"Medo todos temos. Aprendemos a dominá-lo"

O Grupo de Forcados Amadores de Santarém comemora 100 anos de atividade sem interregnos. São os primeiros amadores e assim querem continuar. Gabam-se de ter transformado a pega num espetáculo.

Quarenta e quatro anos separam os reinados de Carlos Empis e de Diogo Sepúlveda à frente do Grupo de Forcados Amadores de Santarém. Não, não falamos de realeza, mas também na tauromaquia importa a tradição familiar. Os dois cabos garantem que as suas épocas têm maiores diferenças fora do que dentro da praça. As principais semelhanças são os valores e a técnica. Comemoram hoje 100 anos e a pegar toiros Murteira Grave na Praça de Touros de Santarém.

"A vida não é estática, há sempre uma evolução, mas a base é igual, os valores, o orgulho. Eu apanhei o 25 de Abril e houve toda uma evolução, nomeadamente em relação às mulheres, que agora estão muito mais presentes. Talvez haja mais liberdade, naquela altura os cabos eram quase uma instituição", compara Carlos Empis, 66 anos, agricultor, o 5.º cabo do grupo.

Elas estão mais presentes nas corridas de toiros, mas sobretudo nos jantares após os espetáculos, o momento de descompressão. Eles já não são "personas não gratas" como no início do século XX, quando formaram o grupo, mas também não são as celebridades em que depois se transformaram.

"Havia o fado, os touros e o futebol, quem representava o principal grupo de forcados, que era o de Santarém, era uma figura pública, hoje há uma relativização. A tauromaquia foi perdendo importância no que representa para a sociedade", justifica Gonçalo Cunha Ferreira, 47 anos, o 7.º cabo. Sempre viveu entre o Brasil e Portugal, atualmente em São Paulo, regressando para as celebrações do centenário. É advogado e dirigiu o grupo entre 1996 e 2002, em 20 anos de forcado. Lembra-se em particular de uma atuação em Arles, França. À saída da praça, ouviu uma criança dizer para a mãe, talvez imbuída do espírito da arena onde atuaram, um anfiteatro romano: "Mama, mama, j"ai touché un gladiateur!" (toquei num gladiador).

Pedro Graciosa, 48 anos, engenheiro agrónomo, não conheceu tanta fama mas sentia a diferença quando ia a Santarém, cidade em que não vive como a maioria dos forcados do grupo. Foi o 8.º cabo e recorda a história de uma idosa a quem deu passagem para entrar numa farmácia. Ela recusou: "Não, faça o favor de entrar senhor cabo."

Carlos Empis, Gonçalo Ferreira, Pedro Graciosa e Diogo Sepúlveda são os últimos cabos do grupo em nove desde 1915. Falta Carlos Grave, o 6.º e que comandou durante 15 anos. Junta-se-lhes Lopo Lopo de Carvalho, 29 anos, biólogo, ativo na equipa principal e o 5.º cabo do Grupo do Futuro, os juniores de Santarém.

São os juniores que representam o grupo no festival taurino da festa dos 100 anos, hoje às 12.30, na Praça de Santarém, a que se segue um almoço e, às 17.00, uma corrida com João Moura, Joaquim Bastinhas, António Ribeiro Telles, Rui Salvador, Luís Rouxinol e Vítor Ribeiro. Um século de vida e que é contado em Os Primeiros 100 Anos, de Maria João Lopo de Carvalho, livro ontem apresentado. Mario Vargas Llosa pertence à comissão de honra do centenário.

Os cinco cabos encontraram-se com o DN na Praça de Touros de Santarém para falar da vida de forcado. "É um desafio pessoal, dominar o medo, dominar o touro, é a entrega, a participação...", tenta explicar Gonçalo Ferreira.

"Medo todos temos. Aprendemos a dominar o medo", diz Carlos Empis. Acrescenta: "Quantas vezes na nossa vida, na nossa profissão, não temos medo? Na arena, não só temos de enfrentar o touro como as pessoas. Temos 17,18 anos, pensamos que somos os maiores e, em frente a um touro, não somos ninguém. Levamos pancada, caímos e levantamo-nos."

Pedro Graciosa tem bem presentes as palavras do pai, também ele forcado tal como três irmãos de Pedro. "No desporto qualquer pessoa se pode aleijar por azar, aqui só não nos aleijamos por sorte."

Todos têm familiares que vestem ou vestiram jaqueta do grupo, mas o recorde deverá estar em Diogo Sepúlveda, que começou aos 15 anos no Grupo do Futuro, fundado em 1970. "Na minha família já pegaram 15 pessoas, entre as quais o meu pai." É o 9.º cabo, desde 2008. Tem 32 anos e é enólogo.

