Marcelo. "Não há a temer qualquer tipo de crise no Orçamento"

Numa altura de crescente tensão entre os partidos que sustentam o governo, Presidente da República acredita no "bom senso". PCP respondeu a "desabafos" do Presidente da República: "escusam de pressionar"

Foi um misto de apelo e de aviso. Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se ontem às negociações para o Orçamento do Estado de 2019 para dizer que haverá "bom senso" entre os partidos para que não se crie uma crise política, numa altura em que a União Europeia vive tempos conturbados.

Nos Açores, onde decorrem as comemorações oficiais do 10 de junho, o Presidente da República sublinhou que "todos sabem como este momento europeu é um momento difícil, que obriga a decisões difíceis, que são complicadas para todos, também para Portugal". Ora, "ninguém quer juntar às complicações que vêm de fora complicações de dentro ", adverte o chefe do Estado. E "esse bom senso faz com que não haja a temer qualquer tipo de crise ou qualquer tipo de problema com o Orçamento de Estado" de 2019, conclui Marcelo Rebelo de Sousa.

Declarações que surgem numa altura de crescente crispação entre os partidos que sustentam o governo liderado por António Costa. E que não tardaram a ter resposta. Poucas horas depois, o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, reagia ao que qualificou como "desabafos" do chefe do Estado, recusando pressões sobre a bancada comunista. "Em relação a esses desabafos do senhor Presidente da República: que fique claro que o PCP nunca assinou nem assinará cheques em branco. Escusam de pressionar porque o PCP, de uma forma autónoma, com as suas propostas, com a sua opção política, decidirá com independência", respondeu Jerónimo.

O contexto era simbólico do atual momento político - o líder comunista falava em Lisboa, na manifestação promovida pela CGTP contra a precariedade e pelo aumento dos salários, e em que ficou já anunciado um protesto junto ao parlamento a 6 de julho, data em que serão debatidas as alterações à lei laboral.

O elogio às Forças Armadas

Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se também à intervenção das Forças Armadas na República Centro-Africana, sublinhando que são um "motivo de orgulho" para Portugal. Integrados num contingente ao serviço da ONU, os militares portugueses têm estado envolvidos em sucessivas situações de confronto com milícias locais.

"Sempre que foi necessário intervir, intervieram a tempo e muito bem e em muitos casos foram mesmo a última instância de intervenção, o que é uma tentação enorme para passarem a ser a primeira instância de intervenção", sublinhou Marcelo, à margem das declarações oficiais do 10 de junho. E disse ainda estar "orgulhoso" por ter ouvido elogios de outros chefes de Estado ao desempenho do contingente nacional

As Forças Armadas devem voltar hoje a pontuar o dia do chefe do Estado, que faz em Ponta Delgada o discurso oficial do 10 de junho, assistindo também à tradicional cerimónia militar. Marcelo viaja depois para os Estados Unidos, acompanhado do primeiro-ministro, António Costa (que se juntou às comemorações ontem à noite).

Não mergulhar nos Açores? "É ofensivo"

Marcelo aproveitou uma pausa na agenda para ir a banhos em Ponta Delgada, numa piscina urbana com água do mar. "Vir aos Açores e não mergulhar é ofensivo", disse o Presidente, antes de um banho de 15 minutos, seguido de dezenas de fotografias com os muitos banhistas que aproveitavam a tarde de sol. E a temperatura da água, "nos 21, 22 graus", acima dos 14 com que foi a banhos "nas últimas vezes" no continente.

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