"Não há nenhum impedimento a candidatar-me a líder do PSD"

O antigo ministro do PSD, recebeu o DN no seu escritório, a PLMJ de Júdice, e revelou que não há nada que o impeça de um dia ir à luta no seu partido, onde Passos cairá se Costa cumprir legislatura. Gosta da ideia de Santana Lopes a disputar câmara de Lisboa e vê Nuno Melo como o futuro grande líder do CDS

No último fim de semana houve congresso do PS. Ficou claro que a geringonça está a funcionar?

Esse é o mais importante cumprimento que se pode fazer a Costa: a capacidade política de manter a geringonça a funcionar. Agora o congresso para ter interesse político tinha de ter respondido a duas questões. O que não aconteceu. A primeira era se a coligação à esquerda é uma opção estratégica ou de circunstância. A segunda era saber se a opção económica do governo centrar o desenvolvimento no consumo interno está a funcionar. Nesta última, não vou embarcar na crítica fácil, mas todos os indicadores estão a dar sinal negativo.

Há um ano comparou António Costa a um carro de leste, talvez um LADA, dizia que era confiável, mas não tinha rasgo, nem design. Continua a achar isso?

Costa tem confirmado a sua competência política. A geringonça lá vai e até com menos turbulência entre PS, PCP e BE. Mas o governo mostra que Costa não tem estratégia, tem apenas tática. Limita-se a gerir esta política do dia-a-dia. Não conseguimos tirar uma ideia forte, agregadora, que traduza um sonho que um primeiro-ministro tem de ter mais do que nós, para nos levar atrás dele, para nos mobilizar.

O guinar à esquerda do PS é irreversível?

O PS gosta de chamar o país àquele simulacro de participação que é a votação do secretário-geral, mas talvez valesse apena, ao invés, ter aberto esta discussão, que é muito mais importante para o PS do que a circunstância de cada líder.

Referendar em primárias a geringonça?

Não é referendar a geringonça. Ela está lá. A governação atual não está em causa, mas sim saber se, em termos políticos, isto significa uma alteração que aconteceu uma vez ou uma mudança de posicionamento político, em que o PS vai passar privilegiar o entendimento à esquerda. Creio que se Costa achasse que a esquerda devia ser a opção preferencial do PS, uma mudança cega, tinha vindo ao partido discuti-la. Se não veio é porque não é estrutural.

Estes também foram os primeiros seis meses do líder da oposição. Como avalia Passos Coelho?

Uma oposição institucional, by the book, num tempo de afirmação desta geringonça. Passos está ainda a fazer a comparação deste tempo de governação com o seu e a destacar as diferenças. Não é o tempo mais inventivo nem o mais criativo e também não era possível fazer muito diferente do que tem feito na oposição. Curiosamente, PSD e o PS acabaram por ter congressos parecido. Os dois partidos têm um ponto em que são semelhantes: ainda ninguém discute no PS este caminho porque Costa está na curva ascendente do exercício do poder e no PSD, ninguém discute o partido, porque está na situação inesperada de ter um líder que era primeiro-ministro, ganhou as eleições, e deixou de ser primeiro-ministro.

Mas Passos Coelho é ou não um líder a prazo até às autárquicas?

O que digo é que seria sido incompreensível e politicamente errado a todos títulos ter estado a discutir a liderança do PSD no último congresso. Passos era o líder natural. É o líder do PSD e outro não poderia sê-lo neste momento. Quem ganhou as eleições foi ele, não foi o Costa.

Mas o que pergunto é se vai durar até ir a votos novamente?

Se a atual legislatura tiver quatro anos, com muita dificuldade se manterá líder. Não por demérito de Passos, mas às vezes a vida é dura na injustiça que determina. Se, por alguma razão, acontecesse um acidente político a Costa este ano, os portugueses tenderiam a dizer: afinal o outro [Passos] tinha razão. Mas daqui por dois ou três anos, o PSD obrigatoriamente tem de ter uma proposta alternativa de futuro. Se legislatura durar quatro anos, dificilmente Passos pode ser a personificação da mensagem de novidade, de esperança e de mudança. Seria muito difícil defender um Regresso ao Passado, como no filme. Mas o problema não se coloca porque a legislatura não tem hipóteses nenhumas de durar quatro anos.

Mas vê-se candidato a líder a disputar a sucessão de Passos?

Não tenho nenhuma razão para dizer que estou impedido. Não há nenhum impedimento que faça não me candidatar a líder do PSD. Mas a minha realização profissional não passa por aí. Se é um sonho, que outros tiveram, como Marques Mendes, não. Não quero ser presidente do PSD desde pequenino.

