Líder da oposição grega aprende com Passos como governar com austeridade

Grécia e Portugal estão novamente colados por culpa da geringonça. Ex-ministro do PSD vai colaborar em programa eleitoral de partido que lidera sondagens helénicas

Afinal Portugal voltou a estar como a Grécia, ao mesmo tempo que a Grécia quer ser Portugal. O líder do PSD tem hoje à tarde um encontro bilateral com o líder da oposição grega, antes deste dar uma conferência na Universidade de Verão do PSD. Em Castelo de Vide, Passos Coelho e Kyriacos Mitsotakis vão afinar estratégias que contribuam para resgatar da esquerda os governos dos respetivos países. O grego vê a governação de Passos como um exemplo a seguir.

Fonte social-democrata adiantou ao DN que a reunião entre Passos e Mitsotakis vai servir precisamente para discutirem a estratégia dos dois partidos (o PSD e a Nova Democracia, ambos da família PPE) na Europa, mas também para trocarem experiências. O grego vai ser "professor" na universidade de jovens, mas quer ser aluno de Passos no que à governação diz respeito. Prova disso é que a mesma fonte adiantou a DN que em breve irá a Atenas um governante do anterior executivo de Passos Coelho colaborar com o programa eleitoral da Nova Democracia. O partido liderado por Mitsotakis lidera neste momento as sondagens na Grécia, sendo apontado como futuro primeiro-ministro do país.

Muito do combate político na Europa faz-se hoje através das famílias políticas. A pacata vila alentejana de Castelo de Vide está a ser o centro de tudo isso nestes dias. Se hoje os líderes da oposição de Grécia e Portugal se encontram, ontem os eurodeputados Paulo Rangel (do PPE e do PSD) e Marisa Matias (do BE e da esquerda unitária) estiveram separados por quatro horas, dez metros e muita ideologia.

Rangel começou, curiosamente, a dizer que devido à governação da "geringonça" estamos "cada vez mais colados à Grécia" E depois - antecipando o encontro de hoje de Passos com Mitsotakis - considerou que "é muito importante aqui o líder da oposição grega para dizer que na Grécia também há quem denuncie a forma como a esquerda radical está a conduzir algumas políticas".

Sobre este encontro, Rangel disse ainda que o considera "essencialmente um sinal contra o populismo e a demonstração de que a Grécia, até o Syriza aparecer, estava a fazer um caminho que podia ter beneficiado muito Portugal." Para Rangel "esse caminho foi interrompido. É certo que agora o Syriza até está a fazer algumas concessões, mas aqueles seis meses de Varoufakis foram suficientes para destruir o trabalho de quatro ou cinco anos."

Ideia diferente tem, claro, Marisa Matias. A bloquista também foi falar sobre a Europa a Castelo de Vide, ao Convento de São Francisco - que fica precisamente do outro lado da rua onde decorre a Universidade de Verão (UV) do PSD. O reitor e eurodeputado do PSD Carlos Coelho fez questão de atravessar a estrada para cumprimentar a amiga. Marisa até brincou com a situação: "Não é uma provocação. Marcámos há muitos meses. A haver provocação seria do PSD". E depois sorriu, pois é público que o PSD faz há 13 anos a formação de jovens naquela vila.

Menos amistoso foi o comentário ao encontro Passo-Mitsotakis. Marisa demarca-se da governação do seu amigo Alexis Tsipras, mas critica a Nova Democracia. A bloquista diz que "infelizmente, o que se está a passar na Grécia é um programa que é muito doloroso ainda para a população grega e continua a ter uma dose ainda enorme de austeridade." Porém, diz que "se há responsáveis pela situação a que o país chegou, seguramente que a Nova Democracia está à cabeça".

Marisa considera ser "perfeitamente natural que as famílias políticas dos diferentes países se articulem, que definam agendas comuns e se juntem em iniciativas desta natureza", mas diz não acreditar "sinceramente, que a Nova Democracia seja uma solução para a Grécia".

Mesmo sem se cruzarem, houve um despique ideológico Rangel-Marisa em Castelo de Vide. A começar na notícia do dia: a proposta de António Costa contra o Terrorismo, em que o primeiro-ministro vai levar à cimeira dos líderes do sul, em Atenas (onde não irá o espanhol Mariano Rajoy), a ideia de regenerar as periferias.

Rangel foi duro e comentou que "se é esta a prioridade de Costa, estamos conversados sobre a sua visão para Europa. Porque o problema das periferias e do terrorismo põe-se essencialmente em países como a França, a Bélgica ou o Reino Unido". Rangel diz mesmo que a proposta de Costa "é uma coisa manifestamente pífia para alguém que pretende ter um papel e uma voz na Europa (...) uma proposta típica de um presidente de câmara, não de um primeiro-ministro." Já Marisa Matias aplaude a proposta ao defender que "o combate à pobreza e à exclusão social será sempre uma boa medida para também evitar que surjam movimentos e fenómenos destes."

Paulo Rangel foi, até agora, o orador da UV que mais atacou Costa e foi até várias vezes aplaudido pelos jovens, quase ao jeito de intervenção num comício. Rangel começou por dizer que António Costa é "o David Cameron português porque também foi um político que renegou os seus princípios para salvar a sua pele". E não deixou também passar a falência do PS, noticiada ontem, questionando: "Se o PS não se governa a si mesmo, como há-de governar o país?" Os jovens deliraram.

Depois, claro, colou Portugal à Grécia denunciando uma "perda profunda de credibilidade" externa do país. Horas mais tarde, Marisa contra-atacou dizendo que "se as metas que o dr. Paulo Rangel defendeu estão finalmente a ser cumpridas, se começa a haver mais emprego, se as pessoas estão a viver melhor, eu penso que isso não se trata, de maneira nenhuma, de uma leitura séria da realidade." Para Marisa trata-se apenas de "um desejo do dr. Paulo Rangel".

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