Moedas garante: Passos não cedeu à extrema-direita

O comissário europeu da ciência, Carlos Moedas, esteve esta noite na Universidade de Verão do PSD, onde falou a quase cem jovens.

O facto de o PSD ter em Loures um candidato que defende a pena de morte não pode levar o país a concluir que o partido e o seu líder sofrem de uma deriva de direita que o afasta dos seus "valores de sempre", o de um partido "aberto" e "tolerante".

"Posso responder pelo meu conforto em relação a isso", disse o comissário português, quando questionado sobre se a candidatura de André Ventura não lhe provocava "desconforto" quanto aos valores que o partido sempre defendeu.

Moedas garantiu que Passos Coelho é um "homem de tolerância", que teve "muitas conversas com ele" que o atestam e que "o exemplo da sua própria vida" - referia-se implicitamente ao facto de o líder do PSD ser casado com uma mulher negra - dão também disso prova.

E o PSD, reforçou, "foi, é e sempre será" um "partido de tolerância", "no seu ADN é um partido de tolerância" e "nem se pode admitir que tenhas aspetos racistas, muito menos o seu líder" - mesmo tendo o partido à frente de uma lista autárquica alguém como André Ventura (aspeto que não quis comentar especificamente).

Carlos Moedas falava a jornalistas depois de uma conferência perante quase uma centena de jovens no segundo dia da edição deste ano da Universidade de Verão do PSD, que está a decorrer, como habitualmente, num hotel em Castelo de Vide.

Na conferência, e depois nas declarações aos jornalistas, Moedas equiparou a extrema-esquerda e a extrema-direita como as forças que "querem fechar o mundo" e que e assim contribuem para uma cada vez maior "contradição" e "desconexão" entre uma "economia globalizada" e uma "política localizada" que faz com que "os políticos se descredibilizem".

"Se repararem, os votos da extrema-esquerda e da extrema-direita [no Parlamento Europeu] têm sido muitas vezes os mesmos", disse, exemplificando com a votação sobre um acordo de comércio entre o Canadá e a UE.
Moedas procurou insistentemente passar a mensagem de que a UE deve ser pelo menos tão "assertiva" â condenar os países que desafiam os seus valores da "tolerância" - falou na Hungria e na Polónia - como quando condena países que violam o Tratado Orçamental.

"Isso para mim é muito mais grave", afirmou, comparando um país que "não siga os valores da Europa da tolerância e da liberdade" a um "país que não cumpre o défice". Porque - acrescentou - "se nós abrirmos essa caixa", a da "intolerância e da xenofobia", "não a conseguiremos voltar a fechar".

Dirigindo-se diretamente à sua plateia, disse abertamente o que o "preocupa" e deixou um apelo: "A vossa geração pensa que nada pode voltar para trás. Eu acho que muito pode voltar para trás. Mas não podemos [deixar que isso aconteça] e precisamos da vossa ajuda."

Segundo acrescentou, "o maior desafio" dos que hoje para os jovens é "globalizar a política". Isso consegue-se criando "regras globais muito fortes" - e não com regras de protecionismo nacional ("sempre que nos fechamos ao estrangeiros ficamos mais pobres").

E depois há aspetos na UE que carecem de soluções urgentes: "A maior injustiça que as pessoas sentem é a injustiça fiscal. Temos de ter justiça fiscal na Europa [e isso passa por] obrigar as empresas e as multinacionais a pagar impostos onde têm lucros".

Em suma: importa que a Europa volte ao centro do mundo e isso, como há 500 anos, com os Descobrimentos portugueses, "fomos nós que conseguimos", tendo essa "liderança" uma "razão" que se mantém atual: "Sempre pelo conhecimento e pela tecnologia".

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