"Temos de cicatrizar feridas destes tão longos anos de sacrifícios"

Costa e Portas elogiam Marcelo. PCP e BE criticam. "Não terá uma Presidência da República simples", prevê Passos

O Presidente da República reconheceu hoje que Portugal tem pela frente "tempos e desafios difíceis", considerando que é necessário sair do clima de crise e ir mais longe na qualidade da educação, saúde, justiça e do próprio sistema político.

Lançando alguns reptos que reconheceu serem "difíceis, complexos" e "envoltos em incógnitas", o Presidente da República defendeu a necessidade de sair do clima de crise e do país ir "mais longe com realismo mas visão de futuro", na capacidade e na qualidade das Educação e Ciência, da Saúde, da Segurança Social, da Justiça e da Administração Pública e do próprio sistema político e "sua moralização e credibilização constantes, nomeadamente pelo combate à corrupção, ao clientelismo, ao nepotismo".

Leia aqui o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa

"Temos, para tanto, de não esquecer, entre nós como na Europa a que pertencemos, que, sem rigor e transparência financeira, o risco de regresso ou de perpetuação das crises é dolorosamente maior, mas, por igual, que finanças sãs desacompanhadas de crescimento e emprego podem significar empobrecimento e agravadas injustiças e conflitos sociais", sublinhou, apontando também a necessidade de cicatrizar as feridas dos "tão longos anos de sacrifícios" que fragilizaram o tecido social e onde se perderam consensos de regime.

"Tudo indesejável, precisamente em anos em que urge recriar convergências, redescobrir diálogos, refazer entendimentos, reconstruir razões para mais esperança", disse, notando igualmente a necessidade de Portugal ser fiel aos compromissos a que se vinculou, nomeadamente com a União Europeia, a CPLP e a Aliança Atlântica.

Admitindo que estes reptos obrigam a "trabalhos forçados", Marcelo Rebelo de Sousa apontou os próximos cinco anos como tempos "de busca de unidade, de pacificação, de reforçada coesão nacional, de encontro complexo entre democracia e internacionalização estratégica dentro e fora de fronteiras e entre crescimento, emprego e justiça social de um lado, e viabilidade financeira do outro, de criação de consonâncias nos sistemas sociais e políticos, de incessante construção de uma comunidade convivial e solidária".

"Nunca deixando morrer a esperança. Nunca esquecendo que o que nos une é muito mais importante e duradouro do que aquilo que nos divide. Persistindo quando a tentação seja desistir. Convertendo incompreensões em ânimo redobrado. Preferindo os pequenos gestos que aproximam às grandes proclamações que afastam. Com honestidade. Com paciência. Com perseverança. Com temperança. Com coragem. Com humildade", vincou.

Presidente de "todos sem exceção"

O novo chefe de Estado prometeu que será o Presidente de "todos sem exceção", do princípio ao fim do mandato, sem querer ser mais do que a Constituição permite ou aceitar menos do que a Lei Fundamental impõe.

Um Presidente que não é nem a favor nem contra ninguém. Assim será politicamente, do princípio ao fim do seu mandato

No discurso na cerimónia em que tomou posse como Presidente da República, que decorreu na Assembleia da República, e que foi aplaudido no final pelas bancadas de PSD, PS e CDS de pé. O deputado único do PAN aplaudiu sentado, enquanto as bancadas do PCP, BE e PEV não aplaudiram o discurso do novo Presidente da República.

Marcelo acrescentou que será socialmente a favor do jovem que quer exercitar as suas qualificações e procura emprego, da mulher que espera ver mais reconhecido o seu papel num mundo ainda tão desigual, do pensionista ou reformado que sonhou com um 25 de Abril que não corresponde ao seu atual horizonte de vida, do cientista à procura de incentivos sempre adiados ou do agricultor, comerciante e industrial, que, dia a dia, sobrevive ao mundo de obstáculos que o rodeiam.

"De todos estes e de muitos mais", declarou, falando igualmente do trabalhador por conta de outrem e do trabalhador independente, que pagam os impostos que sustentam os sistemas que protegem os que mais sofrem e das instituições que cuidam de muitos.

Sem promessas fáceis, ou programas que se sabe não pode cumprir, mas com determinação constante. Assumindo, em plenitude, os seus poderes e deveres

Assegurando que não quer "ser mais do que a Constituição permite", nem "aceitar ser menos do que a Constituição impõe", Marcelo Rebelo de Sousa prometeu que, nos próximos cinco anos será "um servidor da causa pública".

O Presidente da República será, pois, um guardião permanente e escrupuloso da Constituição e dos seus valores

"De pessoas de carne e osso. Que têm direito a serem livres, mas que têm igual direito a uma sociedade em que não haja, de modo dramaticamente persistente, dois milhões de pobres, mais de meio milhão em risco de pobreza, e, ainda, chocantes diferenças entre grupos, regiões e classes sociais", disse, numa passagem do discurso bastante aplaudida, onde falou igualmente do imperativo de lutar por mais justiça social e do dever de continuar a assumir o mar como prioridade nacional.

Marcelo Rebelo de Sousa fez ainda referências ao poder político democrático, sublinhando que, "nos seus excessos dirigistas", não deve impedir "o dinamismo e o pluralismo de uma sociedade civil", mas também não pode "demitir-se do seu papel definidor de regras, corretor de injustiças, penhor de níveis equitativos de bem-estar económico e social, em particular, para aqueles que a mão invisível apagou, subalternizou ou marginalizou".

Citando Miguel Torga, Marcelo Rebelo de Sousa terminou a sua intervenção com apelos à autoestima dos portugueses, considerando que os portugueses minimizam aquilo que valem.

"Valemos muito mais do que pensamos ou dizemos. O essencial, é que o nosso génio - o que nos distingue dos demais - é a indomável inquietação criadora que preside à nossa vocação ecuménica. Abraçando o mundo todo", declarou.

Leia o "Minuto a minuto" do dia da tomada de posse de Marcelo

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