Ministra da Justiça disposta a dialogar com guardas sobre horário de trabalho

Francisca Van Dunem mostrou-se disponível para negociar com os sindicatos da guarda prisional uma solução que não os obrigue a prolongar o horário de trabalho das 16:00 às 19:00

A ministra da Justiça manifestou hoje a intenção de dialogar com os sindicatos da guarda prisional para encontrar uma "plataforma de entendimento" sobre a questão do horário de trabalho, por forma a evitar incidentes que são "maus para todos".

Francisca Van Dunem, que está a ser ouvida na comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, respondia a perguntas dos deputados sobre os distúrbios ocorridos no sábado no Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), depois de um grupo de guardas prisionais se ter recusado a prolongar o seu horário de trabalho, o que originou o encurtamento do período de visitas e motivou a indignação dos reclusos.

A ministra salientou que o novo horário de trabalho dos guardas prisionais, de 8 horas e repartido por três turnos, é mais "humano", "correto" e "adequado" do que o que vigorava anteriormente, mas admitiu que persistem alguns problemas entre as 16:00 e as 19:00, porque este período coincide com o horário das visitas, alimentação, medicação e entrada dos reclusos nas celas.

Contudo, esclareceu, com o novo horário, os guardas prisionais só têm de estender o seu horário de trabalho naquele período (16:00-19:00) de cinco em cinco semanas, quando anteriormente eram obrigados a fazer mais horas extraordinárias, num regime que os próprios guardas classificavam de "desumano".

Francisca Van Dunem mostrou-se disponível para negociar com os sindicatos da guarda prisional uma solução que não os obrigue a prolongar o horário de trabalho das 16:00 às 19:00.

A ministra adiantou que o novo horário já está em vigor em seis cadeias, mas que só deu problemas no EPL.

Como nota otimista, indicou que em março entram ao serviço 400 novos guardas prisionais, que irão reforçar as equipas e permitir estender o novo horário da guarda prisional às restantes prisões.

Revelou ainda que foi pedido a abertura de um novo concurso para a formação de mais 120 novos guardas prisionais, ao mesmo tempo que foi desbloqueada questões ligadas á carreira destes profissionais.

Antes, Carlos Abreu Amorim (PSD) havia questionado a ministra sobre os distúrbios ocorridos no sábado no EPL e tecido críticas à atuação do diretor-geral das cadeias, Celso Manata, por manter uma postura de "conflito" com os guardas, pondo em causa a segurança e a estabilidade do sistema prisional.

Durante a sessão, a ministra negou, em resposta ao deputado José Manuel Pureza (BE), que alguma vez o Ministério da Justiça tivesse tido a intenção de entregar funções que competem aos guardas prisionais a empresas externas ('outsourcing'), admitindo, porém, que a secretária de Estado da Justiça Helena Mesquita tenha aludido ao assunto numa reunião com os sindicatos da guarda, mas apenas no plano teórico.

A ministra da Justiça aproveitou para revelar no parlamento que, em dezembro de 2017, o sistema prisional tinha menos 767 reclusos do que a 01 de janeiro de 2016, referindo o contributo das medidas aprovadas em matéria de penas curtas.

"No sistema prisional e de reinserção propusemos e fizemos aprovar uma reforma em matéria de penas curtas (...) que potencia a capacidade ressocializadora do sistema, inibindo os efeitos criminógenos do cumprimento de penas curtas em meio prisional. A reforma, em vigor em vigor desde 21 novembro de 2017 está a impor-se, não só como alternativa relevante, no plano da política criminal, como também como instrumento descongestionamento e racionalização dos meios do sistema", sublinhou.

A pena de permanência na habitação (PPH), introduzida pela reforma penal de 2007 e que tinha pouca expressão estatística, foi aplicada, durante o ano passado, 130 vezes, tendo estado em execução simultânea cerca de 70 penas, segundo dados da ministra.

Entre 21 de novembro de 2017 e 21 de janeiro deste ano, foram já aplicadas 70 novas PPH, adiantou ainda.

Paralelamente, Francisca Van Dunem destacou que obras no parque penitenciário permitiram aumentar a capacidade de alojamento do sistema prisional em 365 lugares.

Antes, o deputado Neto Brandão (PS) havia divulgado que as medidas aprovadas tiraram o sistema prisional da situação de sobrelotação.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?