta altura do almoço, era uma miragem semelhante a o atual governo aplicar a "política patriótica e de esquerda" que o PCP defende. João Oliveira regressa à TSU, para fechar o tema e sublinhar os ganhos para os trabalhadores com toda esta novela. "Livraram-se de uma medida que ia incentivar uma política de baixos salários, e livraram-se de uma conceção que colocava nas mãos das confederações patronais o destino dos seus direitos."

Às vozes críticas, que têm insistido na ideia de que os acordos do governo com Bloco, PCP e Verdes estão esgotados, João Oliveira responde que "o que ficou inscrito na posição conjunta está longe ainda de se poder dar como concluído. Há muitas matérias que é preciso discutir, a começar pelas questões da precariedade na administração pública - que têm de ter uma concretização ainda neste ano -, pelas questões do financiamento da segurança social, o apoio às PME, a reforma fiscal, sobretudo os escalões do IRS. São tudo questões que estão inscritas na posição conjunta, que eu diria que ainda dão pano para mangas". Fica assim traçada a rota para a convivência entre PCP e governo ao longo do ano, com o tal "pano para mangas" de matérias com negociação complexa. Aliás, o líder da bancada comunista sublinha que o acordo firmado pouco conta, se as decisões forem no sentido certo. "Na perspetiva do PCP, se não se for mais longe, não será por falta de um papel assinado, e em tudo aquilo em que houver possibilidade e perspetiva de avançar na reposição de direitos e rendimentos ou na conquista de novos direitos, há condições para avançar, só não se avança se as opções não forem essas."

Há muitas matérias que é preciso discutir, a começar pela precariedade na administração pública

A meio do choco, desisti. Pousei os talheres e confessei a derrota. João Oliveira ainda acabou o choco grelhado, e também já estava preparado para fechar o almoço quando o Sr. Luís chegou com mais dois pratos limpos e a dizer "isto ainda não acabou, falta o peixinho!". Pois bem, tinha chegado a hora do tal "peixinho grelhado". Contrariados, cedemos. Afinal, dois massacotes, ou besugos pequenos, um para cada, não são coisa para fazer grande mossa. A propósito de contrariedades, pergunto sobre a degradação de algumas escolas e hospitais ou centros de saúde, e sobre a falta de capacidade de resposta de serviços públicos como a Segurança Social. João Oliveira diz que só por falta de vontade é que as coisas não se resolvem. "Há um caminho grande para fazer em áreas como a educação ou a saúde, e o governo do PS só não fará esse caminho se não quiser. É verdade que os problemas são muito profundos, e que não se resolvem todos de um dia para o outro; mas o governo tem, no Orçamento do Estado, todas as condições para resolver os problemas."

E o défice historicamente baixo, que foi conseguido, em parte, à custa do investimento público? O deputado comunista lembra que "há anos que o PCP vem dizendo que o défice não pode ser o alfa e o ómega da vida nacional. Ou seja, o défice não pode ser o objetivo ao qual tudo o resto se sacrifica, porque se o défice for obtido com quebras no investimento público como aquelas que aconteceram em 2016, é óbvio que isso significa que há problemas." Aqui não há negociações que consigam construir pontes entre governo e PCP. "O valor do défice até pode ser tranquilizador para Bruxelas, mas isso esconde um conjunto de problemas que ficam por resolver, ou que até se agravam. Esse não pode ser o caminho. Nós não podemos sacrificar o desenvolvimento do país, sacrificar as condições de vida dos portugueses, em nome dos números que temos de apresentar em Bruxelas."

