Não há fritos no São Francisco Xavier. Só comida saudável

Venda de doces e salgados será proibida em todas as instituições do Serviço Nacional de Saúde até ao final de junho

"Não sou eu que estou doente... Vamos mas é ao McDonald"s." Poderia ser um comentário de um qualquer jovem (e não só) num qualquer local de venda de comida. Mas é de um casal de meia-idade no bar do Hospital de São Francisco Xavier, depois de ter sido informado de que não havia "bolinhos de bacalhau", conforme tinha pedido, e que os pastéis na montra eram afinal de tofu e de soja.

É que quem passar pelas cafetarias do São Francisco Xavier, em Lisboa, já não encontra fritos, croissants, snacks ou refrigerantes, mas hambúrgueres de salmão em bolo do caco com tinta de choco, bolo de espinafres feito com azeite, tortilha de batata doce com cebola roxa ou sumos naturais de fruta. "É assim há um mês, mas nem todos estão para isto... de comer comida saudável", comentou ao DN uma das empregadas do bar, que tinha acabado de ver os seus petiscos trocados por um hambúrguer do McDonald"s, que fica "ali quase ao lado".

Os produtos saudáveis do hospital no Restelo fazem parte do menu elaborado pelo chef Nuno Queiroz Ribeiro, juntamente com o chef Luís Lavrador, a nutricionista Ana Bravo e a equipa do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH), que gere os bares daquele hospital. Desde 1 de fevereiro que as cafetarias do São Francisco Xavier deixaram de vender os alimentos proibidos no despacho n.º 11391/2017, em vigor desde dezembro e que terá de ser seguido por todas as entidades que exploram os bares, cafetarias e bufetes do SNS até 1 de julho.

"Vamos alterar a oferta dos bares geridos pelo SUCH, para que ofereçam apenas comida caseira, feita com produtos naturais e frescos. Tirou-se tudo o que era congelado", adiantou ao DN Nuno Queiroz Ribeiro. Mantendo a tradição, ressalva, foram retirados também "processos de cozedura altamente processados". Os tradicionais pastéis de bacalhau, por exemplo, foram substituídos por crepes caseiros de bacalhau e pasta de grão.

O despacho surge na sequência de um outro que proibia a venda de produtos com excesso de sal ou açúcar nas máquinas de venda automática do SNS. "É um processo de reeducação alimentar", sublinha o especialista em alimentação saudável, destacando que os bares dos hospitais passam a ser "uma sala de aula", pois "é ali que se vai ensinar as pessoas a alimentarem-se".

Para a bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Alexandra Bento, este "é um exemplo" de que "é possível os hospitais terem outra oferta". "Este foi o primeiro hospital a demonstrar publicamente que estava a proceder às alterações previstas no despacho. E mostrou que a oferta pode ser simultaneamente saudável, apelativa e saborosa", diz ao DN. Quanto aos menus, avisa que devem "preservar a tradição, inovando": "Não podemos despir-nos da nossa cultura."

Negociação com fornecedores

O balanço do SUCH a este projeto- -piloto é "francamente positivo". "As nossas equipas de nutricionistas conseguiram imprimir criatividade e inovação nesta nova oferta, ao mesmo tempo que contribuímos para capacitar para escolhas alimentares mais saudáveis, promovendo o aumento da literacia alimentar e nutricional da população que frequenta os espaços de oferta alimentar do SNS", disse fonte oficial do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais.

Relativamente às notícias que davam conta da dificuldade de arranjar alguns produtos, o SUCH diz que "neste campo entra em marcha a lei da oferta e da procura". Ou seja, "até agora os fornecedores não estavam sensibilizados para esta questão porque não havia uma estratégia para a oferta de alimentação saudável". Foi necessário "sensibilizá-los" para isso e "para aquela que pode ser também uma oportunidade de negócio para os próprios fornecedores".

O SUCH acredita que, "com relativa facilidade, o mercado se adapta às solicitações" e "já se começa a adaptar àquela que passará a ser a nova realidade nos bares das instituições do Ministério da Saúde". No bar, tem de ser confecionada "uma nova panóplia de produtos, com novas receitas e novos ingredientes", pelo que "o SUCH não pode deixar de congratular os seus funcionários, em particular as cozinheiras e os cozinheiros".

Entre os alimentos proibidos pelo despacho estão as refeições rápidas, como hambúrgueres, cachorros quentes, pizas ou lasanhas. No São Francisco Xavier, conta Nuno Queiroz Ribeiro, os hambúrgueres de carne processada foram substituídos pelos de salmão ou de pescada em bolo do caco. E não são cozinhados com sal, mas com ervas aromáticas, misturadas com o peixe "para dar sabor". "São usadas técnicas de cozedura que evitem sal, gordura e açúcar", indica o especialista. Após um período de adaptação, o chef acredita que as entidades que gerem bares, cafetarias e bufetes no SNS vão, inclusive, "ter mais faturação". Quanto à lista de alimentos proibidos, destaca que "não estamos a tirar coisas às pessoas, mas sim a abrir a oferta", privilegiando "os produtos que crescem nas árvores, que vêm da terra". Há, aliás, uma maior oferta de produtos vegetarianos. Já no que diz respeito ao pão, há variedades de ervilha, beterraba, integral e outras.

Progressivamente, lê-se no despacho, "as instituições do Ministério da Saúde, sejam da administração direta ou indireta do Estado ou os serviços e entidades públicas prestadoras de cuidados de saúde que integram o SNS", devem proceder à revisão dos contratos em vigor, ou ficam sujeitas ao pagamento de indemnizações ou outras penalizações". Com Sílvia Freches

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Rosália Amorim

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