Lisboa dança na rua: é giro e não se paga

Em jardins e miradouros, ou junto aos quiosques, os lisboetas fazem bailes ao ar livre. Há forró, kizomba, tango e muito mais.

Há uma música doce no ar. "Se não fosse o forró, que seria de mim Deus meu, que seria de mim", canta a voz nas colunas de som, junto ao quiosque, na Avenida da Liberdade. É uma música gostosa, tropical, que convida à dança, e os pares, rapazes e raparigas que foram chegando aos poucos, rodopiam na calçada, de sorriso no rosto. A noite está morna e o baile ainda agora começou, há de prolongar-se até à meia-noite e, para quem passa, é uma boa surpresa. Há turistas que param a contemplar a cena, muitos puxam do telemóvel e fotografam, fazem vídeos. Há quem entre na dança, talvez viesse já com essa ideia, porque estes bailes de rua são agora frequentes em Lisboa. Há-os por todo lado, em miradouros e praças, junto aos quiosques, no Jardim do Estrela, e dança-se de tudo: o forró e o kizomba, o lindy hop, o tango ou as danças folk europeias. São noites de convívio, animam-se os espaços desabitados na cidade e, além disso, não se paga, diz quem frequenta estes bailes de rua informais.

No Quiosque O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo, em plena avenida, há serões semanais de forró, ao domingo - chamam-lhe o Forró da Liberdade, com toda a riqueza de sentidos que o nome tem. E às terças, quinzenalmente, é o kizomba, o fenómeno africano que conquistou os portugueses e está a pôr meio mundo a aprender aqueles passos sensuais. Nas noites de forró e de kizomba, chegam a juntar-se ali 300 pessoas, a voltear na calçada.

Mas este não é o único sítio de Lisboa onde se pode encontrar com estes bailes espontâneos de ar livre, em geral convocados por grupos de amigos no facebook. Miradouros e praças ou o coreto do Jardim da Estrela podem transformar-se facilmente em terreiros improvisados.

"Só precisamos de bom piso, se for em mármore melhor, porque é liso. Temos um clima ótimo para dançar na rua", diz Cátia Fonseca, que em 2008 descobriu o lyndi hop - dança americana filha do jazz e dos blues, nascida no Harlem, em Nova Iorque, no final dos anos 20, início dos 30, durante a Depressão.

Para esta comunidade do lindy hop - é assim que eles se referem a si próprios -, dançar na rua acabou por ser a escolha natural. "Queríamos sair, ir dançar, mas não havia bares com a nossa música. Em 2010, comprámos uma coluna de som e viemos para a rua", conta David Afonso, que é bolseiro de doutoramento no Instituto Superior Técnico, professor de lindy hop e, juntamente com Cátia Fonseca, um dos dinamizadores destes fins de tarde no coreto.

A princípio iam para o Largo do Carmo, onde já eram habituais os serões de tango e das danças folk europeias, mas com as obras no largo tiveram de escolher outro lugar e acabaram por rumar ao Jardim da Estrela.

Há anos que usam ali o coreto - "o sítio perfeito, com chão liso, coberto, e com um quiosque perto para podermos beber água", nota David Afonso. Por isso quase todos os domingos vão ali praticar o lindy hop, e não são os únicos a usar informalmente o coreto. Os das danças europeias também por lá param muito.

Recriação urbana dos bailes

As coisas acontecem naturalmente. "Não temos nenhuma organização formal. Quando nos apetece dançar, juntamo-nos e levamos o nosso som", conta Cátia Fonseca. O facebook dá uma grande ajuda, é o que todos usam.

"A única regra é termos vontade de dançar, e não há sequer uma regularidade, pode acontecer durante três dias seguidos, ou podem passar semanas sem nos encontrarmos", explica Sara Abreu, que há anos está ligada às danças europeias. "Não pertenço à geração que começou isto, em 2004, no Largo do Carmo, mas o espírito é o mesmo: vontade de dançar e a possibilidade de divulgar estas danças. Há pessoas que passaram a dançar connosco depois de nos terem visto na rua", conta.

Danças de roda, a par, em linha, a três, as danças europeias, ou as Balfolk como se designam no meio, são afinal o começo disto tudo. "São as danças tradicionais dos povos europeus, nascidas há muitas centenas de anos num contexto rural, que os camponeses dançavam nas festas de aldeia, ao ar livre, nos terreiros, ou depois de um dia de trabalho", lembra Sara Abreu. "O que fazemos é uma reinterpretação urbana dessas danças ancestrais, trazemo-las para as ruas da cidade e ajudamos a divulgá-las". Hoje é um desses dias. Mais logo, a partir das 22.00, quem for ao Miradouro de Santa Luzia vai poder ver essas Balfolk e, porque não, entrar também na dança.

Noites quentes e milongas

O Jardim das Francesinhas, encostado a uma universidade, o ISEG, e com vista para o Parlamento, às vezes é palco do tango - sempre à quarta-feira, o dia da semana que os "milongueiros" reservaram para os seus encontros de Tango na Rua. É assim que lhe chamam, até na página de facebook.

Desde 2007 que correm Lisboa, já estiveram em mais de 50 locais diferentes, do Largo do Carmo, onde tudo começou, ao Miradouro das Portas do Sol e, no inverno, em sítios cobertos, como as estações do Rossio e do Cais do Sodré.

A milonga - sessão de tango - está marcada para as 21.00, mas não é rigoroso, até porque o objetivo é relaxar e conviver. "Não pensar", diz Ermelinda Fernandes, professora de filosofia e milongueira de há muitos anos. "Tenho 64, danço desde os 18", ri-se. "A dançar não se pensa, é um dos objetivos", afiança. "Dançar na rua", sublinha "é uma ideia muito simpática e uma oportunidade de estar ao ar livre". Se não fosse isso, confessa, não saberia de muitos recantos da cidade.

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