Luís Montenegro assume-se como reserva para o futuro

Antigo líder social-democrata surpreendeu o PSD ao anunciar que renuncia ao mandato de deputado. E atacou Rui Rio. Críticos insistem no erro de fazer acordos com o PS

A surpresa do 37.º congresso do PSD chegou a meio da tarde de ontem. O antigo líder parlamentar Luís Montenegro subiu à tribuna para anunciar a renúncia ao mandato de deputado e avisar que no futuro poderá pensar na liderança do partido. E tudo isto mesclado por um ataque direto a Rui Rio.

A intervenção de Montenegro, pela forma e o conteúdo, ofuscou a dos que ainda levantaram a voz para questionar a estratégia política de Rio. Mais nenhum ousou perfilar-se como potencial candidato à liderança... após 2019, é claro. Miguel Pinto Luz e Hugo Soares limitaram-se a marcar terreno, porque até os argumentos que traziam no bolso para criticar a nova liderança Montenegro condensou-os numa crítica feroz ao governo e à possibilidade de entendimentos com o PS. E de longe foi o mais ovacionado de todos os oradores de ontem.

Num clima que apontava para a união - quase todos os órgãos nacionais subscritos por Rui Rio e Santana Lopes - foi uma verdadeira surpresa o anúncio de Montenegro que abandona o Parlamento no dia 5 de abril, 16 anos depois de ter tomado posse como deputado. "Conhecem a minha convicção e a minha determinação, se for preciso estar cá, eu cá estarei, para o que der e vier, sem receio de nada e sem estar por conta de ninguém, sou totalmente livre", afirmou perante o 37.º Congresso do PSD.

"Desta vez decidi não, se algum dia entender dizer sim, já sabem que não vou pedir licença a ninguém", afirmou. Montenegro passou parte da sua intervenção a explicar como será a sua relação com a nova direção e liderança do partido - ele que apoiou Pedro Santana Lopes. "É tempo de nos deixarmos de guerras artificiais. Não sou, não quero e não vou ser oposição interna a Rui Rio. Eu sou e continuarei a ser oposição a Costa, Catarina e Jerónimo."

Mas para quem não quer ser oposição interna, o ataque a Rio foi duro, embora nunca explícito. Foi dirigido aos que o acusam de "falta de coragem" e de "taticismo" por não ter avançado na corrida à liderança do PSD, quando "não fui eu que estive à espera entre desejos alternantes de ser primeiro-ministro e Presidente da República". E quanto a "selos de calculismo alguém deve ter a caderneta cheia".

Depois quer dar espaço a Rio para que prove o que vale na oposição. "Eu sei que Rui Rio é forte, eu confio em si", garantiu. Dizendo também que irá "sempre ajudar o PSD" na batalha para vencer as próximas legislativas. Até porque considera errado entrar pelo caminho das aproximações ao PS, o que classificou de "logro". "Imaginarmos que podemos ser um apêndice deste partido socialista bloquista é um suicídio politico."

Assim, prometeu que estará "ao lado" de Rio a "combater o neossocialismo bloquista", embora, reconheceu, seja "justo dizer" que este é um combate "particularmente difícil de vencer".

Seguiram esta linha de pensamento Miguel Pinto Luz, ex-presidente da distrital de Lisboa do PSD, que antes do congresso já tinha desafiado Rio a clarificar que consensos defende, e Hugo Soares, o líder parlamentar cessante que não tem a confiança do novo presidente para continuar a comandar os deputados sociais-democratas. Hugo Soares reclamou novamente do novo líder um "não" adiantado ao Orçamento do Estado para 2019.

Os apelos bateram contra a parede. De tal maneira que Nuno Morais Sarmento, que esteve desde a primeira hora com Rio e integra agora o seu núcleo duro político, lançou do Centro de Congressos de Lisboa um apelo ao Presidente da República para que patrocine os acordos de regime alargados para que se deixe de falar do "centrão".

Rui Rio também não desarmou e, à margem dos trabalhos do congresso, em entrevista à Antena 1, admitiu que até às legislativas de 2019 não haverá tempo para implementar as "reformas do regime" que quer promover (do sistema político, do Estado e da justiça, foram os exemplos que deu). Contudo, acrescentou que haverá até lá tempo "para se assinarem declarações de intenções", tendo estas necessariamente de passar por "consensos alargados".

Um dos discursos mais esperados foi o de Pedro Santana Lopes, mas só aconteceu a roçar a meia--noite. O adversário de Rio afirmou que foi "natural" o entendimento com o opositor para a constituição das listas e órgãos nacionais, com "sentido de responsabilidade".

"Somos um partido só, com um só presidente, a Rui Rio cabe a legitimidade plena para liderar", afirmou. "Tive dúvidas sobre a possibilidade de entendimentos com o PS no final da legislatura sobre as reformas, mas ele tem vontade política". Santana quis ainda fazer um apelo ao partido para estar atento às políticas sociais, pois "têm de estar permanentemente na nossa agenda". À hora de fecho desta edição ainda discursava ao congresso.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".