Montenegro ou Rangel? Passistas procuram adversário a Rui Rio

O tom nos corredores do Conselho Nacional do PSD, composto essencialmente por nomes afetos a Passos Coelho: encontrar um nome alternativo à anunciada candidatura de Rio

"Hoje viemos aqui apenas e só fazer uma reflexão. Este não é o tempo para nomes e para números, é o tempo para pensar que futuro é que queremos para o PSD. Foi isso que aqui vim fazer". Palavras de Paulo Rangel, à saída do Conselho Nacional dos sociais-democratas, que decorreu esta noite num hotel em Lisboa. O eurodeputado - um dos nomes apontados como possível candidato à sucessão de Passos Coelho - citou o livro do Eclesiastes para afirmar que "há tempo para rasgar e tempo para coser. Há tempo para estar calado e há tempo para falar" - "O tempo para falar foi lá dentro e o tempo para estar calado é cá fora".

No tempo para falar, Paulo Rangel dirigiu-se aos conselheiros nacionais do partido para deixar um elogio ao líder que hoje anunciou que não se recandidata a novo mandato e uma indireta a Rui Rio. De acordo com relatos da reunião social-democrata, Rangel sublinhou que quem vier com ideias de um Bloco Central não está a prestar um bom serviço ao partido, que tem de afirmar-se como uma alternativa, uma declaração aplaudida pelos conselheiros.

Este era, aliás, o tom nos corredores do Conselho Nacional do PSD, composto essencialmente por nomes afetos a Passos Coelho - encontrar um nome alternativo à anunciada candidatura de Rui Rio. Com duas figuras na linha da frente: Luís Montenegro e Paulo Rangel. Este último a par do líder parlamentar, Hugo Soares, mereceu uma referência no discurso de Passos Coelho, que o apontou como um "rosto importante da afirmação externa do partido" . E voltou a ser referido em termos elogiosos por um vice e fiel de sempre de Passos, Marco António Costa, que destacou o "combate fortíssimo" que o eurodeputado fez em 2014, quando avançou como cabeça-de-lista às eleições europeias. Um escrutínio numa altura difícil para o partido, que acabou por não se saldar por uma derrota eleitoral expressiva, referiu o dirigente social-democrata, lembrando a vitória por "poucochinho" invocada por António Costa para desafiar a liderança do então líder socialista, António José Seguro. Se estas palavras correspondem a um apoio político é mais difícil de determinar: é que o vice social-democrata também elogiou o papel de Montenegro como líder da bancada parlamentar, em "circunstâncias muito difíceis".

O apoio dos passistas, que vêm com maus olhos a candidatura de Rui Rio, apoiada pelos barões do partido, deverá cair para um destes dois nomes. Montenegro tem sido pressionado a avançar, mas está a ponderar. Uma eventual recusa do ex-líder parlamentar abriria o caminho a Paulo Rangel.

Certo é que Marco António Costa não fará parte de uma futura direção, tendo dito aos conselheiros nacionais que, com a saída de Passos, deixa também todos os cargos no partido, ficando como militante de base. "Não exercerei cargos partidários, por vontade própria, nos próximos anos", confirmou ao DN, mas sublinhando que não prescindirá de tomar posição sobre a vida do PSD.

Com o Conselho Nacional a decorrer horas depois de conhecida a decisão de Passos Coelho de não se recandidatar a novo mandato no PSD, esta circunstância acabou por pacificar as hostes sociais-democratas, com grande parte das intervenções a sublinhar a atitude de Passos Coelho. Foi o caso do presidente reeleito da Câmara de Aveiro, Ribau Esteves, que aproveitou para pedir ao presidente do partido que não se dedique agora ao comentário televisivo, como outros ex-líderes, para dizer mal do PSD. Passos já tinha garantido que não, na intervenção inicial, afirmando que não se vai calar para sempre, mas também não vai "andar a rondar" nem a "assombrar coisa nenhuma".

Ler mais

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.