"Migração" de docentes do Norte baralha colocações

Para garantir uma vaga, muitos docentes do Norte do País concorreram quadros no Sul. Agora arriscam não conseguir voltar à origem. E ameaçam hipóteses dos contratados

Um número significativo de professores que davam aulas e viviam no Norte do País entraram este ano para os quadros nas zonas pedagógicas (QZP) de Lisboa e de outras regiões ainda mais a Sul. A contagem total destes casos é nesta fase impossível mas, de acordo com a Associação Nacional de Professores Contratados (ANPVC), só no grupo 500 (Matemática do ensino secundário) já há dezenas de situações confirmadas.

"Nesse grupo, grande parte dos professores nossos associados foram vincular a Lisboa e nos últimos anos trabalharam todos no QZP 1, que é o Porto", confirmou ao DN César Israel Paulo, porta-voz desta associação, que explicou esta "migração" com o facto de os professores em causa terem "apostado" em quadros onde tinham mais probabilidades de entrar. "Claro que em última instância o candidato é opositor ao seu próprio QZP mas na prática vai entrar onde houver uma vaga disponível para ele", explicou.

Este ano, além dos casos de cerca de 300 professores que entraram no quadro ao abrigo da chamada norma-travão, por terem cinco contratos completos sucessivos, o Ministério da Educação promoveu uma "vinculação extraordinária", com 3019 lugares a concurso. O QZP7, de Lisboa, foi de longe aquele que mais lugares abriu: 1295. Já o QZP1, do Porto, ficou-se pelas 548 vagas (ver caixa).

Estes lugares foram apurados com base nas necessidades permanentes das escolas e, teoricamente, destinavam-se aos professores que já lá lecionavam como contratados. Mas nem sempre isso sucedeu: as regras dos concursos permitem aos docentes concorrerem a diferentes pontos do país e, na altura de atribuir a vaga, o critério decisivo é a posição nas listas graduadas, que consideram o tempo de serviço e a nota final de curso dos candidatos.

De acordo com Arlindo Ferreira, diretor de um agrupamento e autor de um blogue especializado em contratação de professores, "a maioria dos lugares de quadro foram ocupados pelos professores mais graduados" entre os que já davam aulas nas diferentes zonas. Mas "uma parte" acabou por sobrar para docentes que decidiram tentar a sorte noutros locais.

Contratados sem hipóteses

Isto, segundo César Israel Paulo, está a criar "dois tipos de problemas". Por um lado, os professores do Norte que vincularam em Lisboa "querem agora tentar regressar às escolas das suas zonas de origem, através da mobilidade interna, mas não sabem se o vão conseguir". Por outro, aqueles que de facto consigam regressar ao Norte vão limitar ainda mais as hipóteses de colocação dos professores que esperam ser colocados a termo nessa zona do país.

"Contratações no Norte ,com horários anuais e completos, vai ser muito raro", confirmou Arlindo Ferreira, lembrando que "já no ano passado" estes lugares escassearam e, agora, a situação tornou-se ainda mais difícil: "De Coimbra para cima, na contratação inicial [cujas listas deverão ser divulgadas no final do mês] e até mesmo nas primeiras reservas de recrutamento [um concurso posterior, que se repete ao longo do ano] dificilmente serão contratados professores", disse. "Pode haver um ou outro grupo com colocações, como Educação e Moral, mas nenhum dos mais importantes".

É com este quadro que Edna Frente Carvalho, 38 anos, "contratada há 17 anos e com 16 anos de serviço", aguarda impacientemente a divulgação das listas dos concursos de contratação inicial. Professora do grupo das Artes Visuais - onde só vincularam 23 professores em todo o País, este ano já passou pela angústia de uma exclusão do concurso, devido a uma discrepância nas horas de serviço indicadas que teve origem numa informação dada pelos serviços da escola onde trabalhava. "Consegui provar que o erro não era meu e fui reintegrada", conta. Mas a apreensão continua.

"Muitos colegas vincularam mais lá para baixo, para Sul, que era onde havia vagas. A gora, pela mobilidade interna querem vir para Norte e vão acabar tirar vagas às pessoas contratadas como eu". A esperança é conseguir continuar em Esposende, onde reside e estava a dar aulas, mas a incerteza é total: "Não sei onde fico ou se tenho horário completo ou incompleto".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.