Mulheres dominam mas ganham muito menos do que os homens

As mulheres são mais bem preparadas, mas continuam a desempenhar os mesmos papéis que as suas mães e avós. São conclusões do retrato dos homens e das mulheres do país em 2018 que é hoje apresentado pela Pordata

As mulheres continuam a ser a maioria da população em Portugal (53%), são mais escolarizadas, fazem mais doutoramentos, mas ganham consideravelmente menos do que os homens. Ganham muito menos à medida em que progridem no grau académico. Essa é uma das grandes conclusões do Retrato dos Homens e das Mulheres em 2018, que a Pordata vai divulgar hoje.

O documento analisa a sociedade portuguesa em cinco capítulos (população, casamento e famílias, conhecimento e redes, trabalho e atividade, rendimentos) e estabelece comparação com o resto da União Europeia. Aí a disparidade salarial continua a ser inferior à de Portugal, mas também existe (na ordem dos 16%). Se no ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem, a diferença entre homens é de apenas 233 euros (eles ganham 1215 euros e elas 982), o fosso adensa-se no ganho médio mensal dos trabalhadores com ensino superior, no nosso país: os homens auferem em média 2707 euros, as mulheres apenas 1958, o que significa uma diferença na ordem dos 750 euros.

Ainda no capítulo dos rendimentos, o estudo mostra que as mulheres portuguesas continuam a ser o elo mais fraco no que toca ao desemprego: 54% são mulheres e a tendência mantém-se quando esse subsídio passa a ser social, de mera sobrevivência. O mesmo acontece com os beneficiários do rendimento social de inserção (RSI), em que 51% são mulheres. Já no que respeita à população em risco de pobreza, a percentagem aumenta, embora aqui em paralelo com o retrato da União Europeia. Em Portugal, 54% está em risco de pobreza (face aos 46% de homens) e nos 28 países da União o número apenas baixa uma décima. Só os países de leste como a Estónia, a Letónia, Lituânia, Eslovénia ou a República Checa nos ultrapassam.

Mais famílias monoparentais

O documento permite uma leitura abrangente da sociedade contemporânea, até porque estabelece comparações temporais, e dá conta de muitas alterações que têm vindo a ocorrer. Uma delas é o crescimento das famílias monoparentais, que à data do estudo (2017) eram 480 mil.

O retrato da Pordata compara os dados com o ano de 1992, quando eram apenas 60 mil. Descendo a esse universo, os números mostram que 88% dessas famílias são femininas, acrescentando ainda que, em Portugal, há 87% de mulheres a viverem sozinhas com crianças, uma média também superior à da União Europeia. Na Suécia, na Dinamarca e no Luxemburgo, os números esbatem-se. "Para nos desenvolvermos precisamos de ser mais igualitários", lembra Maria João Valente Rosa, diretora da Pordata (ver entrevista), que inova essa "grande assimetria do mundo contemporâneo, que vamos ter de resolver, sem voltar para trás. Porque não podemos abrir mão destes grandes avanços - em que as mulheres foram protagonistas - mas temos de nos adaptar a tempos novos em que homens e mulheres não só estão no espaço público como têm um espaço doméstico e privado, em que as mulheres continuaram praticamente a assumir as mesmas responsabilidades que assumiam as suas mães ou avós. Isso está patente na questão das famílias monoparentais ou nas desvantagens no mercado de trabalho".

O retrato cruza dados do INE e da Segurança Social, mostrando que as mulheres trabalham em média menos horas do que os homens, eles ganham mais (e bastante mais quando falamos em ganhos e não em remunerações), "e está-lhes muito mais vedado esse mundo porque há uma conciliação de tempos importantíssima para se fazer, e que não está minimamente resolvida. Não o está em parte alguma, mas em Portugal está particularmente mal resolvida".

Daí se percebe que seja tantas vezes colocada em cima da mesa a questão de "ser-se boa mãe ou boa profissional, quando as questões não se deveriam colocar nestes termos, pois um filho é um projeto para homem e mulher. Mas a expectativa de que sejam as mulheres a assumir as maiores responsabilidades continua muito vincada", sublinha Maria João Rosa.

A produtividade, ora aí está

Há outras situações: os homens não precisam de trabalhar tantas horas, e as mulheres ainda muito menos, para terem elevados níveis de produtividade na União Europeia. "E trabalhar menos é bom, porque liberta tempo para outras atividades e outros projetos - como a família, a formação, etc", lembra a diretora da Pordata. Nos Países Baixos, por exemplo, 73% das mulheres trabalham a tempo parcial. O número global de horas em que homens e mulheres trabalham lá fora é inferior ao nosso, "e no entanto esses países são mais produtivos". Maria João Rosa acredita que "o desenvolvimento anda mesmo de mãos dadas com uma maior igualdade". De resto, a curva subiu drasticamente no acesso à internet nos últimos anos. No Alentejo, na Madeira e nos Açores, as mulheres lideram.

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