Vê militantes mais bem colocados para isso?

Se voltarmos a situação de urgência será indicado para o país uma liderança como a que era necessária em 2011, do tipo de Passos Coelho ou Rui Rio. São situações de exceção que é preciso um comando muito forte, uma resistência brutal, uma convicção fortíssima.

E nestes cristãos-novos que se perfilam para a liderança, vê algum forte? Luís Montenegro, Maria Luís Albuquerque, Pedro Duarte, José Eduardo Martins.

Está a misturar nomes. Nem todos ganharam notoriedade política recente, como sugere. Lembro-me de José Eduardo Martins há 38 anos atrás a trabalharmos juntos na JSD de Lisboa, portanto dizer que é um cristão-novo, é difícil. Pedro Duarte a mesma coisa. Maria Luís Albuquerque já é outra coisa, Montenegro outra coisa. Está a pedir que misture alhos com bugalhos.

Já vi então que considera Rio o mais indicado para uma situação de fim de geringonça.

Depende das circunstâncias. Se tivermos o país em estado de sítio por razões económicas daqui a três anos farei a escolha por um tipo de perfil de Passos e Rio. Se as condições forem outras, direi outros nomes.

Reflete muito sobre o PSD. Porque não foi ao congresso?

Pensei que há alturas em que mais vale estar calado.

Permita-me a provocação: Qual o melhor líder do PSD nos últimos 20 anos?

Depende. Se me perguntar, dos primeiros-ministros, respondo-lhe Sá Carneiro. Na oposição, Marcelo. Foi o único que, a partir da oposição meteu golos na baliza do governo. Na regionalização, no Totonegócio, no aborto. Foi o melhor líder da oposição, mesmo tendo em conta os do PS.

Marcelo está também a ser um bom Presidente?

Aí temos um tempo novo. Tirando Soares, nós temos memória de Presidentes majestáticos, distantes. Agora temos um presidente do lado de cá, com os riscos que isso traz. É evidente que quando ao se aproximar de mais, perde autoridade.

Já disse que Marcelo arriscou e foi para fora de pé no caso BPI.

Neste caso não falo de opiniões, mas de posicionamento. O risco de um Presidente que procura ser um de nós é que na altura em que ele quiser ser Presidente, podemos não lhe ver esse distanciamento, essa autoridade que sempre deve afirmar. Se prefiro? Preferimos todos. O país inteiro dá estas notas absolutamente extraordinárias de recetividade ao Presidente, porque encontraram razões de identificação.

E essa popularidade pretende ganhar lastro para depois impor um semipresidencialismo carregado?

É evidente que a missão que o Presidente tem do lado de cá tem de ser mais viva e mais permanente. Com o risco que isso tem. Vamos ter um grande Presidente, mas vamos ter acidentes e incidentes, que serão acessórios. O essencial é o tal grande presidente.

Marcelo tem tentação para governar ou co-governar?

Marcelo está a ser Marcelo. E se não é o Presidente distante, é evidente que ele está na discussão dos temas do lado de cá, os temas dos cidadãos. Isto expõe-no mais. É precisamente por haver riscos que os outros foram distantes e esfíngicos.

Pode vir aí o primeiro veto [a entrevista foi horas antes do veto]. As coisas vão azedar com as 35 horas, e as "barrigas de aluguer"?

A questão das barrigas de aluguer é a única que pode tocar na nossa regra distintiva de valores.

No caso dos colégios também houve tensão entre Belém e o governo. Sei que estudou no público e no privado. De que lado está na polémica dos contratos de associação?

É uma questão que o PS traz para a agenda não porque o PS a tivesse como prioritária, mas porque o PCP trá-la para cima da mesa para provocar uma cisão, um antagonismo entre a escola pública e a privada. Este é um dos exemplos porque não é possível a Costa estabelecer uma estratégia: volta e meia ele tem que meter as prioridades de PCP e BE.

Qual é o melhor ministro deste governo? Sei que um é seu amigo.

Sou amigo de Azeredo Lopes mas não é por isso que vou dizer que ele é o que mais se destaca pela positiva. Não acho que seja. Diria uma grande surpresa: o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. É um homem que todos sabemos que tem um feitio difícil para o exercício destas funções porque tende a ser quase desagradável no combate político, a ser muito preto e branco, a questão das trincheiras, de malhar na direita. Ver esse homem a exercer, com a assertividade com que ele o está a fazer, as funções de ministro é uma surpresa. Quando um ministro do PS não disse nada que eu não subscrevesse, a resposta está dada.

