Manuel Reis. O homem que mudou Lisboa

Por ocasião da morte do empresário, recuperamos hoje o texto de Ana Sousa Dias publicado em junho de 2001 na revista Ícon, dirigida por Paula Ribeiro

Do editorial de Paula Ribeiro: O Manuel quase não fala. Inventa, transforma, produz. Constrói espaços que transformam uma cidade inteira. Irreverentes e audaciosos

Este texto foi escrito com base em várias conversas com Manuel Reis no escritório do Lux e com colaboradores próximos, designers, arquitetos, frequentadores dos espaços por ele criados. Manuel não quis dar uma entrevista formal mas colocou à disposição toda a documentação que fosse necessária. Aqui se transcreve, com a devida e comovida autorização da diretora da Ícon, Paula Ribeiro, hoje diretora da revista UP, da TAP, grande amiga de Manuel Reis. Foto de Inês Gonçalves que ilustrou a edição original.

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Tem uma profissão de que é, provavelmente, o único titular: criador de ambientes. Observa. Conjetura o salto. Avança quando se sente seguro. Voltamos a olhar e tudo o que o rodeia já está transformado.

De todas as conversas que levaram a este texto, guardemos um momento que mistura os traços do homem: Manuel Reis a entrar pela primeira vez no edifício onde hoje é o Lux, o bar-discoteca-lugar da noite de Lisboa, com o Tejo à janela. A casa é um intrigante paralelepípedo durante longos anos ali parado à espera de um olhar como o dele.

Todo vestido de preto, cabelo rapado, amável e calmo, diz que sentiu "um baque" quando abriu a porta do velho armazém. Não é óbvia a finalidade daquela arquitetura de 1924. Talvez tenha sido feita assim para o Lux se instalar. Ou para espantar o homem vestido de preto. Certo é que existe uma fotografia dos anos 40 que mostra a casa cheia de automóveis. Entreposto marítimo, isso era de certeza, porque tem as instalações portuárias ali mesmo à beira.

Manuel Reis está placidamente a conversar, sentado a uma mesa do restaurante Bia do Sapato, numa das raras tardes de maio em que não há nenhum paquete de cruzeiro encostado ao cais. Conta, portanto, que sentiu um baque porque o lugar tinha uma força inesperada. Durante 20 anos, passara ali na avenida e namorava a caixa a repousar sobre colunas estreitas, instalada com indiferença sobre a estrada e a linha do comboio de mercadorias, mas não sabia como era por dentro. E então viu como era uma coisa sólida e não quis mudar nada de fundamental: o chão, as colunas, as janelas abertas ao rio.

Como chegou até ao Tejo este homem que obstinadamente se esquiva a entrevistas formais e se esconde, sempre visível, em lugares públicos onde todos os conhecem?

Nasceu em Albufeira, no Algarve, antes de as ruas da vila de pescadores se tornarem passeio de turistas - em 1946, ano de recomeço histórico das várias europas saídas da Segunda Guerra. Mudou-se para Lisboa para estudar, aos 17 anos, e de facto acabou o liceu na capital. Mas no curso superior de Economia começou a tropeçar em aulas, exames e chumbos, porque outras disciplinas o interessavam mais fora da escola. Eram os anos 60, a mudar tanta coisa por todo o lado e também em Lisboa, e também em Paris, onde se deslocava sempre que podia.

Não aprendeu Economia, mas foi nessa altura que começou a saber encontrar a coisa certa num mar de banalidades. Um olhar certeiro que treinou ao longo dos anos. "O entusiasmante é não saber o que se vai encontrar". Não aprendeu, simplesmente sabe. Descobriu isso em muitas idas à Feira da Ladra ou ao Marché aux Puces de Paris, para encontrar no meio do bric-à-brac aquilo que valia a pena. Depois guardava os objetos ou vendia-os. Chegou o momento de ir à topa, foi mobilizado para Angola, ficou em Luanda, de 69 a 71, e percebeu que os outros gostavam do arranjo que fazia com as coisas. De novo em Lisboa, passou a trabalhar na TAP. Tornou-se mais fácil viajar e hoje guarda esse prazer que lhe é essencial para não ficar parado no tempo lisboeta. Abriu uma loja - 1900-1930 - na Travessa da Queimada, essencialmente com objetos dessa mesma época. Foi o primeiro passo nas andanças do Bairro Alto. Lisboa estava a acordar de um sobressalto: era maio de 1974.

