Militares acolhem Marcelo com desfile ao estilo 10 de Junho

Mafra. Cerimónia inédita com cerca de 800 militares marca a entrada em funções do novo comandante supremo das Forças Armadas

As Forças Armadas (FA) organizam segunda-feira uma cerimónia inédita de receção formal ao Presidente da República, em moldes semelhantes à do 10 de Junho, soube ontem o DN.
A Escola das Armas do Exército, em Mafra, será o palco onde Marcelo Rebelo de Sousa vai fazer o primeiro discurso como comandante supremo das FA, inaugurando uma prática sem tradição institucional e que surge como um prolongamento da recente cerimónia de despedida da instituição castrense ao presidente cessante, Cavaco Silva.

O evento ocorre pouco mais de um ano após a entrada em vigor da legislação que reforçou os poderes do chefe do Estado-Maior General das FA (CEMGFA) face aos dos ramos militares, vistos até então como tão ou mais poderosos que o agora principal conselheiro militar do poder político. Na medida em que o novo quadro legislativo reforçou a tutela do governo sobre as FA, esta cerimónia também pode ser entendida como uma forma de a instituição militar mostrar que vê no Presidente da República - como comandante supremo e por estar acima das divisões e opções político-partidárias - a figura que mais e melhor os representa e entende.

Ao contrário da cerimónia realizada no passado dia 17 de fevereiro (ver fotolegenda), no Instituto Universitário Militar (em Pedrouços, Lisboa), a de Mafra terá uma dimensão significativamente maior - aproximando-se, com o número de soldados presentes e de meios militares envolvidos, das que ocorrem no 10 de Junho, assinalaram algumas das fontes.

Note-se que o 10 de Junho deste ano vai ser celebrado oficialmente em Paris, impedindo a realização do já tradicional desfile militar com que as FA passaram a associar-se - desde 2006, no primeiro ano de Cavaco Silva como presidente - às comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.
"Não há uma razão especial" para o formato da cerimónia preparada para segunda-feira, afirmou ontem uma alta patente militar conhecedora dos preparativos em curso, sublinhando que "não houve a preocupação de ver se no passado se realizou" algo semelhante.

"Como se fez uma cerimónia de despedida ao comandante que saiu, agora faz-se uma de receção ao novo comandante com um desfile numa parada militar", admitiu a mesma fonte, uma das que o DN ouviu sob anonimato para este artigo por não estarem autorizadas a falar. "Será uma cerimónia muito semelhante" à realizada em Pedrouços para o ex-presidente Cavaco Silva, embora com muito mais militares - e ainda quatro caças F-16, que vão sobrevoar Mafra quando tocar o hino aos militares mortos.
Além dos F-16, não autorizados a sobrevoar Pedrouços por restrições de espaço aéreo, e do conjunto de efetivos dos três ramos que permitem mostrar a vertente da formação e treino nas FA, haverá um segundo bloco de militares das forças especiais (paraquedistas, comandos, fuzileiros e operações especiais) equipados para combate e destinados a apresentar a componente operacional da instituição castrense.

Despedida de Jorge Sampaio

Foi a 2 de março de 2006 que se realizou a primeira cerimónia militar de homenagem ao então presidente e comandante supremo, Jorge Sampaio. Foi na Academia Militar do Exército, em Lisboa, e perante companhias de alunos das academias dos três ramos.
"Dei conteúdo" a uma função de comandante supremo que apenas tinha "formulação constitucional", precisou o então presidente cessante, adiantando que isso era "uma aquisição" para o acervo dos poderes presidenciais.

Sampaio - como Cavaco, 10 anos depois - recebeu das mãos do então CEMGFA, almirante Mendes Cabeçadas, as espadas de cada ramo e que simbolizam o comando em que está investido o oficial das FA.

O sucessor participou, mês e meio após a posse, na sua primeira cerimónia como comandante supremo, a 20 de abril de 2006 e na Bósnia. A marcar o evento, em Doboj, ficou a entrega de um camuflado militar com o seu nome e função inscritas no equipamento. "Foi preciso vir visitar o contingente português na Bósnia para ver pela primeira vez a minha fotografia oficial", concluiu Cavaco Silva, sorridente.

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