Traumas da prisão impediram português de participar no Maio de 68

Luís Rego era o guitarrista de uma banda de sucesso e apesar da fama, as recordações dos meses nas mãos da PIDE impediram-no de participar nas manifestações de Maio de 68, em Paris

É sem "má consciência" que o músico e ator português recorda que teve medo de participar nos protestos em Paris, dois anos depois de ter sido preso pela PIDE (polícia política portuguesa) e de ter passado "da prisão de Caxias para o Olympia".

A história remonta a 1962, quando o português Luís Rego deixou o seu país rumo a França por ser contra a guerra colonial, mas acabou por cair nas mãos da PIDE, em 1966, quando foi em digressão a Portugal com a sua banda Les Problèmes, que se tornaria célebre sob o nome Les Charlots.

Na altura em que surgiu o contrato para fazer três concertos no Cinema Monumental, em Lisboa, o músico ainda teve "uma certa apreensão" mas, como "não era militante do Partido Comunista", pensou que "não havia assim tanto perigo como isso", mas acabou por ser preso logo na fronteira portuguesa.

"Quando voltei, os meus amigos tinham um certo sucesso porque estavam a acompanhar um cantor que, naquela altura, tinha muito sucesso, que era o Antoine. Portanto, voltei da prisão de Caxias para o Olympia", contou o guitarrista do grupo que, em 1967, lançou o primeiro dos três discos gravados ao vivo, nesta sala parisiense de concertos.

Durante a prisão, o músico falhou uma digressão do seu grupo com os Rolling Stones, em França, mas quando regressou a Paris, chegou a acompanhar uma digressão francesa de Chuck Berry.

Apesar do sucesso e da sua banda lhe ter dedicado a canção "Ballade à Luis Rego, prisonnier politique" ("Balada a Luís Rego, prisioneiro político"), as recordações dos quase dois meses nas mãos da PIDE impediram-no de participar nas manifestações de maio de 68.

"Aí era logo expulso, era expulso imediatamente. Disso não tenho dúvida nenhuma", exclamou o português que, em 1968, já era conhecido do público francês, graças ao êxito da canção paródica "Paulette la reine des paupiettes".

O receio de expulsão era, por isso, ainda maior numa altura em que seria facilmente identificável pelo público e pelas autoridades como membro da banda Les Charlots.

"Conhecido ou não, se eu tivesse sido apanhado numa barricada, voltava a ver o inspetor da polícia que me dizia: 'Oh pá, então você não tem vergonha de fazer sofrer os seus pais?'", afirmou, remontando às memórias da prisão, em Caxias.

O português que, a partir dos anos de 1970, fez carreira como ator e rodou com os realizadores Philippe Garrel, Noémie Lvovsky, Bertrand Bonello e João Canijo, afirmou, ainda, que não conheceu "nenhum português que tivesse participado de maneira ativa nas barricadas". "Quem não teria medo de ir para a PIDE?", lançou.

Ainda que estivesse em Paris, Luís Rego viveu o Maio de 68 de longe, através "das televisões e dos jornais - ainda que a informação fosse um bocado truncada", através de "alguns franceses que iam às barricadas" e do "ambiente de tolerância que havia em todo o lado".

"O ambiente que havia em Paris era muito simpático. Era um ambiente de mudança. A maioria das pessoas não pensava de uma maneira dramática os acontecimentos. Os slogans eram todos pacíficos, não havia slogans de guerra. Evidentemente, havia gente que tinha muito medo e pensava que havia uma revolução", descreveu.

"É necessário, mais do que nunca", um outro Maio de 68, para travar "um período muito feio" de "individualismo, guerra feita aos migrantes e exclusões", disse

Nessa altura, o grupo "Les Charlots" ganhou "um pouco de massa" e Luís Rego até comprou um Ferrari, mas deu-lhe pouco uso porque "aquilo levava litros e litros de gasolina" e as gasolineiras estavam todas em greve.

Acabaria por trocá-lo por um "Dois cavalos" (antigo Citroën 2CV), que era mais fiável e menos oneroso nas reparações.

O ator, que entrou na conhecida comédia francesa "Les Bronzés", acrescentou que "estava de acordo com os motivos da contestação" e considerou que "é necessário, mais do que nunca", um outro Maio de 68, para travar "um período muito feio" de "individualismo, guerra feita aos migrantes e exclusões".

"Os da minha geração, que vieram de Portugal, tinham sempre um sentimento que a França era um país de liberdade, democrático, que não tinha nada a ver com o fascismo que nós conhecíamos. Essa ideia foi muito consolidada com o Maio de 68, parecia mesmo a lógica das coisas. Estávamos enganados, certamente, mas o sentimento que tínhamos era esse", concluiu.

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