Marcelo à Luther King: "The Europe that I dream..."

Presidente aproveita ida ao Parlamento Europeu para defender governo de Costa e política macroeconómica de Centeno: aposta no mercado interno

"A Europa com que sonho...", foi a expressão que Marcelo Rebelo de Sousa mais vezes repetiu no discurso que fez esta manhã no Parlamento Europeu, fazendo lembrar a célebre frase de Martin Luther King. O Presidente nem dispensou dizê-lo em inglês: "The Europe that I dream...". Mas, antes do sonho, a realidade. E aí, o Presidente da República aproveitou os holofotes europeus para fazer campanha pelo governo de António Costa e pelas políticas do ministro Mário Centeno.

Marcelo lembrou que "Portugal quer continuar a garantir os equilíbrios financeiros", mas "ao mesmo tempo, começar a compensar setores sociais mais sacrificados no passado recente". E para isso, defendeu o chefe de Estado, "além do investimento privado e das exportações, também o consumo das famílias pode criar crescimento e emprego."

Marcelo lembrou até que a sua origem política é diferente da "atual maioria parlamentar", mas que está empenhado em "reconstruir consensos", numa mensagem de "estabilidade". Alinhado com o que defende o governo socialista, o Presidente quer uma "compatibilização entre rigor financeiro e preocupações sociais, assentes em crescimento pelo dinamismo do mercado interno."

Ainda na defesa de Costa, Marcelo destaca que embora tenha um "caminho diverso" do governo de Passos Coelho, o atual executivo "é também europeísta, respeitador dos compromissos internacionalmente assumidos, apoiado no Parlamento não só por uma das duas principais famílias políticas europeias, mas também por partidos de outra relevante família europeia, que, até agora, tinham estado fora da área do poder executivo constitucional em Portugal."

Embora defendendo a solidez do atual governo, Marcelo lembrou que no período de austeridade, o programa de ajustamento "testou a capacidade histórica dos portugueses para resistirem às crises e aos sacrifícios pessoais de modo a que os equilíbrios financeiros interno e externo pudessem vingar."

O Presidente lembrou que "a Europa não faltou no auxílio a Portugal", mas sem deixar de destacar que "Portugal honrou os seus compromissos, saindo de forma limpa do programa de ajustamento." Após falar da "saída limpa", ouviram-se aplausos no hemiciclo.

Marcelo teve um sonho... europeu

Quanto ao pensamento para a Europa, ele veio em forma de sonho. No sonho de Marcelo há uma Europa sem Brexits ou egoísmos que "quer manter-se unida e solidária, interna e externamente, atenta a possíveis chegadas, desejando que não haja partidas." Nesse mesmo sonho, a UE busca "sempre soluções conjuntas para os efeitos sociais das guerras em zonas vizinhas, nomeadamente no caso dos refugiados, a exigirem que as questões de fundo não sejam esquecidas, sob a premência de meros acordos de curto prazo, que se espera não se revelem questionáveis ou insuficientes."

Sobre os refugiados, Marcelo lembrou que "Portugal tem sido um bom exemplo, ao mostrar-se disponível para incluir refugiados no seio da sociedade portuguesa". Voltaram os aplausos.

O Presidente da República assumiu-se assim como um "europeísta incorrigível", acrescentou ainda que "a Europa com que sonhei e sonho, e sonha a grande maioria dos portugueses, enfrenta novos reptos, bem mais complicados do que os que defrontou no passado. São eles que nos dizem que não é tempo de vacilar ou de claudicar."

A intervenção foi praticamente toda em português, mas, no final e em inglês, Marcelo optou por terminar o discurso de forma inspiradora, contando que a Europa que sonhou "mantém na sua memória o que Portugal, com a força da sua simplicidade, trouxe para e de outros continentes, culturas e civilizações e que nos enriquece tanto." O Portugal que Marcelo levou a Estrasburgo "atravessou mares e terras distantes, mas nunca se esqueceu de que ele pertence às terras de Homero, Shakespeare, Goethe, Proust, Cervantes, Dante, Joyce, Strindberg, Kundera, Kafka, Szymborska e Pessoa." E, mantendo a veia de Luther King, terminou dizendo: "Nós somos europeus. Nós seremos sempre os europeus." Poliglota, Marcelo disse também algumas frases em francês e alemão.

Antes de Marcelo falar, o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, deu-lhe as boas-vindas e revelou que logo no dia da eleição Marcelo lhe disse que queria fazer "a primeira visita de Estado ao Parlamento Europeu". Não se trata de uma visita de Estado, mas esta é, de facto, a segunda visita ao exterior de Marcelo, demonstrando que a Europa é uma das suas prioridades.

No final, Marcelo foi aplaudido, com muitos eurodeputados de pé, incluindo pelo GUE, grupo que integra PCP e Bloco de Esquerda (Marisa Matias, por exemplo, aplaudiu Marcelo.

Marcelo e Schulz fizeram ainda uma conferência de imprensa conjunta, onde o Presidente destacou que "os portugueses são marcadamente pró-europeus", tal como o próprio, "o primeiro-ministro e o presidente da Assembleia da República.

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