Tem saudades de regressar à política ativa ou o privado dá menos chatices?

O apelo que nos leva a fazer política é a obrigação de ter opinião e de contribuir com decisões que têm impacto na vida das pessoas. O que guardo como governante é a imigração, quando estava a lutar pelo reagrupamento familiar, contra o CDS. Permitir às pessoas que tivessem mulheres e filhos a seu lado, foi o que mais me encheu. O apelo da política é esse. Não é o lado do pavão. Esse sabe bem, mas esse é o lado perigoso.

Paulo Portas na Mota-Engil parece-lhe normal?

As regras das incompatibilidades políticas no que elas têm de exagerado e a intervenção dos jornalistas no que tem tido de negativo levaram a que, como resultado, você cada vez encontre menos pessoas disponíveis para a política.

E o caso de Paulo Portas?

É o que lhe digo: ser político é um risco maior do que ser bombeiro ou andar pendurado nos postes de alta tensão da REN.

Não sei se está a evitar a questão porque a PLMJ tem algum contrato com a Mota-Engil...

Não. Sendo a maior sociedade curiosamente nunca teve nenhuma das 10 maiores contas nacionais.

E Assunção Cristas está a ser uma boa sucessora?

Costumo dizer que ela será uma espécie de vale, de buffer entre esses dois líderes fortes de Paulo Portas e a que há de vir do Nuno Melo. Mas às vezes os buffers viram coisas sérias. E aquilo que é circunstancial vira estrutural. O CDS está habituado a uma liderança unipessoal, muito forte, que creio que é mais fácil de acontecer com Nuno Melo.

Gosta do lado de política mais de duelo? Sei que, nestas lides, já lhe apeteceu aplicar o boxe que praticou quando era jovem...

Nos anos que levo de política, não foi aos que mais contra mim estiveram que me apeteceu dar dois murros na cara. Só me aconteceu nos casos em que senti que revelaram desrespeito, atingiram a família e me levaram a apetecer dar socos: Manuel Maria Carrilho e Vicente Jorge Silva. E foram eles os mais violentos nas críticas? Não. Foram-me dirigidas críticas muito mais violentas. Só que foram críticas limpas, sérias e honestas. Aquilo que eles fizeram foi cobarde. E por isso apetecia-me metê-los à minha frente e dizer-lhes: Como é agora? Vamos lá então agora ver quem diz e não diz.

Sentiu a morte de Muhammad Ali?

Concerteza. Mas para mim o maior pugilista de todos os tempos não é o Muhammad Ali, é o Teófilo Stevenson, um cubano que ganhou 3 ou 4 vezes os Jogos Olímpicos.

A sua cadela chama-se "cusca". É homenagem a alguém da política?

Não. A minha filha lhe queria chamar cuca e achei que cuca não ia a lado nenhum e meti-lhe o "s" .

Se houvesse um "cusco" na política portuguesa era quem?

Óooo. Há vários. Mas se lhe dissesse um cusco da política portuguesa era capaz de lhe dizer um jornalista e não um político.

Uma vez, numa malandrice que o CM lhe fez, comparou a crise com o decote da Rita Pereira, e esteve com Durão quando o país "estava de tanga". Ocorre-lhe alguma metáfora para definir o atual estado da retoma da economia?

Não me ocorre nenhuma comparação , nem tanga, nem biquíni, nem soutien.

Por fim, Santana Lopes é o melhor candidato do PSD para Lisboa?
O último presidente que pensou Lisboa sem pensar na sua carreira chamou-se Nuno Krus Abecassis. A seguir o único que pareceu, não lhe deram tempo, querer olhar Lisboa como paixão e não ponto de passagem foi Santana Lopes. Mostrou vir a Lisboa por Lisboa e não como ponto de passagem político. Deu-nos esse sinal. As torres ao pé do tejo, o elevador para o castelo, o Parque Mayer, que acho que é um crime não deixarem avançar com o projeto dele. De Costa só dizem que foi um bom presidente de câmara. Continuo a perguntar onde? Pode ter colocado as contas em ordem, mas deram-lhe uma ajuda com os terrenos do aeroporto. Tenho boa memória de Santana Lopes. Pôs-nos a discutir Lisboa. Depois disso, temos uma espécie de soporíferos. Toda a gente diz bem de Fernando Medina e eu ando na rua e passo-me com uma coisa que não oiço ninguém discutir: os semáforos.

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