Mais peixinho?! Ai aguentam, aguentam. Mais dois salmonetes, pequenos, só para acabar a refeição, com o Sr. Luís a justificar que um almoço de peixe tem de acabar com o que tem sabor mais característico, mais forte. Enquanto tratávamos, lentamente, dos salmonetes, invoco o argumento do primeiro-ministro, de que o atual governo está a conseguir um equilíbrio entre o cumprimento dos compromissos externos e o virar da página da austeridade. João Oliveira diz que o que o PCP espera é uma opção diferente, um caminho alternativo. "Isto não são coisas que se consigam resolver com equilíbrio, como estamos a ver. Nós tivemos a demonstração, durante quatro anos, de que não é possível esse equilíbrio. Isso é uma ilusão." E carrega mais na mesma nota. "O governo diz várias vezes que está a conseguir demonstrar que é possível compatibilizar o cumprimento das regras europeias com a resolução dos problemas nacionais. Não será tanto assim, porque se fosse possível fazer isso não teríamos chegado às situações de rutura a que chegámos. Para ter números do défice compatíveis com as exigências da União Europeia, sacrificou-se o investimento público com consequências na vida das pessoas, no funcionamento dos serviços públicos e nas condições de desenvolvimento do país."

Os dois salmonetes ainda deram tempo para uma afirmação taxativa: "Nós não temos a ilusão de que esta política vai resolver os problemas do país", e para falar da dívida pública, e de como o PCP não vê solução à vista para o problema. Até porque António Costa, diz João Oliveira, vive numa outra ilusão. "O governo está convencido de que, eventualmente, possa vir da União Europeia alguma solução para este problema. Nós não temos crença nenhuma de que essa solução possa vir da UE, até porque aquilo a que temos assistido, particularmente com o exemplo da Grécia, é que renegociações da dívida patrocinadas pela UE não são renegociações, mas antes formas de salvar os credores e de, sobretudo, os países mais poderosos retirarem as suas responsabilidades da dívida desses países."

E Donald Trump? Nesta altura já tínhamos na mesa uma pera para dividir pelos dois, que não havia espaço para mais. Uma pera à setubalense explicou o Sr. Luís, "semelhante às peras bêbedas, mas com Moscatel". João Oliveira olha com preocupação para o arranque da nova administração norte-americana, mas identifica na origem um outro problema. "O rasto de pobreza, de miséria, de exclusão, que a crise do capitalismo está a gerar por todo o mundo; nós percebemos que há aqui um caldo de cultura onde nascem os nacionalismos, a xenofobia, o racismo, a segregação, as discriminações. Afinal de contas, um caldo de cultura muito próximo daquele onde nasceu o nazi-fascismo na década de 30 do século passado."

João Oliveira conheceu a Casa do Peixe quando começou a andar de moto em Lisboa, e aproveitava os fins de semana para um ou outro passeio pela Arrábida. Requer muita manutenção, esta máquina com quatro cilindros - PS, Bloco, PCP e Verdes -, para estar afinada? "Requer, obviamente, sobretudo para conciliar posições divergentes. É um esforço muito grande. Quando temos de fazer uma discussão do Orçamento do Estado, de matérias como as questões da legislação laboral, da reposição de salários, de questões sociais. São coisas que exigem muito trabalho, não se decidem de um dia para o outro e envolvem o esforço e o trabalho de muita gente. Para que a máquina dê resultados, é preciso fazer muita afinação e é preciso fazer muito acerto de válvulas e de cilindros para que tudo funcione em condições."

O almoço terminou já tarde, com João Oliveira a dar como perdido o comboio para Évora. Pedi a conta. Ouvimos do Sr. Luís um número rápido e redondo. "É preço de amigo, 15 a cada um, são 30 euros!" Mas não há multibanco na Casa do Peixe, nem havia dinheiro, só cartões. Uma mão no ombro, e um tranquilo "deixe lá isso, paga quando cá voltar". A dívida já está saldada.

Casa do Peixe

› Pão, azeitonas e cavala de conserva

› Massinha de peixe, com ruivo

› Raia frita com arroz de tomate

› Choco grelhado com tinta

› 2 massacotes

› 2 salmonetes

› 1 pera à setubalense

› 1 jarro de vinho branco

› 2 cafés

Total: 30 euros

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