Marcelo desafia a direita a encontrar novas soluções

Presidente sublinha que o país "exige estabilidade política". Para o PSD, no entanto, a atual situação "nada tem de normal"

Dificilmente poderiam ter sido mais contrastantes os discursos do Presidente da República e do PSD ontem na sessão solene parlamentar que assinalou o 42.º aniversário do 25 de Abril.

Enquanto Marcelo Rebelo de Sousa reforçou os apelos ao apaziguamento na política ("unamo--nos no essencial", "mais instabilidade [e] mais insegurança não abre caminhos, fecha horizontes", "o estimulante pluralismo político não impede consensos setoriais de regime"), Paula Teixeira da Cruz pôs gasolina na fogueira acusando a esquerda de ter práticas com "odor ao salazarismo mais bafiento", além de mostrar "arrogância no exercício do poder". O país, disse, está "a assistir ao discurso da intolerância, à desonestidade intelectual nos argumentos e justificações e até às atitude persecutórias dos últimos tempos, incluindo a criação de conflitos artificiais por razões, em grande parte, de revanche pessoal, com assalto à administração pública ou a reguladores independentes". "Há falta de transparência na vida pública. A concertação social foi substituída por um acordo a três [partidos] na penumbra. Há falta de transparência no processo político e de escrutínio nesta Assembleia [da República]", acusou a ex-ministra da Justiça. Naquele que foi, de longe, de todos os discursos ontem ouvidos no Parlamento o mais duro com a governação, a deputada do PSD voltou implicitamente à tese segundo a qual a atual solução de apoio ao governo é ilegítima (porque foi a coligação PSD+CDS que venceu as legislativas). Pretende-se hoje, disse, "dar um aspeto de normalidade a uma situação que nada tem de normal!"

A direita que se adapte

Fazendo questão de recordar que não há ninguém que faça sombra à sua legitimidade política (o mandato do PR "é mais longo e mais sufragado do que os mandatos partidários"), Marcelo Rebelo de Sousa elencou as matérias em que espera "consensos setoriais de regime": Saúde, "vitalização do sistema político", "estabilidade do sistema financeiro", Justiça e Segurança Social.

Depois, desafiou muito claramente o PSD e o CDS a, de uma vez por todas, habituarem-se à ideia de que o tempo é outro, devendo adaptar as suas prioridades a esse tempo novo. Aqueles que "devem contestar", disse, que o façam "com firmeza", mas também "com noção de que o tempo não muda convicções mas pode alterar ou condicionar soluções".

Para o Presidente, o país já percebeu que "há neste momento dois caminhos muito bem definidos e diferenciados quanto à governação [e] ao modo de se atingir as metas nacionais" - e "para uns a governação atual é promissora e para outros um logro".

Mas, acrescentou, "Portugal não pode nem deve continuar a viver sistematicamente em campanha eleitoral". E o povo - "que é a verdadeira origem do poder" - "exige estabilidade política, crucial para a estabilidade económica e social", sendo isso "um sinal de pacificação democrática que deve reconfortar os portugueses". "Troquemos as emoções pelo bom senso", recomendou.

Marcelo desautorizou o discurso de combate do PSD, mas esse não foi ontem o único problema dos sociais-democratas.

A sessão solene serviu também para voltar a exibir a divisão dentro da antiga coligação PSD+CDS suscitada pelos programas de Estabilidade e Nacional de Reformas (documentos do governo que amanhã serão discutidos no plenário, sendo depois enviados para a Comissão Europeia).

Procurando afirmar o CDS como o partido líder da oposição, Nuno Magalhães estabeleceu um paralelismo entre o facto de o seu partido ter sido o único em 1976 a votar contra a Constituição e de ser agora o único a querer que se vote a substância dos dois documentos governamentais. "Há 40 anos, o CDS ficou sozinho na votação da então nova Constituição. Mas o tempo deu-nos razão. Não sei se ficaremos sozinhos ou acompanhados nesta proposta e neste pedido de votação dos planos de estabilidade e reformas. Mas sei que hoje, como então, muitos portugueses nos compreendem."

Insistindo nos temas tradicionais do CDS nesta ocasião, saudou por igual os militares que fizeram o 25 de Abril de 1974 e os que fizeram o 25 de Novembro de 1975, data que consolidou a via parlamentar do regime terminando com a via revolucionária.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.