Mendes de afetos nega querer Belém: "A história não se repete"

Ex-líder do PSD diz que, apesar de ser comentador político, não seguirá as pisadas de Marcelo

Aplaudido de pé, Marques Mendes entrou esta noite na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide, como um "Marcelo II", distribuindo afetos por todas as mesas e cumprimentando, um a um, mais de uma centena de jovens. Mas os afetos não chegam na política. Nem sequer ter mais votos. Daí que o ex-líder do PSD alerte: "o PSD só volta ao poder com maioria absoluta".

Já no final da intervenção, Mendes recusou querer seguir os passos de Marcelo Rebelo de Sousa que após dez anos de comentário político foi candidato presidencial e venceu a corrida a Belém. O ex-líder do PSD diz que não tem "qualquer propósito de regresso à vida política" e a circunstância de ser comentador não significa que "a história se repita". E concluiu: "Vai ver que a história não se repete".

Mendes foi apresentado como "comentador político mais respeitado em Portugal", antes do jantar falou por vídeo-conferência com uma criança e foi fazendo várias graçolas durante o discurso que cativaram a assistência. Afetos, afetos e afetos. Mas vamos à atualidade política: Marques Mendes defende que as crises na geringonça são "tudo fita" e que o Orçamento do Estado para 2017 vai ser aprovado com facilidade.

Aproveitando a boleia de estar a falar sobre a coligação de esquerda, Marques Mendes avisou que "o PSD não volta mais ao poder se não tiver maioria absoluta." Isto porque, pelo menos no imediato, "não haverá governos minoritários".

Durante a intervenção, Mendes apresentou várias propostas. A maior novidade do que defende foi mesmo a necessidade de aumentar os vencimentos governantes, de forma a conseguir que "os melhores entrem a política". Para Mendes "o barato sai caro", pois "paga-se pouquinho e depois vai-se ao segundo, ao terceiro ou ao quarto que aceita". O ex-líder do PSD - que substituiu a maestrina Joana Carneiro (no programa inicial) - disse mesmo que "Passos Coelho certamente que teve ministros que foram terceiras ou quartas escolhas e secretários de Estado que foram sextas ou sétimas escolhas". Falou ainda de "um número dois que António Costa" queria ter no governo, mas não conseguiu porque se ganha pouco.

Mendes destacou, no entanto, que este novo estatuto remuneratório dos políticos que propõe (maiores salários) deve consagrar uma separação entre membros do governo e deputados. Isto porque "os governantes têm uma maior responsabilidade, exercem em exclusividade e são mais escrutinados".

Aumentar os salários dos políticos foi só uma das cinco propostas que apresentou para melhorar a qualidade da política. Mendes quer também que sejam introduzidos os círculos uninominais, de forma a que os deputados sejam escolhidos com o mesmo critério e exigência que os autarcas. Isto porque atualmente, "para satisfazer alguns apetites" acabam por ser eleitos "deputados menos competentes".

Outra das propostas foi potenciar os entendimentos, os tais consensos entre os partidos que também é uma bandeira do Presidente da República. Mendes defende que "em Portugal perdeu-se nos últimos anos a capacidade de fazer entendimentos" em áreas como a justiça, a administração interna ou a educação. Para isto, avisa Mendes, é preciso "um pouco mais de humildade e menos de egos" na política. Marques Mendes propôs ainda que se combata o "clientelismo na função pública, separando os cargos de confiança política dos cargos estritamente de competência técnica", bem como a criação de uma comissão de ética na política que seja composta por senadores e não por deputados.

Já na resposta a perguntas de alunos, Marques Mendes falou ainda da gestão do dossier da Caixa Geral de Depósitos por parte do governo, voltando a reiterar que é favorável à comissão de inquérito. E denuncia: "Há muita do PS e do PSD que não quer a investigação à CGD".

Marques Mendes foi fazendo várias piadas (até sobre a própria altura: "para pequeno, já basto eu", disse), voltando a espaços aos afetos. Aí aproveitou para contar que tinha falado através de um computador com uma criança que pede à mãe para ver o seu comentário na televisão. "Aposto que a mãe lhe diz: se não comeres a sopa ponho-te a ver o Marques Mendes."

Em onda de afetos, Marques Mendes deixou, até agora, Santana Lopes sem resposta. O antigo primeiro-ministro tinha ontem levantado suspeitas por Marques Mendes o defender como candidato à câmara de Lisboa: "Porque é que agora Marques Mendes defende que seja eu o candidato?"

A pergunta de um aluno fez Mendes regressar a 2005, quando afastou Isaltino Morais e Carmona Rodrigues das listas do PSD por serem arguidos em processos judiciais. O ex-líder do PSD continua hoje a defender que "pessoas que têm casos sérios de justiça não devem ser candidatos e, se tiverem nos cargos, devem sair."

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