Marisa estende a mão a Costa e avisa Bruxelas que "não pode fazer com Orçamento o que fez com Banif"

Candidata volta a dizer que Portugal precisa de Presidente que defenda acordos de esquerda e recusa imposições financeiras vindas da Comissão Europeia

Marisa Matias não quer ouvir falar de grilhões financeiros nem admite que seja a Comissão Europeia a sugerir, indicar ou impor as opções orçamentais para este ano. No dia em que o esboço do Orçamento do Estado deve seguir para Bruxelas, a candidata à Presidência da República voltou a sublinhar que está do lado do Governo PS e da maioria parlamentar e defendeu que o "não" à austeridade tem de ser definitivamente entendido pelas instituições comunitárias.

Esta sexta-feira, derradeiro dia da campanha presidencial, a candidata apoiada pelo BE aproveitou a visita à feira de Vila do Conde para deixar claro que não teme que as previsões de um crescimento de 2,1% do PIB e a redução do défice para 2,6% possam fazer tremer medidas acordadas entre António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. E, uma vez mais, sinalizou que caso chegue a Belém não hesitará em estender a mão ao primeiro-ministro.

"Não temo nada isso. Precisamos mesmo é de ter uma maioria parlamentar, um Governo e uma Presidente da República que defendam os acordos que foram feitos entre o Governo de António Costa, do primeiro-ministro António Costa, e a maioria parlamentar, que começam a repor alguns direitos daqueles que estão garantidos na Constituição. Precisamos de uma Presidente também que os apoie para dizer que em Portugal manda quem elegeu quem os governa e não Bruxelas", observou a eurodeputada, já depois do mergulho na feira onde voltou a receber muitas palavras de incentivo, promessas de voto e o já clássico clamor feminino que tem encontrado na estrada de que está na hora de uma mulher se tornar a primeira figura do Estado.

Marisa prosseguiu e, de olhos postos em Bruxelas e Berlim, endureceu o tom dos recados: "Precisamos de uma vez por todas de passar essa mensagem de que em Portugal quem manda são as pessoas, a maioria das pessoas, que elegeram este Governo e Bruxelas não pode, de maneira nenhuma, contrariá-lo."

"Bruxelas não pode fazer com o Orçamento o que fez com o Banif, não podemos conhecer cartas que dizem 'vendam lá ao Santander e nem sequer pensem noutras opções'", atirou a rematar, fazendo alusão à notícia do semanário Expresso de que a presidente do Conselho de Supervisão do BCE, Danièle Nou, enviou um e-mail a Mário Centeno, a 19 de dezembro, ordenando a venda do banco ao Santander.

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