Gonçalo e Diogo preferem ir à cabeça (caras) na fila dos oito forcados que pegam cada touro. Fardados estão 18 em cada corrida, embora, por regra, todos os ativos estejam presentes. "Também é assim que se conquista um lugar", sublinha Paulo Graciosa, ele que foi cabo ao terminar a carreira, quando "já só ia às cortesias (o desfile de todos os participantes no espetáculo).

Todos os cabos têm lugar privilegiado na história do grupo, também no museu da Praça de Touros de Santarém. Dizem de Pedro Graciosa que se distinguiu pelo fortalecimento do "espírito de união, de solidariedade e de abnegação".

O sorteio dos touros era o melhor momento da corrida enquanto cabo: "Foram poucas as vezes em que não decidia logo ali quais eram os forcados que iam fazer a pega de cada touro". Já na altura era o elemento de peso na equipa. "Numa corrida real em Évora houve um prémio para a melhor pega. O prémio era o peso do forcado em vinho e eu venci. Ficaram a dever-me algumas garrafas", brinca.

Um bom ou mau touro não depende da raça ou do ferro, nem do tamanho, garantem os forcados, mas da atitude. Gostam de quem lhes dê luta. Entram depois do peão de brega (quem posiciona o animal), comandados pelo homem de barrete verde (forcado de cara), seguindo-se os seis ajudas e o rabejador. A Praça de Touros do Campo Pequeno é emblemática, só comparável em importância à que é sede do grupo, Santarém. Esta tem 52 metros de diâmetro, o que faz dela a maior do país, o que complica. Grandes distâncias fazem que o touro embale e avance com mais força, cabe ao forcado de caras controlar o embate. Isto depois do "cite", que "é a conversa que tem com o touro para que este se entregue", explica Diogo Sepúlveda. Quando sente que o animal está preparado, "manda-o vir". "Ei touro lindo." Aproveita o peso do touro para o desequilibrar."

É a arte de pegar que os forcados de Santarém garantem ter sido introduzida por D. Fernando Mascarenhas, o 2.º cabo do grupo, um "fidalgo de raiz". E também a forma de se comportarem, com respeito e educação, a base dos valores que tantos apregoam, a que juntam outros como a solidariedade e a amizade. Também a fidalguia passou de geração em geração? "Somos de facto uma elite, não há nenhum problema nisso. Há todo um estilo de pessoa e de educação que se transmitiu", responde Gonçalo. Pedro garante que "não é preciso ser bom forcado para ser admitido no grupo, é preciso ser boa pessoa e ter valores".

Carlos Empis fez parte da formação entre 1968 e 1981. Rabejador, e muitos foram os elogios que recebeu na pega de cernelha (o cernelheiro agarra o touro de lado e o segundo forcado pega o rabo), fazendo parelha com Joaquim Pedro Torres. Esteve dois anos à frente do GFA de Santarém, cargo para o qual foi eleito pelos pares, tendo o cabo cessante tem um papel preponderante na escolha. Conta uma das muitas partidas e histórias que as corridas lhe proporcionaram.

"Na altura do 25 de Abril havia as barricadas. Fomos pegar à Figueira da Foz e jantámos lá. Havia só a ponte velha e, no regresso, decidimos fazer uma barricada. As pessoas perguntavam o que se passava, dizíamos que havia uma revolução em Lisboa, perguntávamos se não tinham armas e mandávamos seguir." Risada geral.

Diogo ilustra a dedicação e a amizade que têm ao grupo com um episódio de há dois anos. "Tivemos um mês de agosto cheio, fizemos quatro corridas em dois dias. Num dos dias era uma na Amareleja e outra na Abiul, a cinco horas de distância, tivemos de nos dividir em dois. As duas corridas foram muito difíceis e, no dia seguinte, encontrámo-nos em Alcochete. Parecia que não nos víamos há um ano. Foi uma corrida de pintura."

Lopo Lopo de Carvalho entrou para o grupo em 2003 e ocupa-se particularmente dos aspirantes à equipa principal. "Representam o grupo de Santarém quando estes não podem estar presentes. O que faço é abrir-lhes a porta devagarinho e com os valores dos mais velhos. Tento sempre que percebam pelo que têm de passar", explica. Elege a primeira pega da corrida como o momento mais marcante do espetáculo. "Uma corrida que comece bem e termine com chave de ouro é a cereja no topo do bolo." Lembra um episódio que retrata o espírito de quem salta para a arena. "Um forcado lesionou-se na pega e vinha na maca já com o colarinho à volta do pescoço. Só que o touro investiu e os bombeiros largaram a maca no meio da praça, ele tirou o colarinho e pegou o touro."

Quando é que um forcado decide acabar a carreira? Quando deixa de saber dominar o medo, quando já tem filhos e as responsabilidades são outras, quando sente que não é tão capaz. Pedro Graciosa lembra esse dia, estava a mulher grávida do segundo filho. "Foi numa pega de cernelha, houve várias tentativas e fui chamado para substituir o rabejador. Fui, mas senti que já não estava física e mentalmente capaz." Não fez mais pegas.

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