Marcelo "esfria", à distância, tensão entre esquerdas e governo

Sob o olhar enigmático da Esfinge, o Presidente disse que daqui a algum tempo "Já ninguém fala nisso". E fechou a visita com homenagem a vítimas de atentado contra cristãos copta.

De regresso a Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa participa , esta manhã, nas Cerimónias de Comemoração do Dia do Combatente, do centenário da Batalha de La Lys e na 82.ª romagem ao Túmulo do Soldado Desconhecido, no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha.

Em casa, o Presidente já pode pronunciar-se sobre os últimos desenvolvimentos na relação entre os partidos da esquerda parlamentar e o Governo socialista, mas esta sexta-feira, à sombra da Esfinge, no Egito, Marcelo já tratou de desvalorizar a polémica sobre o Programa de Estabilidade.

Ainda embalado pela emoção da Antiguidade, ali tão presente, o Chefe de Estado sublinhou que, embora tenha por hábito não comentar assuntos internos, no estrangeiro, "sentindo o que sentimos, percebemos que é tudo relativo, muito relativo"

A questão colocada pelos jornalistas na reta final da visita ao Cairo, pretendia aferir o modo como, à distância, o Presidente segue o calor do debate entre o Bloco de Esquerda , o PCP e o Governo sobre a inscrição da meta de 0,7% de défice para 2018 no Programa de Estabilidade e o que se ouviu de Marcelo Rebelo de Sousa foi um "banho de gelo" enviado do tórrido deserto do Saara.

Inspirado pela Antiguidade, o Presidente lembrou que "aquilo que parece muito importante, muito grave num dia, numa semana, num mês, daí a uma semana, um mês, seis meses, já ninguém fala disso". Estava dado o recado para Lisboa, em tom de desvalorização máxima e o Presidente regressou aos últimos momentos de uma viagem que considerou de "redescoberta" entre Portugal e o Egito.

"É um mundo que está à nossa frente", disse Marcelo explicando que escolheu fazer a declaração final no local de onde se avista a Esfinge e as pirâmides de Gizé, porque é "com base no passado que se constrói o futuro".

O Presidente adiantou que, em breve, o ministro egípcio das Antiguidades, que o acompanhou durante a visita, irá a Portugal, a convite do ministro da Cultura, e defendeu que é preciso preencher a lacuna de não existirem, neste momento, arqueólogos portugueses a trabalhar no Egito.

Marcelo diz que ficou com vontade de "vir mais vezes", e questionado se será neste ou num próximo mandato, o Presidente diz que será ainda no decurso do atual, mantendo o enigma sobre uma eventual recandidatura à Presideência.

A visita ao cenário histórico foi feita "contra-relógio", com a comitiva a surpreender os turistas e os vendedores ambulantes que, reconhecendo o Presidente português, logo pronunciaram expressões, como "viva presidente" e "dinheiro". Marcelo acabou por comprar algumas recordações, como três miniaturas de pirâmides mas pediu dinheiro emprestado porque "tinha deixado a carteira no outro fato".

O nome de Cristiano Ronaldo foi citado pelo Presidente que ouviu também referência ao nternacional egípcio Mohamed Salah, avançado do Liverpool, que se tornou o primeiro jogador a vencer por três vezes na mesma época o prémio de melhor jogador do mês.

Se, noutra escala, Cristiano Ronaldo já faz também parte da história, Marcelo considera que é cedo para traçar o legado que deixa na Presidência. "até parece mal, neste lugar histórico, falar de uma realidade tão pequenina", disse o Presidente.

Um dos momentos de maior simbolismo da visita de Estado ao Egito foi a homenagem, de olhos fechados e cabeça baixa, que o Presidente prestou às vítimas do atentado, no ano passado, contra a igreja de S. Pedro e S. Paulo, na catedral Copta no Cairo, que fez 29 mortos.

Marcelo Rebelo de Sousa depositou no memorial um ramo de flores que lhe foi entregue por Susana, uma menina que hoje tem dez anos e foi ferida mas sobreviveu ao atentado à bomba, em 11 de dezembro do ano passado. Um ataque reivindicado pelo autoproclamado grupo Estado Islâmico.

O Chefe de Esatado português e o Papa de Alexandria e Patriarca da Sede de São Marcos, Tawadros depositaram flores e guardaram silêncio em frente ao memorial com as fotos das 29 vítimas, "mártires da Igreja de S. Pedro e S. Paulo".

O discurso da tolerância de diferentes credos e doutrinas foi uma das marcas que Marcelo Rebelo de Sousa quis deixar nesta visita e que, de acordo, com informações da Presidência da República, terá sido muito bem recebido, na Universidade de al-Azhar, onde esteve o Presidente.

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