Marques Mendes diz que Presidente não será contrapoder

Conselheiro de Estado diz que Marcelo está a ajudar a reconstruir emocionalmente o país e que Costa está "fragilizado".

Marques Mendes disse este domingo, na SIC, que o Presidente da República não passará a ser um contrapoder ao Governo depois da sua declaração ao país sobre os incêndios. O conselheiro de Estado garantiu que Marcelo Rebelo de Sousa continuará a ser o "fiel da balança", mas mostrou que é capaz de fazer "ruturas".

Mendes considerou que o Chefe do Estado surpreendeu tudo e todos, uniu e reconfortou o país, interpretou o sentimento nacional perante a tragédia e obrigou o governo a um recuo que já tardava, no que diz respeito à demissão da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa. "Convém que o Governo não se esqueça no futuro desta faceta presidencial", disse o comentador político. De Marcelo disse ainda que está dar uma contribuição notável para a reconstrução emocional do país, que está numa crise de confiança no Estado, nas instituições e na Proteção Civil.

Que este foi o momento mais crítico da vida política de António Costa, Marques Mendes não tem dúvidas. Até porque, argumentou, o primeiro-ministro "falhou", não mostrou capacidade de liderança. de direção e de comando. Primeiro porque tem o "hábito de desvalorizar as questões"; depois porque não levou a sério os avisos do Presidente desde Pedrógão; e finalmente porque revelou "insensibilidade social".

Mas estará António Costa acabado politicamente, terá posto em risco a maioria absoluta com que sonhava? Mendes entende que "está fragilizado", vai demorar tempo a recuperar e dificilmente o conseguirá na totalidade. Ainda assim, sustentou, tem condições e tempo para dar a volta.

Marques Mendes desvalorizou a moção de censura do CDS, que será discutida e votada amanhã no Parlamento, porque a comunicação ao país do Presidente da República matou o seu efeito. Mas também disse que não será um meio de reforçar o Governo. Quanto aos novos ministros, o antigo líder do PSD considerou que se trata de uma "remodelação frouxinha", mas as medidas aprovadas Conselho de Ministros são "positivas e na direção certa"

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.