Na Tricots Brancal, há uma irmandade que defende as lojas da Baixa

Estabelecimento da Rua dos Fanqueiros é um dos 10 que, até 27 de junho, se transformam num palco de teatro. Sessões, com cerca de 20 minutos, são de quinta-feira a sábado. Cervejaria Solmar recebe jantar-espetáculo.

A gabardina bege e os óculos escuros intrigam até os mais distraídos. A frase, dita em surdina, incomoda até os mais descontraídos: "Os pombos de Lisboa estão bem alimentados." O silêncio de quem é abordado desespera o seu autor, que logo pega no telemóvel para perguntar se, afinal, é mesmo aquele código combinado. Já não é.

"Bom dia!", experimentam agora as três personagens-mistério. As boas maneiras imperam e a resposta certa começa finalmente a sair da boa de quem está na Tricots Brancal mais ou menos por acaso. A irmandade, a que todos pertencem involuntariamente, está pronta a reunir-se. Com que mote? Defender as lojas da Baixa de Lisboa, deduzir-se-á no final, quando Catarina Requeijo, Luís Godinho e Miguel Fragata terem desfiado o novelo de histórias do Teatro das Compras, já na sua sétima edição. As apresentações começaram esta quinta-feira e este ano haverá, pela primeira vez, um jantar-espetáculo de encerramento, na Cervejaria Solmar. É o único evento pago.

Ao todo, são 11 os estabelecimentos que participam no evento integrado nas Festas de Lisboa'15 e que, mais uma vez, tem direção artística de Giacomo Scalisi: a Conserveira de Lisboa, a Tavares - Panos, a Polycarpo, a Sealuz, a Barbearia Africana, a Discoteca Amália, a Casa Macário, a Soares e Rebelo, a Manteigaria Silva, além da Cervejaria Solmar e da Tricots Brancal, onde ao início da tarde desta quinta-feira decorreu a apresentação à comunicação social.

O espaço é o único que tem, de acordo com o programa de iniciativa, textos da autoria dos intérpretes, tendo as restantes dez peças sido escritas por Afonso Cruz, Joana Bértholo ou João Tordo. Os temas são diversificados, mas o ponto de partida é sempre o mesmo: o cenário. Na Barbearia Africana, por exemplo, um homem começa a contar um episódio doloroso da sua vida ao sentir a lâmina junto ao pescoço, enquanto na Discoteca Amália um outro que desafina ao cantar mas tem no Fado a sua paixão chega "disposto a falar da sua vida, da sua mulher, das suas alegrias e vergonhas".

Tal como é habitual, cada peça não dura mais de 20 minutos, decorrendo as apresentações de quinta-feira a sábado, de 30 em 30 minutos. A exceção ao formato é o jantar de encerramento, a 27 de junho. Os horários variam consoante o dia, mas permitem sempre que, caso apresse o passo, qualquer pessoa consiga assistir a três espetáculos em menos de uma hora e meia. E sem deixar de ter tempo para garantir que não sai de qualquer um deles de mãos vazias.

"Houve agora uma pessoa que veio para o Teatro das Compras e comprou desta lã", conta ao DN, no intervalo entre as duas primeiras sessões, Alberto Nabais, há 31 anos na Tricots Brancal. "A nossa loja é muito conhecida, mas há sempre alguém que vem pela primeira vez e fica a conhecer", acrescenta, a satisfação evidente por, depois de um interregno, a sua loja ter voltado a ser escolhida para receber o evento. "Fazem faltas iniciativas destas", defende, lembrando que a Rua das Fanqueiros não é, tal como outras, uma das artérias habitualmente enumerada quando se fala de comércio e turismo.

Não será o único a pensar assim. No estabelecimento que se distingue por, pendurados numa escada, atrás do balcão ou junto ao pilar espelhado, os atores terem sempre espaço para se movimentar, o público, em que qualquer um se arrisca a ser considerado um barão ou uma amiga de longa data, responde com sorrisos e palmas à afirmação das personagens de que "a Baixa está à venda e em preço de saldo". A prová-lo o facto de algumas das lojas que, em anos anteriores, foram palco do Teatro das Compras terem já encerrado.

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