João Goulão: "Consumo recreativo de canábis vai discutir-se a curto prazo"

Há mais de 20 anos a trabalhar nesta área, o diretor do SICAD, João Goulão, é o anfitrião do III Congresso da entidade que dirige. Toxicodependência, jogo online e tradicional e o consumo de álcool vão estar em análise no CCB

Entre a tarde de hoje e quarta-feira vai falar-se no Centro Cultural de Belém de dependências: álcool, droga e jogo. As políticas seguidas, os tratamentos e o que o futuro pode trazer nestas áreas são alguns dos temas em análise. Ao DN o diretor-geral do SICAD, João Goulão, fala sobre o congresso e, em particular, sobre a canábis, um dos temas do primeiro dia. Explica que tem havido um aumento do consumo desta substância no sexo feminino, ao mesmo tempo que chegam aos centros de tratamento mais pedidos de ajuda. A discussão em torno da legalização do consumo recreativo de canábis é, no seu entender, inevitável a curto prazo.

Que objetivos tem o SICAD para este congresso?

É o terceiro congresso do SICAD, onde se comemorará no dia 27 os 10 anos do Fórum Nacional Álcool e Saúde. Queremos discutir os temas mais prementes na área das dependências. Queremos uma reflexão nos temas centrais: canábis, que ocupará o primeiro dia; no segundo os temas centrais são a redução de risco e o jogo (amanhã é o Dia Mundial contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas). São temas pertinentes em Portugal, como a questão das salas de consumo assistido, que haverá em breve em Lisboa. O terceiro dia será a comemoração da FNAS, uma plataforma onde foi possível reunir entidades relacionadas com o consumo de álcool, algumas do Estado, da produção, etc. É uma plataforma que tem permitido pontos de contacto entre várias entidades, incluindo quem vende bebidas alcoólicas.

O consumo de canábis é, provavelmente, um dos temas prioritários...

É uma questão que se coloca na sociedade. Na Assembleia da República houve a discussão sobre o uso [terapêutico] da canábis e congratulamo-nos com a separação entre o terapêutico e o uso social. A discussão foi sobre o primeiro, mas de certeza que o uso recreativo irá discutir-se a curto prazo. E aí acho que podemos aprender com experiências em outros pontos do mundo.

A discussão não deveria ser ao mesmo tempo?

As questões são diferentes. Os produtos de canábis são de longe os mais consumidos em Portugal, tal como em todo o espaço europeu, e misturar os usos iria introduzir questões diversas. O que se pretendeu foi ter uma discussão séria sobre as consequências do uso, sobre se haverá vantagens de uma apropriação do Estado do circuito da produção à distribuição, fixando regras para a comercialização e quais as consequências disso.

Porém, o consumo recreativo tem subido. Isso reflete-se nos pedidos de tratamento?

Tem havido um aumento do consumo, particularmente sensível no género feminino. E tem existido um aumento do número de pessoas que procuram ajuda nos centros de tratamento. Essa subida terá que ver com o trabalho das comissões para a intervenção na toxicodependência. As pessoas que aí chegam [algumas enviadas pelas autoridades policiais ao abrigo da Lei da Descriminalização aprovada em 2000] são colocadas sobre os impactos do consumo ao longo da vida. Perante esses factos, muitas aceitam iniciar um processo terapêutico. Há outras que, ao serem confrontadas com sustos, muitas vezes pela diferença inopinada de potência da canábis disponível no mercado - é muito mais potente em THC [principal substância psicoativa da planta de canábis] do que antigamente -, sofrem ataques de pânico ou surtos psicóticos. O que as leva a pedir ajuda.

Referiu que o consumo subiu, especialmente, por parte das mulheres...

Nota-se um agravamento de consumo de canábis (dos outros tipos de droga também, mas desta em particular) que é acentuada no género feminino. Os consumidores, no geral, têm entre 25 e 44 anos, ou seja, a população adulta.

A decisão de Lisboa em avançar com três salas de consumo assistido é uma medida importante?

É, juntando às respostas existentes. Depois de em 1999 parecerem indispensáveis estas salas conseguimos, com o contributo das equipas de rua, chegar a um momento em que parecia não ser necessário. Mas, agora, um pouco em consequência da crise económica que afetou o país, a qual teve impacto nestas pessoas mais vulneráveis, encontramos uma população potencial utilizadora destes equipamentos que parecia ter desaparecido. De pessoas de maior idade e que não se mobilizam para tratamento.

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