No final dos anos 70, tinha a certeza de que bastava um impulso para mudar aquele ambiente. "O meu interesse era criar polos de atração no Bairro Alto", diz agora, como se fosse uma tarefa que lhe cabia. Conheceu o transmontano Fernando Fernandes que tinha, com um irmão, o restaurante Pátio Alentejano, da Costa da Caparica, e convenceu-o a mudar-se para ali. Encontraram uma velha casa de pasto - a Adega do Baptista -, transformaram-na num restaurante de qualidade como não havia antes no Bairro Alto. É o Pap'Açorda, cujo interior decorou. Carlos Fonseca era cliente da loja e Manuel Reis insistiu para que abrisse um bar e ele, em troca, persuadiu-o a ser sócio do projeto. Nasceu o Frágil, em 1982. Um ano depois, Manuel Reis fechou a 1900 e abriu a Loja da Atalaia, com Margarida Subtil ao lado. Uma nova fase do ciclo, e o que depois aconteceu no Bairro Alto é uma coisa sobejamente conhecida. Ele sabia que ia ser assim.

A intuição repete-se ao longo do tempo. Escolhe um lugar, escolhe um grupo, prepara o salto, depois as coisas acontecem pouco a pouco. Ele olha como se estivesse sempre a observar: as pessoas, o lugar, as coisas que compõem o lugar, e não apenas o que ali está mas também aquilo que podia estar.

Ele que nunca tinha pensado em ter um lugar da noite inventou maneiras de utilizá-lo sem ser apenas um bar de bebidas e conversa. Mas era ao mesmo tempo um bar de bebidas e conversa, um ambiente que marcou os 16 anos em que existiu: artistas, intelectuais, jornalistas, amigos, tudo se juntava naquele espaço pequeno, aconchegado, quente. Mas não bastava. Manuel Reis inventou várias intervenções quer no interior quer no exterior do Frágil, e logo no ano da abertura pôs em prática outra ideia que veio a transborda para outros lugares: os desfiles de moda de Manuela Gonçalves, com Isabel Branco na produção. Em 1985, a Gare Marítima de Alcântara foi o cenário de um desfile memorável. E foi essa a primeira atividade da Gare fora dos caminhos marítimos.

Quando se compra nas lojas dele, paga-se o preço da garantia da qualidade. Um preço alto, é certo. Mas depois aparecem pelo caminho outras histórias que fazem perceber de novo que o que o move não é o dinheiro que vai ganhar. Começa aqui a história dos objetos que a Loja da Atalaia produziu na segunda metade dos anos 80-

Pedro Silva Dias estava a acabar o curso de Design de Equipamento, na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, e resolveu ir apresentar umas maquetes a Manuel Reis. Não o conhecia, foi até à Loja da Atalaia meio aflito, com as certezas dos 20 anos. Uns meses depois, as suas peças estavam produzidas, a fazer parte da grande exposição que em 1988 Manuel Reis organizou nos Armazéns Torrens e Marques Pinto, na rua das Janelas Verdes. Ao lado de peças de Filipe Alarcão, Fernando Sanchez Salvador, Margarida Grácio Nunes, Leonaldo Almeida, Eduardo Souto de Moura, Jwow Basto. O catálogo de originais da Loja da Atalaia.

Há uma peça de Pedro Silva Dias, produzida já em 1991, de que foram feitos apenas cinco exemplares. É o móvel Igor, um fuso com doze gavetas, quatro pernas a garantir o equilíbrio de um "animal funcionante". Uma peça está num museu japonês, outra no Museu do design (CCB), as restantes em casas de colecionadores. Manuel Reis produziu esta série limitadíssima, vendida a preço de série limitadíssima. O designer tratava dos diferentes passos da produção, a Loja da Atalaia pagava as despesas. Entre perdas e ganhos, não deve ter sobrado grande quantia. Não era essa a intenção. A ideia era mesmo produzir objetos novos e únicos.

