Meia hora com Merkel para ganhar a confiança de Berlim

Pouco mais de meia dúzia de horas para três encontros. Marcelo leva para Portugal "compreensão" e "solidariedade"

Marcelo não trouxe da Alemanha um aliado assumido contra as sanções de Bruxelas nem palavras de Merkel (não falou após o encontro), mas ouviu elogios do homólogo alemão Joachim Gauck, e ainda fez declarações das que sossegam mercados: "Não [há] preocupação" de Berlim com Portugal.

A ida de Marcelo à Alemanha foi uma verdadeira visita-relâmpago. Começou com um raio e um trovão, precisamente na altura em que Marcelo Rebelo de Sousa chegava à chancelaria. "Um bom augúrio", comentou a anfitriã, passava pouco das 14.00. Foi uma reunião curta, pouco mais de meia hora, mas o Presidente português levava os temas a abordar bem estudados.

Angela Merkel não falou nem antes nem depois. Chuva à entrada, sol à saída. E se o tempo ajudou, não se sabe, mas o Chefe do Estado acabou por confirmar que "correram muitíssimo bem as conversas, em particular a conversa com a chanceler, melhor do que eu teria esperado".

Não houve uma garantia clara de apoio na altura de isentar Portugal de sanções de Bruxelas, ou pelo menos Marcelo não o revelou, mas sai do encontro com "a noção de que há uma compreensão muito clara do que se passa em Portugal e ficou reforçada essa compreensão depois das conversas havidas". Compreensão sim, preocupação não, sublinha.

O Presidente não quis adiantar os detalhes, nem se a recapitalização da CGD foi um dos temas da conversa: "Não vou dizer exatamente o que falámos."

"Compreensão" à tarde, "solidariedade" de manhã. No Palácio de Bellevue, Marcelo teve quase um ensaio. Começou em alemão para agradecer a forma como foi recebido, continuou em português para sublinhar os esforços que têm sido feitos nos últimos quatro anos. "Foi um caminho difícil, um caminho complexo, um caminho exigente e eu fico grato, como representante das portuguesas e dos portugueses, pelo facto de o senhor presidente alemão traduzir o reconhecimento desse esforço, é mais uma prova de solidariedade."

Joachim Gauck elogiou a coragem política para implementar os programas de austeridade e sublinhou que o Orçamento aprovado em Portugal "é uma oferta de estabilidade". E sanções? Devem ou não ser aplicadas? Um suspiro do presidente, sorrisos dos jornalistas. Não foi em alemão mas também precisou de tradução. Gauck não quer dar conselhos às instituições europeias nem ultrapassar os poderes que lhe foram atribuídos, ao governo o que é do governo, à Comissão Europeia o que é da Comissão Europeia.

Além do presidente alemão, Marcelo esteve também reunido com o presidente do Bundestag (parlamento federal alemão), Norbert Lammert, e com Angela Merkel. "Todos os encontros correram muito bem." O dia começou com os hinos de Portugal e da Alemanha, e acabou com reggae, tocado num jardim, em frente ao Altes Museum, que ainda teve tempo de visitar.

Um papel "supletivo"

Ainda antes da chegada a Berlim foi o próprio Presidente da República que antecipou que o assunto da sustentabilidade da banca viria à baila na conversa com a chanceler alemã. Mas o efeito deste encontro será mais simbólico do que determinante.

O antigo vice-presidente da Caixa Geral Depósitos António Nogueira Leite admite que o encontro pode "trazer um ambiente político de uma certa compreensão, mas tem um valor limitado", uma vez que "o assunto já foi discutido ao mais alto nível, pelo primeiro-ministro".

Para Nogueira Leite o ato de Marcelo tem relevância política "mas no fim do dia não são estes encontros que facilitam que são determinantes". O economista e antigo conselheiro de Passos Coelho lembra que o Presidente tem um "papel supletivo", uma vez que "a nível constitucional não tem nada que ver com a estabilidade da banca". O que não significa que não se preocupe com a situação no seu papel de "diplomacia concertada com o governo".

Para o comentador político e ex--dirigente do PS Pedro Adão e Silva a ida à Alemanha e os dossiês definidos por Marcelo demonstram uma "estratégia concertada na frente externa" e uma "manobra nacional" que une Presidente e primeiro-ministro "perante a Europa".

Quanto à ação de Marcelo, Adão e Silva considera que o Chefe do Estado "está a fazer uma reinterpretação daquele que é o papel do Presidente da República, reforçando o semipresidencialismo", até por oposição àquela que era a postura do antecessor, Cavaco Silva.

Nogueira Leite concorda que Marcelo "está a fazer muito mais do que cortar fitas e está a tentar ajudar o país onde é importante

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