Minuto e meio em apneia. PAN diz que trouxe "frescura" ao debate político

Com temas fora da caixa, que escapam à política do caso e à revista de imprensa, André Silva defende que o seu partido trata de forma nova o ambiente e a ecologia

Com alguns dias de antecedência, André Silva reúne a sua equipa e começa a preparar os debates quinzenais com o primeiro-ministro. Em minuto e meio, o tempo de intervenção que o regulamento dá ao deputado único do PAN, este tem de dizer o que pensa, contextualizar e perguntar. Como o próprio reconhece ao DN, entre risos, "os tempos que nós temos são tempos para eu me especializar a falar em apneia".

Não é fácil, percebe-se: "Um minuto e meio não dá para fazer um enquadramento, chegar ao pé do primeiro-ministro com toda a calma, gizar um raciocínio, fazer uma exposição de motivos e depois tentar alguma conclusão, obriga a ir ao osso", explica André Silva. Nesse minuto e meio "tem de se ser muito objetivo, numa linguagem muito simples de entender, fora daquilo que é a narrativa tradicional do ataque político-partidário". Inspira-se e jorra-se as palavras.

Com outra "grande preocupação", insiste o deputado único do partido Pessoas-Animais-Natureza: "Colocar em cima da mesa problemas que não são discutidos de uma forma pedagógica". "Quando vamos com duas pedras na mão, os ouvidos estão logo fechados. Por isso, colocamos os problemas em cima da mesa aos partidos e ao governo sem hostilidade porque sabemos que a hostilidade encerra e por isso fecha as pessoas." Assim, aponta André Silva, faz-se "um esforço para sermos realmente ouvidos".

Entre os temas que o PAN quer que deputados, governo e portugueses ouçam estão questões que muitas vezes escapam à lógica da "política do caso ou da revista de imprensa", com base nas "preocupações" do partido e "na atualidade", mas sem se "guiarem pela atualidade". As questões que André Silva deixa a António Costa cruzam-se com o programa do partido, em campos como a saúde, o bem-estar, a agricultura biológica, ambiente e ecologia, "assuntos que normalmente estão fora das prioridades dos partidos convencionais", temas que saem "fora da espuma dos dias".

Da atualidade, o deputado único do PAN também repesca questões, como no caso da concessão de prospeção e exploração de petróleo e gás, nas costas alentejana e algarvia, ou da central nuclear espanhola de Almaraz. Depois há exemplos que rompem com aquilo que André Silva denomina de "narrativa tradicional que está instituída".

No debate quinzenal de 5 de junho passado, aproveitando o Relatório do Estado do Ambiente 2018, apresentado pelo governo, o deputado atacou a indústria pecuária. "A agricultura intensiva e a produção de carne e leite é o setor que mais água consome, que mais água polui, que menos contribuições fiscais assume e ao qual ainda pagamos para poluir." Ao DN explica que "não é eticamente aceitável que se empregue dinheiros públicos em atividades extremamente poluentes, como as da carne e leite", defendendo que um "setor altamente poluente não deve beneficiar de apoios estatais". As respostas que obtém nestes casos são sempre "muito evasivas, muito redondas".

É este tipo de argumentos que sustentam, nas palavras de André Silva, a ideia de que o PAN trouxe "uma nova perspetiva de que antes da economia estão as políticas ambientais, independentemente do desenvolvimento do país", contra aquilo que para este deputado era uma abordagem "bastante superficial" do ambiente nos trabalhos da Assembleia da República. "Se não cuidarmos da nossa casa comum, dos nossos recursos, daqui a uns anos não estaremos a discutir salário mínimo ou reposições de salários, estaremos a discutir - e já vamos tarde - as condições de habitabilidade do nosso planeta."

Para lá da esquerda/direita

Quando questionado sobre o facto de já existir uma bancada de um outro partido ecologista, os "Verdes", André Silva sublinha as convergências alcançadas, mas prefere notar que o aparecimento do PAN trouxe "alguma frescura ao debate político", com a abordagem de "novos temas ambientais" e de "uma ecologia profunda". E recusa a dicotomia esquerda/direita na avaliação de quem está mais ou menos próximo das suas causas. "Estamos a lidar com um enorme conflito de interesses", aponta, recordando a "finitude do planeta" e a "perspetiva predatória" do "crescimento a qualquer custo": "O problema não está em governos mais socialistas ou mais liberais, nem de capitalismo ou liberalismo mais selvagem, mas sim no produtivismo e extrativismo em que este modelo económico e social e as sociedades modernas assentam. Sejam elas de esquerda ou de direita. Encontramos muitas resistências às nossas propostas, da esquerda à direita."

Com forte trabalho nas redes sociais, o PAN diz que a grande dificuldade é passar a sua mensagem na comunicação social, nomeadamente na televisão. Em todo o caso, André Silva tem a expectativa de, nas próximas eleições, recolher nas urnas os frutos do "enorme trabalho que o PAN tem feito" no Parlamento. "Estamos a semear, podemos não estar a conseguir tudo o que queremos, mas estamos a semear." Para a sua mundivisão, explica, precisa "de mais força". Essa força "refletirá um salto qualitativo do nosso trabalho", ao "darem-nos um grupo parlamentar".

André Lourenço e Silva

Nasceu em Lisboa, em 2 de abril de 1976.

É engenheiro civil, licenciado em Coimbra, e tem mestrado em Património Arquitetónico e Artístico.

Pratica mergulho e biodanza. É casado. Vegetariano, é tutor de um cão chamado Nilo. A sua entrada no Parlamento em 2015, como cabeça-de-lista do PAN por Lisboa, foi uma surpresa e representou a eleição de um deputado de um novo partido pela primeira vez desde 1999 (quando o BE elegeu dois deputados).

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