Para apresentar esta como todas as outras peças do catálogo, Manuel Reis inventou sempre festas com encenações espetaculares. A exposição, a luz, a banda sonora faziam parte de um todo, tão pensado como as sucessivas comemorações do Frágil, as exposições de fotografia, os desfiles de moda, os concertos e outros espetáculos. E foram muitas as exposições: Man Ray, Inês Gonçalves, Daniel Blaufuks, Jorge Molder, David Byrne, Rui Sanches, Witkin, Meatyard.

E depois chegou o momento em que Manuel Reis sentiu que se fechava o ciclo do Bairro Alto e do Frágil. Em 1992, soube que a Administração do Porto de Lisboa tencionava entregar para exploração instalações do Jardim do Tabaco, mas não conseguiu ficar com nenhuma. Em 1996, negociou uma série de armazéns em banda, sobre o Tejo. Ao lado, o paralelepípedo.

Manuel Reis fez então aquilo que sempre faz. Olhou os espaços, imaginou-os renovados, encontrou as cores, os móveis, criou os ambientes. Chamou os amigos, conversou com eles e, como sempre, já estava à frente do que os olhos viam. Os arquitetos Margarida Grácio Nunes e Fernando Sanchez Salvador desenharam o conjunto do Lux, em três níveis - discoteca, bar e terraço -, que abriu na véspera do encerramento da Expo"98, 29 de setembro de 1998.

Manuel conta que nesses meses andou atordoado. Ir para o rio era uma ambição, ter aquele edifício era mais do que isso. E ter o Lux sempre cheio de gente, uma mistura dos frequentadores do Frágil e de gente mais nova, e gente ainda mais nova trazida por projetos multimédia e concertos alternativos. Rapidamente, aquele passou a ser o sítio onde todos querem fazer lançamentos, festas, comemorações.

Em 15 de junho do ano seguinte, abriu o restaurante Bica do Sapato, tal como o Lux em sociedade com Fernando Fernandes, José Miranda, David Fernandes e o ator norte-americano John Malkovich, cliente antigo do Pap'Açorda. Um conceito novo, com três espaços diferenciados: restaurantes, sushi-bar, cafetaria.

Foi o arranque de mais um lugar da cidade de Lisboa, um novo polo, como ele diria, que rapidamente se tornou atrativo. Ali abriram, sucessivamente, uma livraria A+A, recheada de livros e revistas de arte e lazer, uma loja da Valentim de Carvalho com música alternativa, a pizzaria Casanova, que também veio da Casa Nostra do Bairro Alto. Já há mais projetos em preparação para os pavilhões em espera, entre os quais um supermercado de produtos biológicos.

E em março de 2001 apareceu mais uma novidade: a Loja da Atalaia, renovada, com arquitetura de Alberto Caetano, mudou-se para ali. Logo nos primeiros ias, os clientes antigos espreitaram, gostaram, compraram. São peças dos anos 70, o mesmo período que preside aos ambientes do Lux e da Bica do Sapato.

Manuel Maria Teodósio dos Reis pode agora dividir os dias pelos vários lugares que criou à beira-rio. É possível encontra-lo na Loja, depois janta na Bica do Sapato, à noite está sempre no Lux. As viagens interrompem esta rotina que ele atravessa com uma tranquilidade extraordinária, como se fosse simples manter no ar tantos números arriscados. E como só avança para novidades quando se sente seguro, o próximo projeto é a consolidação deste polo em frente à Estação de Santa Apolónia.

Sempre a falar baixinho, explica por que é que isto tudo corre de forma diferente do que é habitual. "Só faço aquilo de que gosto", frase simples que poucas pessoas poderão dizer a sério, tal como as palavras que diz a seguir: "Sempre com paixão".

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